Existe um jogo de escalas muito particular na metrópole de Tóquio, perceptível em diferentes momentos da experiência urbana. A primeira pista surgiu ainda na reserva da hospedagem: o que eu entendia como “bairro” aparecia classificado como “city” no site. Aquilo me intrigou. Afinal, como um bairro pode ser uma cidade?
A resposta está na própria estrutura da metrópole. Tóquio é imensa: é composta por 23 distritos que se articulam, de forma contínua, com 26 cidades, 5 vilas e 8 aldeias da região metropolitana. Em termos territoriais, é cerca de 70% maior que a Região Metropolitana de São Paulo e abriga quase o dobro da população — aproximadamente 38 milhões de pessoas, contra cerca de 20 milhões em São Paulo.
Mas Tóquio também é pequena. Cada um desses distritos, conformados por alguns bairros, funciona como uma “cidade autônoma”, com prefeito e câmara próprios. Essa fragmentação administrativa permite um controle muito mais próximo das estruturas urbanas, ainda que todas estejam sob a coordenação geral da metrópole. Talvez seja isso que ajude a explicar o cuidado visível com os espaços públicos, especialmente parques e ruas, sempre limpos, bem mantidos e intensamente utilizados.
A continuidade do tecido urbano não revela, à primeira vista, essas divisões administrativas. Ainda assim, mesmo o turista mais desavisado se pergunta como é possível atravessar mais de uma hora de metrô e encontrar a mesma qualidade urbana observada nas áreas mais centrais — e, mais do que isso, encontrar ali uma nova centralidade, igualmente vibrante e cheia de gente. Um dos segredos parece estar no fato de que cada distrito tem características próprias, com centralidades temáticas que se reforçam e se complementam. Visualmente, são fáceis de reconhecer por quem tem o olhar treinado de quem estuda urbanismo há anos.
Arrisco, então, alguns rótulos, a partir dos lugares que visitei.
Shibuya é o distrito do agito, o coração jovem e pulsante de Tóquio. Não me lembro de ter visto moradores locais com mais de 60 anos. Um ambiente urbano cheio de surpresas, que convida a se perder por suas ruas sempre cheias, onde o famoso cruzamento superlotado de pedestres convive, a poucos metros, com um parque silencioso no topo de um centro comercial: o Miyashita Park.
Shinjuku mistura cultura pop, gastronomia, espaços governamentais e uma expressiva zona universitária. Ali é possível subir gratuitamente ao último andar do edifício do Governo Metropolitano de Tóquio e ter uma vista panorâmica da cidade. O Parque Nacional Shinjuku Gyoen, por sua vez, nos mergulha no paisagismo oriental, com direito a uma estufa que merece uma visita demorada.
Taitō é um dos distritos mais antigos, densos e populares. Nele está Asakusa, bairro que abriga o templo mais antigo da cidade, o Sensō-ji. O caminho até o templo atravessa pequenas lojas, quase todas ligadas à gastronomia, revelando a tradição comercial japonesa. É ali também que acontecem os curiosos passeios de jinrikisha: uma espécie de charrete para duas pessoas, conduzida por um guia-condutor que corre puxando o veículo.
Chiyoda é o distrito do poder institucional, onde se concentram o Palácio Imperial e os ministérios. O bairro de Akihabara é o que melhor caracteriza seu imaginário contemporâneo. Conhecido como Electric Town, é dominado por lojas de eletrônicos, fliperamas e pelo universo da cultura otaku, com mangás, animes e personagens ocupando vitrines e fachadas.
Kōtō reúne antigos territórios industriais e novas áreas aterradas. O bairro de Toyosu, construído sobre a baía artificial, é um exemplo marcante da urbanização japonesa contemporânea. Ali, a aposta é na centralidade digital, representada pela imersão tecnológica do museu TeamLab Planets. Um espaço surpreendente, onde se entra descalço e, em alguns ambientes, caminha-se dentro da água. Para mim, o momento mais poético é a sala com uma floresta invertida, suspensa no teto, que se recolhe à medida que os visitantes se aproximam — um lembrete sensível de que a presença humana sempre afeta o meio ecológico.
