Uma frase repetida por governantes e pela mídia ecoou nos dias seguintes à tragédia climática de Minas Gerais: “faremos o possível para que tudo volte a ser como antes”. Carregada de um peso que só as grandes tragédias impõem, ela ressoa pelas ruas cobertas de lama e pelas memórias daqueles que perderam tudo nas chuvas recentes.
No entanto, essa afirmação comporta mais de uma leitura. “Tudo deve voltar a ser como antes” pode funcionar como um mantra de esperança, um chamado à resiliência, convidando as comunidades afetadas a recuperar o vigor, a força e a alegria de viver. Nesse sentido, a frase se transforma em farol — um ponto de luz em meio à devastação. Mas há uma segunda interpretação, mais complexa e urgente: a de que seria um erro profundo, quase uma arrogância, tentar simplesmente reconstruir o que foi destruído para que tudo permaneça exatamente como era.
As águas que se derramaram sobre Juiz de Fora, Ubá e em tantas outras cidades da Zona da Mata Mineira, em fevereiro de 2026, não foram um evento isolado nem uma anomalia estatística. São, antes, o sintoma agudo de uma nova realidade climática. O fato de fevereiro ter sido o mês mais chuvoso já registrado em muitas dessas localidades — com volumes pluviométricos quase quatro vezes superiores à média histórica em Juiz de Fora — é um testemunho contundente de que o clima mudou. Ignorar essa transformação e reerguer casas, pontes e comércios nos mesmos locais e da mesma forma não é reconstrução: é a preparação silenciosa para a próxima tragédia, possivelmente ainda mais devastadora.
Eventos extremos, como a tragédia que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, deixaram um recado difícil de ignorar: nossas cidades não estão preparadas para lidar com chuvas cada vez mais intensas. Esse tema já foi discutido por mim aqui na Sler e voltou recentemente em uma reportagem da Climainfo. São apenas dois exemplos entre muitos, no Brasil e no mundo, que abordam a mesma questão.
Especialistas concordam que a atitude correta é repensar a forma como planejamos as cidades. A ideia central é torná-las flexíveis e resistentes aos impactos do clima. Um dos primeiros passos é investir na chamada infraestrutura verde — soluções que usam a própria natureza como aliada. Isso inclui recuperar matas às margens de rios, proteger encostas, criar parques lineares e ampliar áreas verdes nos bairros. Além de melhorar a qualidade de vida, essas medidas ajudam o solo a absorver a água da chuva, reduzindo alagamentos e a pressão sobre bueiros e galerias.
Mas só isso não basta. Cuidar bem da água também significa manter canais e sistemas de drenagem em bom estado, além de monitorar em tempo real o nível dos rios, principalmente em períodos de chuva intensa. Esse trabalho precisa caminhar junto com mudanças no planejamento urbano. Planos diretores atualizados são essenciais para evitar construções em áreas de alto risco e garantir que famílias que hoje vivem em locais vulneráveis possam ser realocadas de forma planejada, segura e digna.
Transformar nossas cidades em espaços mais resilientes, no entanto, é um desafio enorme. Esse processo esbarra em uma rede complexa de fatores econômicos, sociais e políticos. De forma paradoxal, muitas das áreas mais expostas a riscos — como as várzeas próximas aos rios ou encostas que sustentam construções — também estão entre as mais valorizadas. Isso ocorre tanto pela proximidade com centros urbanos e suas oportunidades e, no caso das várzeas, pela topografia mais plana, que facilita a construção.
Essa lógica, porém, revela profunda desigualdade socioespacial. Para grande parte da população de baixa renda, ocupar essas áreas não é uma escolha, mas a única alternativa possível. Expulsas sistematicamente para as margens da cidade ou para os morros, essas pessoas vivem onde a terra é mais barata — e, simultaneamente, muito mais perigosa.
A essa inércia urbana, que consolida situações de risco ao longo do tempo, somam-se barreiras institucionais e políticas importantes. Faltam recursos financeiros; projetos de longo prazo são interrompidos a cada troca de governo; e muitas vezes, não há disposição política para enfrentar os custos sociais e econômicos da realocação das famílias. Adiciona-se a isso uma barreira menos visível, mas igualmente decisiva: a baixa percepção de risco, tanto por parte de gestores públicos quanto da população. Esses fatores alimentam um ciclo vicioso que perpetua a vulnerabilidade e torna a adaptação um processo lento e doloroso.
Romper esse ciclo exige uma ação coordenada em várias frentes, combinando vontade política, inovação no planejamento urbano e, acima de tudo, justiça social. Um ponto de partida fundamental é o financiamento direcionado. Programas como o Pró-Cidades e o PAC já disponibilizam bilhões de reais em condições favoráveis para que os municípios invistam em resiliência — o que enfraquece o argumento de faltarem recursos.
O desafio, portanto, não é apenas acessar esse capital, mas utilizá-lo em um novo modelo de desenvolvimento urbano. Isso implica abandonar a dependência exclusiva da chamada engenharia cinza, baseada em muito concreto e aço, e apostar em soluções baseadas na natureza. Para que essa transformação aconteça, é indispensável uma governança mais inclusiva e articulada, o que requer o fortalecimento dos planos diretores, a participação ativa das comunidades no desenho das soluções e a coordenação entre governos federal, estadual e municipal. No centro de todo esse esforço deve estar o compromisso com a justiça climática: usar esses instrumentos para romper o ciclo de vulnerabilidade, priorizar quem está mais exposto aos riscos e garantir que a realocação de moradores de áreas perigosas seja um processo digno — capaz de oferecer melhores condições de vida, e não apenas uma nova forma de exclusão.
Nenhuma dessas soluções, porém, sairá do papel — ou terá a continuidade necessária — sem a força motriz da sociedade civil. A vontade política, um recurso notoriamente limitado e muitas vezes direcionado ao que gera visibilidade imediata, transforma-se em ação consistente e duradoura mediante pressão contínua e organizada dos cidadãos. É essa vigilância ativa que garante que os planos de adaptação sobrevivam aos ciclos eleitorais e se consolidem como políticas de Estado.
Mais do que isso, a participação direta das comunidades locais é fundamental. São elas que conhecem profundamente o território, seus riscos e suas dinâmicas cotidianas. Esse conhecimento é essencial para desenhar soluções não apenas eficazes tecnicamente, mas também justas socialmente. Em última instância, a mobilização social não é um simples complemento democrático: é o mecanismo central que transforma planos em realidade e assegura que a reconstrução represente, de fato, uma evolução coletiva para um futuro mais seguro.
O caminho para a resiliência é árduo. Exige investimento, vontade política e, sobretudo, uma mudança de mentalidade. O resultado é promissor: cidades que não apenas resistem aos temporais, mas que aprendem a conviver com os ciclos da natureza e a prosperar em harmonia com eles. Se as medidas corretas forem adotadas — se a reconstrução for encarada como uma recriação — as cidades mineiras, e muitas outras, não apenas se reerguerão, mas poderão tornar-se exemplos de resiliência, mais preparadas e seguras para as próximas gerações.
Nesse dia, a frase “Tudo voltará a ser como antes” finalmente poderá ser motivo de celebração.
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Foto da Capa: Gustavo Vara / Prefeitura de Pelotas

