No ano passado participei de um evento emocionante que marcou os 50 anos da TVERS, no Morro Santa Teresa. Voltei no tempo e lembrei, com alegria e orgulho, do período que trabalhei lá, 1987 a 1990, experiência incrível na minha vida profissional e pessoal. Encontrar ex-colegas e amigos festejando, se abraçando, revivendo histórias e atualizando trajetórias de vida, confirmou o meu sentimento.
Nesse período, em 1989, foi fundada a FM Cultura, muito festejada por todo mundo. A rádio virou referência para a arte no Rio Grande do Sul, especialmente a música, com boas entrevistas e bons debates. Assim passou a movimentar o sonho de profissionais que queriam abrir cada vez mais espaços para a informação, para a arte e a cultura do meio em que viviam e que estimulam a nossa identidade. Tanto a TVE como a FM Cultura transformaram-se em emissoras que divulgavam, com ousadia, liberdade e crítica, a produção de talentos locais e nacionais, abrindo as portas para o teatro, para o cinema, os livros, as artes visuais, o artesanato, seminários, palestras, o movimento cultural do nosso Estado. Muita invenção, sempre realizada com profissionalismo e entusiasmo, críticas, boas conversas, troca de ideias e aplausos. Conteúdo, qualidade técnica e intercâmbios faziam parte dos projetos. Levávamos os artistas para o estúdio e gravávamos chamadas para os espetáculos. Era uma festa!
Uma programação local que olhava para o que acontecia na nossa aldeia e valorizava a cultura local. E aí me vem uma citação do escritor russo Leon Tolstói – “Canta tua aldeia e cantarás o mundo”. Expressar as particularidades da nossa aldeia e somar aos movimentos que vêm de fora é enriquecedor. Outras experiências humanas para ampliar o olhar e compreender melhor os movimentos do universo.
Acontece que a realidade do que é público, como a TVE e a FM Cultura, já não importa. Não é mais a mesma. Os rumores mostram que o governo do Estado já não olha para as emissoras com entusiasmo. Há um triste movimento encaminhando o fim dos dois veículos, o que eu lamento profundamente. Movimento orquestrado pelo poder público, que não consegue propor nada, a não ser o fechamento, porque não vê a potência de espaços que, bem utilizados e bem amparados, podem ampliar a força da nossa cultura, da nossa arte, dos nossos tantos talentos e ser um portal de notícias do que acontece no Estado.
Quem se importa? O que faz a Câmara dos Deputados? O que faz a Câmara de Vereadores? Todos viraram as costas para um patrimônio tão valioso?
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Foto: Gustavo Mansur / Secretaria de Comunicação do RS

