Há alguns dias fiz esse comentário em minha rede social, mas resolvi trazer aqui também. Cometi um erro grave: pedi ao ChatGPT para criar um poema usando três imagens que eu tinha em mente e que imaginei que funcionariam bem. E funcionaram, muito bem. O que não funcionou bem foi o fato de que, a partir daquele momento, o poema já não me pertencia, e isso é mais profundo do que parece.
A discussão em torno da inteligência artificial já não é mais novidade, seus benefícios e riscos vêm sendo discutidos nos mais variados âmbitos acadêmicos e profissionais. Eu, que além de psicanalista sou professora universitária, deparo-me com essas questões semestralmente, sempre que peço um trabalho autoral que envolva criação e escrita de um posicionamento próprio a partir de algum texto ou material proposto. É frustrante imaginar a possibilidade de os estudantes estarem apelando a esse recurso sem nem ao menos tentarem, por conta e pensamento próprio, executar a tarefa.
O penso não é automático, a resposta de um penso autoral, mergulhado em questões emocionais e defensivas próprias, não sai em segundos como esse penso artificial sobre o qual estou falando. Aí a inteligência de fato fica em outro plano. No primeiro, fica a demanda imediata, a intolerância à frustração, o medo do fracasso e a exigência de uma cultura produtivista e competitiva na qual estamos todos mergulhados.
Então, pela primeira vez, fui pedir algo ao ChatGPT pela curiosidade em saber o que ele apresentaria ao receber as três imagens poéticas que eu criei em minha cabeça, mas não havia ainda colocado em forma de poema. Eu pedi: “Chat, faça um poema usando as imagens X, Y e Z, associando-as”. Em segundos, a resposta veio em forma de um poema longo e muito bonito. Bonito a ponto de eu desejar que eu tivesse o feito. Fiz mudanças na estrutura e em várias palavras dessa versão oferecida e joguei em um site detector de plágios e, de fato, ele sinalizou a alta porcentagem de chance daquela obra ter sido produzida pela inteligência artificial. Ok, ainda bem que no mesmo passo em que ferramentas são criadas, também são criadas outras para que pelo menos se saiba que determinada produção, seja textual ou visual, não é autoral ou inédita.
Agora, o que para mim é o mais preocupante e que até fazê-lo e conversar com amigos eu não tinha atentado para esse risco ainda, é: eu entreguei a associação das minhas 3 ideias poéticas às redes, elas agora não mais me pertencem exclusivamente e não apenas isso, agora são ração para alimentar de dados essas redes e oferecê-las a outras pessoas que forem pedir algum poema. E mais: as ideias seguem sendo minhas e seguem sendo foco de desejo para que, a partir delas, eu crie meu poema. Mas como conseguir isso agora, depois do outro já criado pelo ChatGPT? Como livrar-me dessa sombra e desse poema já pronto e criar algo novo, de novo?
Vou seguir apostando no meu algo ritmo interno, minhas associações subjetivas, meu trânsito pelo inconsciente e dar a mim mesma uma coisa que os tempos de agora fazem-nos pensar que não temos para perder: tempo. Vou permitir que essas ideias se acomodem e aquietem até que surja um poema meu, somente meu. Tente fazer isso também. Use as ferramentas, mas com precaução. Não as deixem soterrar sua própria capacidade de criação. Assim, vale o cuidado com esse universo das inteligências artificiais, aprendendo a usá-las. Voltar-se contra elas parece inócuo e até pouco inteligente, mas tampouco tornar-se refém delas.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

