Para que serve uma COP? Essa tal Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), na qual países e organizações de todo o mundo se encontraram para debater o rumo da nossa órbita? Pois gostaria muito de estar lá, em Belém, encontrando pessoas que fazem a diferença no mundo, aumentando minha rede de contatos. Já estive em outros eventos grandes com gente de todo canto, é tipo o que é uma “Disneylandia” para crianças. Ver tantas iniciativas de nações, etc., mostrando que estão fazendo sua parte para amenizar o aquecimento global é um alento na alma e na mente.
Mas, como na rota da vida, boa parte das vezes, não somos nós que definimos o destino, eis-me aqui, em Porto Alegre, tendo de dar conta de outras demandas. Apesar de não estar de corpo presente, estou acompanhando por tabela, como consigo. Por isso, vou tratar hoje desse tema que me é muito caro. Não só pela conjuntura do mundo, mas também do que me envolve, afinal somos vítimas dessa necropolítica que tem aumentado a frequência de eventos extremos (viste o que aconteceu no Paraná?). E tem me feito repensar o meu papel nesse cenário.
Aproveito para sugerir alguns ângulos de visão para se conseguir interpretar com diferentes lentes o que é essa tal COP. Antes de qualquer coisa (aliás, isso vale para tudo), precisamos saber identificar os interesses e o posicionamento de quem está falando. Por exemplo, quem está dando o recado tem subsídios, lastro para dizer o que está acontecendo? Esses dias, vi na Globonews uma pesquisa com brasileiros para saber se a COP vai trazer vantagens ou não para o Brasil.
Ora, há um gradiente de coisas boas e ruins. Isso depende de onde você mora, do seu meio. Para os moradores de Belém, tenho certeza de que ficará um legado inimaginável. Agora, o governo do Brasil, com todos os problemas que tem, está empenhado em que as negociações avancem. Muito diferente de outras COPs que foram realizadas em países cuja economia é totalmente dependente do petróleo. Por isso, se você quiser saber o que está acontecendo nas negociações da alta cúpula, sugiro ver os boletins do Claudio Angelo, do Observatório do Clima. Ele esteve em todas ou quase todas as COPs. E, para ele, até o momento, a COP 30 é a dos milagres. Vale conferir.
Outra alternativa para ficar por dentro do que tem acontecido é conferir a cobertura da Casa Socioambiental, que reúne profissionais e veículos brasileiros que vêm fazendo um trabalho diferenciado com olhares diversos sobre o clima. A iniciativa da casa foi idealizada e organizada ao longo do último ano pelas equipes da InfoAmazonia, #Colabora, Envolverde, Eco Nordeste, ((o))eco, Amazônia Vox, Associação de Jornalismo Digital (Ajor) e Open Knowledge Brasil. Integram ainda o time da casa a Agência Pública, Alma Preta, Ambiental Media, AzMina, Carta Amazônia, Ciência Suja, Intercept Brasil, Nexo, O Joio e O Trigo, Repórter Brasil, Revista Cenarium, Site Independente A LENTE, Agência Urutau, O Varadouro e Voz da Terra.
Ou seja, a redução de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs) é um assunto muito complexo que exige uma série de conexões. Boa parte do que consumimos, leia-se produtos da indústria petroquímica, como plástico, têxteis, insumos derivados de petróleo, tem cadeias de vida que deixam muitos rastros. Portanto, o tema requer várias conexões e tem tudo a ver com a nossa cultura de consumo e modo de vida. Simplesmente ser contra ou a favor de ter um evento desse tamanho no Brasil é uma forma tão rasa quanto um prato.
Infelizmente, há comentários e coberturas de doer os ouvidos. Imaginem que o Ratinho, do SBT, disse que a Amazônia cobre só 1% do planeta! Vale conferir o trabalho de agências de checagem, como a Lupa. O apresentador disse isso na abertura da semana da COP 30! Desinformação em rede nacional!
Como já escrevi aqui em outros momentos, nosso planeta é uma nave, ou melhor, um navio. Nessa versão do Titanic, quem consegue compreender o que está acontecendo sofre mais. O fato é que nessa embarcação há diferentes classes, e tem gente que está se lixando para quem já está sentindo os efeitos da água entrando dentro desse grande barco. Muitos acreditam que terá barcos salva-vidas para os privilegiados. Outros nem sabem que suas vidas estão ameaçadas. Enquanto isso, lobistas do petróleo (estima-se que se tenha uns cinco mil em Belém) defendem que precisamos focar na adaptação, ou seja, o negócio é não mitigar, não reduzir as emissões. Por tudo isso, informe-se com fontes confiáveis. Para que você tenha noção em qual classe do navio você está.
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Foto da Capa: Bruno Cruz / Agência Pará

