Hoje eu quero falar de amor. Nada mais óbvio para se comentar no Dia dos Namorados. Mas não quero divagar apenas pelo amor romântico que justifica as comemorações desta data, quero falar do amor em seu sentido mais esplêndido, que configura a relação afetiva entre os seres. O amor em seu estado visceral, repleto de todas as suas complexidades e belezas.
Não é fácil escrever sobre o amor, esse sentimento embora tão lindo, exige muita atenção para ser definido. Por isso, aproveito-me de palavras já ditas para exemplificar o que eu pretendo dizer. Para começar, remeto-me a dois trechos da música Monte Castelo da Legião Urbana, o primeiro: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e falasse a língua dos homens, sem amor eu nada seria”. Esses versos, tirados de Coríntios 13:1 são uma reflexão sobre a supremacia do amor (no grego original, ágape, um amor incondicional e generoso) em relação a todos os dons espirituais e virtudes humanas. O amor pela humanidade que transcende o indivíduo e suas necessidades egoicas. Um amor que acolhe, que constrói, que sustenta.
O segundo trecho: “O amor é um fogo que arde sem se ver / é ferida que dói e não se sente / é um não contentar-se de contente / é dor que desatina sem doer”, versos tão conhecidos de Camões, revela a incoerência que é amar. O amor, aqui, é descrito como um estado de suspensão, entre o prazer e o tormento, entre o gozo e a ausência, entre o desejo e o medo de perdê-lo. Neste lugar de contradição, o amor se manifesta, não como um prazer constante, mas como uma força que pulsa entre o que se tem e o que sempre falta.
O romance O amor segundo Buenos Aires, de Fernando Scheller, oferece mais uma lente para enxergar esse sentimento. Logo na quarta capa, lemos: “Se você já amou demais, se acredita que todo o amor vale a pena, este livro é para você”. O amor segundo Buenos Aires nos traz diferentes formas de amor. O amor de um pai pelo filho doente. O amor não correspondido de um homem por uma mulher e o de outra mulher por este homem. O amor entre amigos. O amor por um filho adotivo. O amor de uma mãe que, mesmo com medo, pega um avião para visitar o filho. O amor homoafetivo. O amor por uma cidade. O amor de uma cidade pelas pessoas que a habitam.
E é nessa pluralidade que o amor revela sua natureza mais profunda: ele não se limita a um único molde, tampouco obedece aos roteiros que a cultura insiste em impor. O amor de O amor segundo Buenos Aires transita por cenas corriqueiras e, ao mesmo tempo, extraordinárias: um gesto contido, um silêncio carregado de afeto, uma ausência que ainda assim se faz presença. A cidade, personagem viva do romance, torna-se abrigo dessas relações que resistem ao tempo e aos desencontros.
Talvez seja isso que torna o amor tão difícil de se definir e tão essencial de se viver. Porque o amor exige entrega, mas também escuta. Exige presença, mas aceita ausência. É escolha, mas também é instinto. Neste Dia dos Namorados, talvez o convite seja esse: olhar para o amor além do par romântico idealizado e reconhecê-lo também nas amizades que nos sustentam, nos vínculos familiares que nos moldam, nos afetos silenciosos que nos acompanham. Amar é reconhecer a humanidade no outro e, ao fazer isso, expandir a própria.
E, para terminar, permito-me citar também Lulu Santos e sua tão conhecida canção, pois não há como falar de amor sem considerá-lo justo em todas as suas formas. Sem tabus. Sem certo e errado. Sem hierarquias afetivas que coloquem um tipo de amor acima do outro, como se houvesse uma fórmula universal a ser seguida. Que neste Dia dos Namorados e em todos os outros dias, sejamos capazes de reconhecer, acolher e celebrar o amor em todas as suas formas, com todas as suas cores, vozes e texturas. Porque amar, no fundo, é a forma mais corajosa de existir.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

