Todo cuidado é pouco na eleição mais importante da história
Quem torce pelo fim dessa chata polarização que leva muita gente a votar mais contra alguém do que a favor de qualquer projeto político e deixa o debate dos problemas do país com a profundidade de um pires vai ter que esperar, pelo menos, mais quatro anos.
Em 2026, ainda teremos o voto anti, ou o antivoto… o antilulismo e o antibolsonarismo. As pesquisas, todas elas, apontam para a vitória de Lula contra seja lá quem for o adversário. Até aqui, o lulismo tem derrotado os anti. Vejamos a última consulta da Quaest ao eleitorado.
Publicada no dia 14 de janeiro, a pesquisa traz uma novidade que, me parece, é um bom indicador de que Lula ainda enfrenta os anti. Fortalecidos em 2018 com o advento de Jair Bolsonaro, eles derrotaram o lulismo representado por Fernando Haddad enquanto o líder cumpria prisão.
A novidade trazida pela Quaest chama-se Renan Santos. Não sabe quem é o Renan? Pois é… ele é presidente do Partido Missão, que existe oficialmente desde novembro de 2025…
Sabe quantos prefeitos, vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores e governadores tem o Missão? Nenhum. Zero.
Mas Renan Santos foi apresentado aos eleitores em sete cenários de primeiro turno. Em dois, ele aparece com 1% das intenções de voto. Em quatro, 2% dos eleitores apontaram o nome do missionário (será que vão chamar assim os filiados ao Missão?). Em um cenário, Renan conseguiu 4% das intenções de voto. Resultado previsível para o candidato de um partido com menos de três meses de existência.
Agora, a surpresa: Renan foi incluído num dos cenários de segundo turno como o adversário de Lula. E 26% dos pesquisados disseram que votariam nele… É ou não um forte indicativo de que muita gente vota mais para impedir a vitória de Lula do que por conhecer e aprovar o adversário do lulismo?
Lula, vencendo a eleição deste ano, será o segundo político a ocupar o poder por mais tempo no Brasil. O ex-metalúrgico já conquistou a Presidência da República, pessoalmente, três vezes. Vencedor neste ano – e as pesquisas apontam boas chances de isso acontecer –, em 2030, Lula completará 16 anos de poder.
Sem contar, lembremos, as duas vitórias de Dilma, conquistadas com o apoio dele, e os tempos de sindicalista, quando Lula aprendeu a negociar, radicalizando e amenizando posições para chegar, quase sempre, com resultado positivo nos embates decisivos. No sindicato, o então metalúrgico enxergou o caminho que levou ao poder.
Mais tempo do que Lula no poder, só o são-borjense Getúlio Vargas, que comandou o Brasil por 19 anos, de 1930 a 1945 e de 1951 a agosto de 1954. Com uma importante diferença: o gaúcho só foi eleito pelo voto popular uma vez, em 1950.
Getúlio deixou um legado político importante. São coisas dele: o salário mínimo, a regulamentação das férias de 30 dias, a Previdência Social, com os institutos de aposentadoria e pensões (sucedidos pelo INSS na década de 1960), a regulamentação da jornada de 8 horas diárias de trabalho com direito a descanso semanal remunerado…
Mas Getúlio não deixou herdeiros políticos. Cometeu suicídio em agosto de 1954 e o getulismo foi definhando. Os dois mais fortes getulistas, João Goulart e Leonel Brizola, não conseguiram carregar, por muito tempo, a bandeira do são-borjense.
Jango, porque os militares golpistas de 1964 não deixaram. Brizola chegou a pintar como herdeiro de Getúlio e líder de um novo movimento: o brizolismo. Também não durou muito. Embora tenha sido governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro (em dois mandatos), não teve sucesso na luta pela Presidência da República.
Derrotado em 1989 – quando ficou atrás de Collor e Lula – e em 1994 – quando não passou do quinto lugar –, Brizola ainda tentou chegar perto do Palácio do Planalto em 1998, quando foi vice de Lula. Fernando Henrique ganhou a eleição. Foi o começo do fim do brizolismo e a pá de cal sobre o que restava – em Brizola – do getulismo.
Esse ano, Lula ainda estará na defesa do próprio legado, que não é pequeno. São coisas do lulismo: a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, o programa de saúde Agora tem Especialista, o PROUNI e o FIES, que pretendem facilitar o acesso dos pobres ao ensino superior, o Gás do Povo, o Minha Casa Minha Vida, a redução da pobreza, o recente acordo Mercosul/União Europeia, a química com Trump, que garantiu a revogação do tarifaço e das punições pela Lei Magnitsky, o menor desemprego da história, o relativo controle da inflação…
Contra quem Lula vai defender o legado de 16 anos – 22, se somarmos os dois anos e pouco de Dilma Rousseff no poder? Por enquanto, contra o senador Flávio Bolsonaro, do PL.
