Tudo o que Fizemos é uma novela de formação que publiquei na primeira edição em 2009 pela editora Leitura XXI, e é uma narrativa que veio a existir graças a uma provocação do mestre Sergius Gonzaga. Nesta semana, será lançada a reedição do livro pela Casa de Asterion, editora nova no pedaço que já estreou publicando livros inéditos de Tailor Diniz (Jogos Imperfeitos) e Arthur Telló (Eu tinha vontade de mandar tudo isso para João Gilberto). A reedição foi proposta pelo diretor editorial Rafael Bassi, e o lançamento será na livraria Paralelo 30 (Vieira de Castro, 48), em Porto Alegre, com um bate-papo com meu amigo Samir Machado de Machado. Vocês aí estão todos convidados. Entre o primeiro lançamento e este de agora, muitas coisas aconteceram na minha relação com esse livro, e decidi que esse era um assunto tão bom quanto qualquer outro para esta coluna.
Para começar, na época em que o livro saiu pela primeira vez, falei muito pouco sobre ele e não pude me dedicar com a entrega esperada à sua divulgação. Eu era repórter no “maior jornal do Sul do país” e exercia a função de setorista justo na área da literatura. Assim, qualquer movimento que eu próprio fizesse no sentido de divulgar o livro poderia gerar algum conflito de interesses ou ser mal interpretado – aliás, pelo mesmo motivo, na época, eu raramente ia a sessões de autógrafos ou a eventos literários, a não ser por motivos profissionais, e também busquei manter relações amistosas, mas não muito próximas, com outros escritores.
Além disso, o modelo um tanto… intenso, para não dizer semi-abusivo, de trabalho no meu emprego da época dificultava até mesmo cumprir compromissos – perdi uma entrevista marcada numa rádio, não me lembro agora qual, porque fui mandado para cobrir algo meio em cima da hora e peguei um engarrafamento na volta. O fato de eu ser o “cara dos livros” em um determinado jornal também impediu, tenho informações confirmadas, que sequer uma linha sobre o assunto fosse publicada em outros veículos concorrentes. Desta vez, sem todos esses impeditivos, tenho me permitido falar mais do livro, mandar uns e-mails, insistir um pouco. Escrevo sobre livros há quase 30 anos, mas estou feliz de pagar boletos fazendo outra coisa no jornalismo, porque me liberta de uma série de restrições que sempre achei corretas. Meu tempo por aqui (no planeta, não aqui aqui, no site) claramente já passou da metade, então é hora de me dedicar com afinco a algo que sempre foi o centro de meu mundo.
O livro
O romance acompanha a vida de quatro jovens, Sandro, Getúlio, Marcos e Caio, no ensino médio de uma escola em uma cidade não identificada no interior do RS, durante os meses algo brutais de intervenção autoritária na educação realizada pelo governo Alceu Collares em 1991. No meio dessa confusão toda, os quatro tentam reativar o Grêmio Estudantil do colégio, plano frustrado pelo interventor da escola, um sujeito de posições políticas e pedagógicas meio suspeitas. Em protesto, eles elaboram uma “ação de guerrilha”: roubar o sino que bate o início de cada turno em seu colégio. O plano dá errado, um deles corre o risco de ser responsabilizado sozinho, e os demais precisam encarar que tipo de pessoas eles de fato são, em comparação com o tipo de pessoa que pensavam ser. Em redor deles, gravitam outros personagens, como Paula, uma jovem que se mudou para a cidade já na adolescência e é envolvida a contragosto na situação toda devido às manipulações de seus afetos pelo mais… problemático, digamos, dos garotos. Ou Luiz Henrique, um valentão meio psicopata, perto de quem todo mundo se sente meio desconfortável.
Desconforto, aliás, é um sentimento que eu tentei passar em todo o livro – o desconforto dos adolescentes em geral com a fase da vida em que se encontram, com as cobranças de adultos que exigem muito e cuidam muito pouco. A falta de perspectivas de uma cidade do interior em época de crise. O desconforto da incerteza constante sobre se as consequências do gesto malfadado cairão sobre todos ou sobre apenas um, e o desconforto moral sentido pelos demais com a possibilidade de escaparem sem ser responsabilizados e apenas um deles acabar pagando o pato.
