
Setembro de 2026 ficará marcado, em Madri, pelas manifestações que ocuparam a Puerta del Sol em defesa de Maricarmen, uma senhora de 87 anos que viveu durante 71 anos no mesmo imóvel alugado e acabou despejada porque já não conseguia pagar o novo valor do aluguel.
Ao ser entrevistado, um dos manifestantes começou citando Trotsky:
“Todas as revoluções são impossíveis até que sejam inevitáveis.”
E continuou dizendo que já não seria possível permanecer calado diante de uma economia rentista e extrativista que beneficia poucos.
Depois, apontou para o valor dos símbolos. A história de Maricarmen havia ultrapassado os limites de um conflito entre proprietários e inquilinos. Tornara-se o retrato de uma contradição: enquanto o mercado imobiliário transforma moradias em ativos cada vez mais rentáveis, pessoas que construíram suas vidas nesses mesmos lugares perdem o direito de permanecer neles.
Confesso que me encanta quando alguém, em uma manifestação popular, consegue expressar uma questão tão complexa com tanta clareza.
Sem transformar a discussão em torcida.
Apenas apontando a contradição.
E pensei que essa clareza não nasce do nada. É fruto de educação, reflexão, repertório e, principalmente, da capacidade de relacionar acontecimentos que, à primeira vista, parecem não ter nenhuma conexão. Um senso crítico que revela o poder de saber pensar.
Para nós, brasileiros, talvez essa discussão seja mais difícil de compreender, porque estamos pouco acostumados a pensar na habitação pública como instrumento permanente de política urbana.
Em várias cidades europeias, uma das estratégias para ampliar o acesso à moradia e enfrentar a pressão sobre os preços é manter um estoque público habitacional.
São imóveis que permanecem sob controle público ou social e podem ser destinados a diferentes grupos: famílias de baixa renda, jovens, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Mas há algo ainda mais interessante.
Esses imóveis não precisam estar escondidos nas periferias.
Ao contrário.
A localização é parte fundamental da política.
Estar perto do transporte público, de escolas, hospitais, comércio, serviços e espaços públicos significa ter acesso à cidade.
Moradia, afinal, não é apenas ter quatro paredes.
É poder participar da vida urbana.
Acompanhei programas e debates sobre esse tema em Barcelona e comecei a perceber que o estoque público não é visto apenas como uma política assistencial. Ele também funciona como uma espécie de contrapeso ao mercado.
Cidades muito valorizadas e turísticas enfrentam um problema que parece simples, mas não é: se morar fica caro demais, quem consegue continuar vivendo ali?
Jovens não conseguem pagar o aluguel.
Famílias precisam se mudar cada vez mais para longe.
Trabalhadores passam horas no transporte para chegar ao emprego.
Idosos que construíram sua vida em um bairro, de repente, já não conseguem permanecer nele.
A cidade começa a expulsar justamente as pessoas que fazem a cidade funcionar.
Por isso existem políticas de proteção habitacional voltadas a diferentes grupos. Para idosos, por exemplo, podem existir modalidades de aluguel social. Para jovens, programas de aluguel acessível, por determinado período, podem ajudar na transição para a vida profissional e permitir que criem vínculos com o bairro e com a cidade.
Não se trata de congelar a cidade.
Trata-se de criar alternativas para que ela não seja inteiramente determinada pela capacidade de pagamento.
Barcelona também adotou mecanismos para enfrentar a vacância imobiliária e ampliar a oferta habitacional, além de instrumentos que permitem ao poder público intervir em determinadas situações e ampliar seu estoque.
E há uma medida que sempre me chama a atenção.
Desde 2018, novas operações residenciais privadas em Barcelona passaram a estar submetidas à reserva de parte das unidades para habitação protegida. É a chamada regra dos 30%.
A lógica é simples: se a cidade gera valor para um empreendimento, parte desse valor também deve retornar para a cidade.
É uma discussão difícil.
Mas é uma discussão que precisamos fazer.
Porque, quando um imóvel se valoriza, a pergunta não deveria ser apenas quanto ganhou o proprietário.
Precisamos perguntar também: quando o valor imobiliário de um lugar cresce muito, quem tem o direito de capturar essa valorização? O proprietário? O investidor? Ou também quem construiu sua vida naquele território?
É justamente aí que a questão de Maricarmen deixa de ser apenas uma história individual.
O conflito não é simplesmente entre proprietário e inquilino.
É sobre quem consegue permanecer na cidade.
E, no fundo, é sobre duas maneiras muito diferentes de enxergar a moradia.
De um lado, a moradia como direito e infraestrutura social.
De outro, a moradia como ativo financeiro.
Mas a história de Maricarmen revela algo ainda mais complexo. Seu imóvel não era público, mas seu contrato era antigo e, por isso, protegia o inquilino. A perda da proteção não aconteceu de uma hora para outra, nem foi consequência automática da venda do imóvel a uma grande incorporadora. Foi resultado de mudanças legislativas que, ao longo de décadas, alteraram as regras de continuidade dos contratos antigos.
Na Espanha, durante boa parte do século XX, determinados contratos de aluguel ofereciam proteção duradoura aos inquilinos, inclusive com a possibilidade de transmissão a familiares em circunstâncias específicas. Em 1985, o chamado Decreto Boyer eliminou a prorrogação obrigatória para os novos contratos. Em 1994, uma nova Lei de Arrendamentos Urbanos estabeleceu limites para a continuidade de contratos anteriores e para a transmissão dos direitos de locação.
Maricarmen permaneceu no apartamento, pagando o aluguel, mas a interpretação judicial foi a de que o direito de continuar sob aquelas condições havia terminado para ela.
