a) Apareceu, aqui em cima da página em branco do meu monitor, a frase “Descreva o que você gostaria de escrever”. Faz dias que ela vem, como minha mãe diria, se oferecendo. Minha mãe falava que eu podia, ainda mais levando em conta o meu temperamento, fazer o que bem quisesse, mas que ser oferecida sem ser querida, não. Referia-se a relacionamentos, é claro, a essa coisa de ‘correr atrás de homem’. Tem quem se submeta, mesmo a corrida sendo cheia de obstáculos. Eu sinto preguiça. Ou algo parecido. Tédio, talvez.
b) Pois resolvi descrever o que eu gostaria de escrever e, com toda a delicadeza e boa vontade que o universo me deu, digitei: gostaria de uma crônica sobre paixão. Eu adoro esse estado de turbulência psíquica e orgânica. Sei, já me disseram e já li diversas vezes que a paixão é insustentável. Ninguém aguenta, por muito tempo, tamanha intensidade, o que é uma pena, porque ela é para lá de orgástica. E orgasmos fazem, todos sabem, um megabem.
c) Então, escreveu a coisa, inteligência artificial para quem gosta de falar bonito, o seguinte: “Entre o fogo e o cotidiano: uma crônica sobre paixão. Quando o coração decide desafiar a rotina” e mais uns três ou quatro parágrafos permeados dos clichês narrativos que completam qualquer situação, como “o … é a arte de tropeçar no imprevisto”. O amor é arte de tropeçar. A raiva é a arte de. O sono é a arte. Tudo, enfim, é a arte de algo, inclusive a de triangular.
d) Triangular? Como assim? Explico. Explico é uma fala prepotente. Os ‘machos palestrinhas’, categoria de homem que acredita sempre saber mais que uma mulher, por exemplo, gostam de dizer ‘deixa eu te explicar’. “Helena, quando você escreveu a frase X, você não quis dizer isso que você agora está dizendo”, um me disse, testando se não faço parte do grupo de mulheres que vivem à beira de um ataque de nervos. Eu bem que gostaria, mas não sou de perder a cabeça e ser mal-educada. Tenho pavor de gente grosseira que faz do corpo e da língua um látego. Látego escrevi para que dicionários sejam abertos.
e) Quando eu era menina, no início da minha alfabetização por conta própria, não entendia por que meu nome não começava direto com a letra E. Tem gente que diz ‘é’. Tem gente que diz ‘ê’. E tem gente que diz os dois. Eu falo A, É, I, O, U e A, B, C, D, Ê. Não faço ideia do motivo, se é que há algum. Nas relações triangulares sempre há inúmeros. Elas podem ser de amor, mas, em geral, são apenas uma figura geométrica em que A é apaixonada por B, que sente o mesmo por A, mas que, sabe-se lá o porquê, não deixa C, que não sabe de nada ou se faz de tonta ou se excita com a triangulação.
f) As pessoas alegam mil razões para não sair de parcerias que vão de mal a pior. Penso que, ao fim e ao cabo, emperram por questões financeiras. Um bocado de gente não aceita perder um disco e muito menos baixar o padrão de vida. Tenho cá comigo que são os que não se casam por dinheiro que não deixam de se separar por causa dele. Os outros considero suspeitos. Conheço alguns falsos. Na época em que me divorciei, uma amiga me disse que seria mais inteligente eu arrumar um amante e outra, envolvida com um homem casado, que triângulos esquentavam casamentos. Uma delas mudou de ideia.
g) Eu gosto da letra G. O ginecologista alemão Ernst Gräfenberg, em 1951, criou o termo Ponto G. Segundo ele, localizado na parede anterior à vagina, cerca de 5 cm da entrada. Eu não concordo. Não estou dizendo que ele não existe e que não seja o reino dos prazeres para muitas mulheres. Para mim, é uma parte. Estamos mais para um arquipélago de áreas erógenas do que para uma ilha, mas o médico é ele. Eu sou apenas uma mulher interagindo com o meu corpo de fêmea desde que nasci.
h) Alain de Botton, o filósofo suíço, faz, no livro O Curso do Amor, uma colocação interessante. De acordo com ele, a pessoa com maior probabilidade de destruir alguém é aquela com quem convivemos. O encontro da paixão com a rotina, palavras que a inteligência artificial usou no texto que pedi, de fato, é perigoso no mau sentido. Há perigos benignos. Homens benignamente perigosos. Sobre eles escreverei outra hora.
i) Não pensei que chegaria até essa letra. É um risco. As pessoas agora têm má vontade com textos longos. Eu sou uma mulher apaixonada por eles. Longas conversas me interessam e estimulam minha natureza passional. A palavra ‘passional’ vem do latim ‘passionalis’, que deriva de ‘passio, onis’, paixão e sofrimento. Os apaixonados sofrem. Eu sei o que é sofrer por paixão e o que é sofrer por amor. Por amor é mais complexo, embora as pessoas que amem saibam também ser amadas. Não dá para se dizer o mesmo das apaixonadas. Ou dá. Alain de Botton fala que estão preparadas para o desafio apenas as que têm força para aceitar uma vida de frustração.
j) Frustração? Frustrações. Ninguém é tolo de pensar que dá para contá-las com os dedos de uma única mão. Roland Barthes, no Fragmentos de um Discurso Amoroso, elenca o ciúme como uma insatisfação pesada. O sujeito apaixonado, ele diz, quando vê o interesse do outro captado ou desviado por outras pessoas, passa a ver a todas como rivais, demonizando a quem diz que ama. É fácil dizer eu te amo. Difícil é sustentar o sentimento.
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