A ditadura militar que recém havia terminado ainda se insinua por toda a parte na trama: na mentalidade autoritária que é a tônica na cidade, nos movimentos ilícitos da polícia local, na figura rígida do pai de Paula, que não necessariamente é importante para a narrativa, mas informa com sua influência muito do que Paula, ela própria, aí sim uma personagem importante, se vê fazendo ao longo da trama.
O livro nasceu, como comentei, para uma coleção criada pelo mestre Sergius Gonzaga para sua editora Leitura XXI, a série Novelas Exemplares, pela qual Tailor Diniz publicou a primeira versão de seu Um terrorista no Pampa e que editou aqui, pela primeira vez, a literatura estranhíssima do mexicano Mario Bellatin, anos antes de ele virar sensação da Flip por estar sendo publicado pela então mais badalada CosacNaify. Sergius já falava da coleção como destinada a um público “jovem-adulto” anos antes de coisas que definiram o gênero, como A Culpa é das Estrelas ou Jogos Vorazes, terem sido sequer publicadas. Não publicadas no Brasil, publicadas mesmo. Infelizmente, a coleção teve problemas de distribuição que terminaram por abreviá-la, mas sempre quis pôr por escrito minha admiração por essa veia visionária do professor.
Meu colega de faculdade e aqui da Sler, Pedro Gonzaga, ainda não o poeta que conhecemos hoje, mas um contista sarcástico que gostava de satirizar os amigos em seus textos, foi meu editor de fato quando eu estava escrevendo o romance. Algumas poucas coisas que ele cortou do material original eu devolvi para o livro nesta segunda edição, mas alguns dos cortes mais significativos se mantiveram. Havia um longo capítulo do que eu me orgulhava muito, que fazia uma longa digressão ao passado familiar de um dos garotos protagonistas. Até hoje acho que foi uma das melhores coisas que já escrevi – mas ainda assim não o reincorporei no livro porque Pedro, como editor, tinha razão, ele quebrava o ritmo da narrativa, por si só já fragmentária, e desviava muito a história para um ponto além do que era possível recuperar mesmo com a estrutura mais ou multifacetada que eu havia adotado.
Fica aqui, então, meu reconhecimento, afinal, muito da história da publicação de livros costuma ser um tanto ingrata com editores, quando muitas vezes seus papéis são fundamentais. Os contos superenxutos de Raymond Carver, por exemplo, reduzidos à metade pela tesoura implacável de seu editor, sempre me pareceram melhores do que as versões originais estendidas que começaram a ser publicadas de uns anos pra cá.
Já nesta edição, o editor foi o escritor Rafael Bassi, que decidiu colocar algumas fotos (uma delas a que ilustra este texto) ilustrando o livro – as fotos são minhas, batidas em umas semanas de viagem a São Gabriel, minha cidade natal, e enviadas apenas para dar o tom do lugar que havia inspirado a história. Era meio que um briefing para a elaboração da nova capa, mas Bassi gostou das imagens e decidiu incluí-las na nova edição. Foi ele também quem leu o livro e gostou o bastante dele para decidir reeditá-lo.
O caso que está no centro do livro é inspirado em um episódio similar que ocorreu no mesmo tempo e pelo mesmo motivo quando eu morava em São Gabriel. Não participei da “ação”, mas um dos meus melhores amigos, sim. Mas não me aprofundei em pesquisas ou entrevistas para reconstituir o fato. Simplesmente guardei a informação, deixei que fermentasse sozinha e virasse o livro quando a oportunidade se apresentou.
O texto de hoje é mais curto simplesmente porque estou falando de mim e de um livro que escrevi. Já disse até demais sobre ele. Espero que outros o leiam e que ele desperte o interesse de dizerem algo. De bom ou de ruim, agradeço de qualquer modo.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Acervo do Autor