Escolhido pelo pai – Jair – sem consulta a nenhum outro bolsonarista, Flávio enfrenta fogo amigo. A desconfiança de que o 01 não é páreo na disputa com Lula vai da madrasta Michelle ao guru Silas Malafaia, passando – reservadamente – por líderes dos partidos do Centrão, a direita disfarçada que sempre apoia o bolsonarismo. A preferência, já escancarada por alguns, é pelo governador paulista, Tarcísio de Freitas.
Enquanto Lula luta por si e por seu legado, o bolsonarismo já briga pelo legado de Jair. Mas que legado deixou o mais recente hóspede da Papudinha? O que a gestão de Jair Bolsonaro deixou ao país além da negação da pandemia de Covid, do discurso de ódio e da disseminação de desinformação pelas redes sociais, do incentivo à violência com a liberação da venda de armas, da misoginia, do preconceito contra as minorias e de tantas outras malvadezas?
Embora, na comparação com Lula, seja um estagiário na política, Tarcísio sabe que não dá para chegar ao Palácio do Planalto carregando o fardo da herança do Jair. E o Centrão, como diz o nome, está sempre alerta para a direção indicada pelo dono da caneta.
O governador não vai trocar a reeleição em São Paulo – hoje considerada certa – por uma caminhada cercado de gente que, na hora H, vai na direção indicada pela caneta, hoje e há quase 20 anos, na mão de Lula. E nesse tempo todo de lulismo, alguém lembra de algum período em que o Centrão não teve, pelo menos, uma fatiazinha de poder, uma estatal para chamar de sua, um ministério para dispor??
Tarcísio vai se guardar para quando 2030 chegar. Aí, entra na disputa por ele mesmo. Sem o carimbo do bolsonarismo, ou com essa marca já desbotada, mas com tudo o que fizer de bom no governo paulista.
Em 30, Lula não disputará a Presidência da República. A lei só permite uma reeleição.
Então, fica a pergunta: os próximos quatro anos marcam o fim do lulismo?
Conseguirá Lula preparar um herdeiro? Hoje, o mais próximo disso é Fernando Haddad, que diz que não vai disputar eleição este ano. Quer coordenar a campanha do presidente e, com certeza, garantir um gabinete na Esplanada dos Ministérios ou no Palácio do Planalto.
Mas Haddad já sofreu algumas derrotas importantes. A principal, para Jair Bolsonaro em 2018. Antes disso, na tentativa de reeleição na prefeitura de São Paulo, em 2016, teve pouco mais de 16% dos votos e perdeu para João Dória no primeiro turno. A mais recente derrota de Haddad foi em 2022, quando perdeu o governo de São Paulo para Tarcísio de Freitas.
O resultado da eleição para o Congresso Nacional, esse ano, também será fator importante na criação de herdeiros do bolsonarismo, do lulismo. A quem não se afina com nenhum desses dois movimentos, resta torcer pelo surgimento de alguma nova liderança, ou pela afirmação de alguém que já esteja por aí, como o jovem prefeito do Recife, João Campos (PSB), e o governador gaúcho Eduardo Leite.
O pernambucano, até agora, não tem nenhuma mancha forte no currículo e é de um partido de meia esquerda. Resta saber se o PT engole como porta-bandeira do lulismo alguém que não seja do seu próprio quadro.
O gaúcho vai ser cobrado, sempre, pelo apoio a Bolsonaro em 2018. Além disso, deixou o PSDB sempre um tanto simpático à esquerda, pelo direitista PSD…
Enfim, o quadriênio 2017/2030 pode marcar o fim de uma era política. O nosso voto em outubro deste 2026 será o mais importante e decisivo destes 41 anos de democracia. O atual Congresso Nacional é, se não o pior, um dos piores da história. Para qualquer bancada que você olhar, vai encontrar algum ou muitos malfeitos.
Não podemos errar este ano. A direita golpista vai trabalhar mais para ter maioria na Câmara dos Deputados e no Senado Federal do que para ganhar a Presidência da República, que já sabe ser muito difícil.
Os próximos congressistas vão decidir se os golpistas vão ficar presos ou vão para casa.
Não esqueça que o senador Esperidião Amin apresentou projeto de anistia ampla e irrestrita no mesmo dia em que Lula vetou a redução de penas dos condenados pelo 8 de janeiro de 2022.
É no Congresso Nacional que circula o ar da democracia. Lula – tenha os defeitos que tiver – é um democrata. E um Congresso altamente direitista pode fazer ruir o edifício da democracia que construímos nas últimas décadas.
Vote! E vote bem em outubro!
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Foto da Capa: Marcelo Camargo / Agência Brasil