O mercado imobiliário não mudou sozinho.
As regras que definem quem pode permanecer em uma moradia também são escolhas políticas.
E, quando essas regras mudam, não mudam apenas os contratos. Mudam as possibilidades de vida de quem depende deles.
Há uma ironia difícil de ignorar nessa história. O contrato original havia sido assinado pelo pai de Maricarmen, em uma época em que as mulheres não tinham a mesma autonomia jurídica dos homens. Décadas depois, a transmissão do contrato à filha tornou-se justamente o ponto que impediu a continuidade da proteção.
A legislação que antes permitia a permanência familiar passou a estabelecer limites para ela. E, quando a proteção contratual deixou de valer, a valorização imobiliária ganhou espaço para impor outra lógica.
É importante distinguir essa história da venda de habitação pública: o imóvel de Maricarmen era uma moradia privada. Mas os dois temas se encontram em uma questão maior: o que acontece quando a moradia deixa de ser tratada como parte de uma política de interesse coletivo e passa a responder prioritariamente à lógica da rentabilidade, tanto no setor público como no privado?
Quando uma habitação pública é vendida, ela pode representar uma entrada imediata de recursos para o Estado.
Mas existe uma pergunta incômoda:
Quanto custará recriar essa moradia pública no futuro?
É aí que a conta começa a ficar mais interessante.
Porque vender um imóvel público pode parecer uma boa solução patrimonial no presente. O problema é que a necessidade de moradia não desaparece porque o imóvel foi vendido.
Ela continua ali.
A população continua precisando morar.
E, em cidades onde os preços imobiliários sobem muito, recompor esse estoque depois pode custar muito mais caro.
O mercado imobiliário também ganhou uma dimensão financeira cada vez maior.
Fundos de investimento, grandes grupos empresariais e pequenos investidores passaram a participar de um mercado em que a moradia pode ser tratada como ativo, reserva de valor e oportunidade de investimento.
Não há nada de errado, por si só, em investir.
A questão começa quando a lógica do investimento passa a disputar espaço com a função social da habitação.
Quando a rentabilidade de um imóvel passa a valer mais do que a possibilidade de alguém morar nele.
Na Espanha, a expressão “fundos-abutre”, ou fundos abutres, ganhou força nas críticas a determinadas operações imobiliárias e financeiras realizadas após a crise de 2008.
A metáfora é forte.
Porque, no final dessas operações, há sempre alguém que não aparece na planilha.
É a pessoa que trabalha na cidade, mas não consegue mais pagar para morar nela.
É o jovem que precisa sair do bairro onde cresceu.
É o idoso que já não consegue permanecer em sua própria casa.
É a família que troca localização por preço e paga a diferença em tempo de deslocamento, cansaço e perda de qualidade de vida.
Maricarmen é uma dessas pessoas.
Mas poderia ser outra.
E talvez seja justamente essa possibilidade que faça tanta gente se identificar com sua história.
Todos somos Maricarmen?
Talvez ainda não.
Mas poderíamos ser.
E é justamente por isso que a discussão sobre moradia pública não deveria ser tratada como uma questão distante, europeia ou ideológica.
Ela é urbana.
É econômica.
É social.
E, sobretudo, é uma questão sobre o futuro das cidades.
Porque uma cidade não é apenas o conjunto de imóveis que possui.
É também o conjunto de pessoas que consegue permanecer nela.
E talvez seja esse o sentido mais profundo da manifestação na Puerta del Sol.
Não se trata apenas de defender uma senhora de 87 anos.
Trata-se de perguntar que cidade queremos construir.
Uma cidade em que a moradia seja apenas um ativo que pode ser comprado, vendido e valorizado?
Ou uma cidade em que ainda exista espaço para quem trabalha, envelhece, cria filhos e constrói sua vida ali?
É uma questão fundamental para o debate brasileiro sobre moradia, em que muitas Marias sequer conseguiram conquistar uma habitação em solo regularizado.
E há algo ainda mais doloroso nessa história.
Depois de ser despejada, Maricarmen foi hospitalizada e morreu em 7 de outubro, duas semanas após deixar a casa onde havia vivido por 71 anos. Embora tenha surgido um acordo que poderia permitir seu retorno, ela não chegou a voltar.
Não é possível reduzir sua morte a uma única causa, mas é impossível ignorar a violência de uma situação em que uma mulher de 87 anos, com a saúde fragilizada, perde a casa que foi seu lar durante praticamente toda a vida e morre sem conseguir recuperá-la.
Sua história tornou-se símbolo da luta por moradia acessível.
E também de um momento em que o direito de negociar, investir e lucrar parece ocupar um espaço maior do que o direito de viver com dignidade.
Todos somos Maricarmen?
Talvez não sejamos todos despejados aos 87 anos. Mas podemos, em diferentes momentos da vida, descobrir que o lugar onde construímos nossos vínculos já não nos comporta — porque ficou caro demais, porque deixou de nos acolher, porque alguém decidiu que nosso lugar vale mais como investimento do que como moradia.
É por isso que a pergunta não deveria ser apenas quem será a próxima Maricarmen.
A pergunta é: que cidade estamos construindo quando aceitamos que alguém possa perder o lugar onde viveu por sete décadas porque morar ali deixou de ser um negócio suficientemente rentável?
Uma cidade não deveria medir seu sucesso apenas pelo preço dos imóveis, pelo volume de investimentos ou pela valorização de seus bairros.
Deveria medir também sua capacidade de acolher, proteger e permitir a permanência de quem a constrói todos os dias.
Porque, quando o direito ao lucro se sobrepõe a todos os outros direitos, o problema já não é apenas de Maricarmen.
É de todos nós.