“Teus ombros suportam o mundo”
Drummond
Final do dia. Quem tem casa volta para ela. E vai passando por quem não tem. Os corpos pesam dos dias. Gente sem casa, quilos de tarifaço, de trabalho difícil, de falta de clientes, de clientes insatisfeitos, de desrespeitos nas interações polarizadas. Parecem carcaças. Ninguém se olha. Ainda. Mas agora já estão pegando as coleiras, quando é necessário. Clóvis, por exemplo, não precisa. Acompanha seu tutor e obedece aos comandos de segurança. Cuida, Clóvis! Para, Clóvis! Venha, Clóvis! Um dia, tomou uma ruim do Charuto, que é grande, mal-humorado, mas no fundo é um bom cão.
Descontadas as ruins, tudo parece melhor. Madonna, a vira-lata, espera no portão. Seus latidos não assustam mais ninguém, a não ser o imigrante uruguaio, dono ou inquilino da casa de Madonna. Ele detesta quando Bóris se aproxima, pois sabe que o cachorro vai mijar. Bóris é jovem, seu jato é forte, adentra a frente da casa. O uruguaio faz cara feia, enquanto Madonna se derrete e o romance de Madonna e Bóris aproveita os seus minutos de fama. Ela está triste agora, e não sabemos exatamente por quê. Uma narrativa é sempre uma obra aberta e não podemos cravar que aquela tristeza vem do sumiço do Bóris. Pois ele voltará no dia seguinte, mas o Chico nunca mais.
Madonna amava o Chico, morador de um prédio, três adiante. Chegou a fazer duas cirurgias no rabo, mas a idade não suportou o avanço da doença. Deixou saudade em Madonna, em Bóris, em Clóvis e até mesmo no Charuto. Já a Luna não parece ter sentido. Fiel à sua condição, deve duvidar da morte. Ela é maior do que o Charuto, parece mais braba do que ele, mas não é. Dali jamais saiu um rosnado, nem para aquele salsichinha (como se chama?) que tenta subir nela. A escalada é impossível, mas ele nunca desiste. Ela sempre olha com aquele olhar profundamente sincero de uma cadela. Seus corpos desencontrados parecem leves, neste começo da noite.
Parecem amar a vida que é eterna para eles. E, como o gato do poeta, jamais desconfiam de que vão morrer. Não estamos falando da morte em si e, sim, da morte em vida, incluindo a dos tutores, antes daquele passeio. Depois é outra coisa. Olhem para a Frida. Olhem para a Cacau. Basta-lhes aquele passeio, talvez por isso empreendam a dança ágil e perfeita de seus rabos. Cacau é ainda mais contente. Esbanja a gratidão de quem, no fundo, sabe que foi adotada, digna de um amor verdadeiro e que transcende pedigree ou biologia. Mas todos, incluindo o Joaquim e a Sorella, estão satisfeitos de estarem ali. Sentindo o vento. Olhando o mundo. Cheirando-se. Encontrando-se. Isso lhes basta.
Alguns humanos, antes calados, chegam a falar. Contam histórias kafkianas. Um disse que havia tentado caminhar na esteira e apareceu um aviso: “usuário não detectado”. Ficou em dúvida se ainda existia. Depois, pegou as coleiras de Toro e Bolota e desceu. O mundo agora – acrescenta – está menos inóspito. Rabos continuam dançando. Focinhos seguem cheirando. É tanta festa que alguns humanos chegam a se olhar. E – Pasmem – conseguem se dar boa-noite.
Antes daquele passeio, os ombros não suportavam o peso do mundo. Agora, ele não pesa mais do que um cachorro. Na rua, são estes que tornaram o mundo suportável e já seria impossível encontrar o aviso de que alguma presença humana pudesse não ser detectada.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