Minato é o distrito cultural e corporativo da Tóquio internacionalizada. Uma cidade vertical, onde predominam edifícios entre 8 e 15 pavimentos, pontuados por torres mais altas. Em Roppongi, destaca-se o complexo Roppongi Hills, cuja Mori Tower, com cerca de 60 andares, combina escritórios, residências, comércio, restaurantes, o museu Mori e um mirante urbano que oferece uma leitura privilegiada da cidade.
Voltando à questão das escalas, outra marca importante está na relação entre avenidas e ruas internas dos bairros. As avenidas lembram, em muitos aspectos, as melhores vias das grandes cidades brasileiras: calçadas largas, múltiplas faixas para carros e ônibus, arborização e usos mistos — comércio, escritórios, hotéis e moradia. Nelas, respeitar as sinaleiras é uma regra absoluta para os pedestres. Mesmo sem nenhum carro à vista, todos aguardam o sinal verde, formando filas organizadas nas esquinas. Entendi que isso não é apenas disciplina, mas necessidade, em um país onde predominam veículos híbridos elétricos, silenciosos como a própria população. Melhor esperar: qualquer distração pode virar atropelamento — e ali, certamente, não seria de uma única pessoa.
Já entre as avenidas, o cenário muda. As ruas são estreitas e dominadas pelo caminhar. Os carros circulam apenas em uma pista de mão única, frequentemente invadida por pedestres e ciclistas que se impõem em número. Esse ambiente permite sair da lógica acelerada da metrópole e entrar numa vida de bairro, em que o fluxo constante de pessoas garante comércio próximo e, com isso, segurança. A desvantagem é o calor: por serem estreitas, essas ruas quase não têm arborização, o que torna o verão particularmente intenso.
Duas peculiaridades chamam atenção. A primeira é a quase ausência de iluminação pública convencional: parece haver um entendimento coletivo de que fachadas de edifícios e comércios devem iluminar a rua. A segunda é o tamanho reduzido dos caminhões de lixo e dos veículos de bombeiros, projetados para atender essa malha fina e compacta.
A última escala que quero abordar é a relação entre densidade, edifícios e negócios. Tóquio é uma das metrópoles mais densas do planeta. Essa densidade se traduz em uma cidade mais verticalizada, com apartamentos menores, mas, sobretudo, em uma impressionante multiplicação de pequenos negócios ocupando os térreos dos edifícios.
Nas edificações, mesmo as maiores e mais altas, lojas e comércios pequenos se sucedem, garantindo diversidade e concorrência em cada quadra. Há também inúmeros restaurantes minúsculos, organizados em torno de balcões que oferecem, no máximo, 15 lugares. Isso parece assegurar preços mais acessíveis, tanto para produtos quanto para alimentação. Um almoço comum sai mais barato do que na maioria das capitais brasileiras. Quase não há shoppings fechados; predominam centros comerciais integrados à cidade, onde a lógica dos pequenos estabelecimentos se repete.
Talvez o exemplo mais simbólico seja o da IKEA. Conhecida mundialmente por seus enormes galpões periféricos, em Tóquio a rede precisou se adaptar. Em Shibuya, dividiu-se em três lojas verticais. Em vez de uma caixa fechada que ignora a rua, surgiram grandes vitrines que dialogam com o espaço urbano. Em Tóquio, a cultura local impôs ao gigante a forma como ele deveria se comportar.
No Brasil, seguimos outra lógica. Costumamos acreditar que apenas grandes cadeias são capazes de atender grandes densidades. Concentramos poder e renda em poucos atores e deixamos que eles determinem a forma final das nossas cidades, enquanto grande parte da população permanece à margem.
Observando Tóquio, fica claro que uma estrutura administrativa forte, conectada diretamente às demandas dos distritos, é fundamental para assegurar qualidade urbana. No fim, confesso que a experiência me fez questionar o quanto é tolo o debate raso sobre o “tamanho do Estado”. Talvez a discussão mais urgente seja outra: como qualificar e fortalecer nossas estruturas públicas, tornando-as eficientes e conectadas à vida urbana real — sendo menos subordinadas às demandas dos gigantes do mercado, concentrando-se, isso sim, em estimular a economia local.
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Foto da Capa: Distrito de Shinjuk/Tóquio / Supanut Arunoprayote / Wikipedia

