E eu, que me achava saudável e descolada, me dei conta de que sou meio viciada no estilo de vida capitalista como você, que me lê e que está querendo tirar o corpo fora, sacudindo a cabeça e dizendo: eu não. De um modo ou outro, não importa de que camada social venha o adicto ou a adicta ou o adicte (não domino a linguagem neutra) e o grau de dependência e lucidez sobre a própria adição, quase que todos nós, tenho de acreditar nas exceções, caminhamos sobre e com o capitalismo, alguns enriquecendo, outros empobrecendo e sendo abusados, outros tendo crises de nervos, mas consumindo-o feito cordeiros apesar de todo o mal-estar, raiva, revolta etc.
O capitalismo atual é um vício coletivo e de ‘dar nos nervos’, expressão bem popular, muito usada durante décadas nesta nossa nação inconstante. Meus pais, que não serviam para modelo de ansiosos, enfrentaram os seus perrengues. Lembro do pai exausto, mas trabalhando feito um condenado no período em que a inflação tirou a máscara e olhou para todos nós. Por organizado e precavido, não empobreceu, mas passou a se sentir um pouco desprevenido. O pai foi uma criança da classe média baixa. E não houve riqueza que tenha feito ele esquecer desse tempo. Não que devesse, porque, concomitantemente à precariedade econômica que meu avô provinha, ele foi um menino riquíssimo: criativo, curioso, afetivo, determinado e por aí vai.
Já a mãe sempre se sentiu mais rica do que, na verdade, era, enquanto o meu pai se sentia mais pobre do que a sua conta bancária e patrimônio diziam. Ela, porque dominava inúmeros códigos de riqueza desde o nascimento, sempre planou com segurança pela sociedade. Já doente, mas como uma boa Terra, mantendo o charme e a vaidade, ela e ele foram passar umas semanas em Nova Iorque. Ela voltou falante, se sentindo uma newyorker, cheia de compras para nós todos, incluindo o tailleur preto que usei em seu velório. Não foi preciso me dizer ‘use’. Eu aprendi quase tudo o que ela me ensinou. Sei coisas inúteis ou nem tanto, graças a sua maternidade um pouco clássica e delirante.
O fato é que saber, seja o que for, não é defeito. Posso comer um cachorro-quente sentada na calçada e, do mesmo modo e com o mesmo grau de satisfação, jantar em uma embaixada em algum lugar da Europa, com gente cerimoniosa e, por vezes, chata. O pai, por sua vez, voltou meio silencioso, o câncer da mãe estava avançando, mas disposto a falar sobre alguns livros e o Savannah Bay, da Marguerite Duras, que eu não encontrara tradução para o português e pedira a ele para procurar. Do resto, apenas me disse: sua mãe foi tratada como uma rainha em qualquer lugar; eu fui invisível. Bobagem dele. A espontaneidade do pai até aumentava o encanto que ele exercia sobre as pessoas. Mas ele estava triste. Tristíssimo. Meu pai namorava a minha mãe desde que a conhecera. Coisa rara entre casais depois de algumas décadas. De dar nos nervos e de dar inveja.
Não li, mas há um livro sobre os ricos brasileiros sendo bastante falado. Fiquei sabendo dele por meio do Roger Lerina, um jornalista aqui do Sul, mais curioso que a curiosidade, que acabou escrevendo um texto intitulado Podres de Rico em um outro jornal. O autor se chama Michel Alcoforado (abrindo um parêntese: há um livro Cartas Portuguesas escrito por Mariana Alcoforado, no século XVII, que precisa ser lido. Na época, o homem que o publicou, Gabriel Joseph de Lavergne, conde de Guilleragues, disse que ele as havia escrito, disputando, com a Alcoforado, a autoria num debate nunca concluído. Nem precisa. Basta lê-lo para se ter a resposta. Não há nada tão feminino, genuíno, cromossomo X, mulher como esse livro). Mas voltando ao Alcoforado, o nome de sua obra é Coisa de rico, Um mergulho preciso e mordaz no mundo dos endinheirados brasileiros, um estudo antropológico em que o autor chega a conclusões, no mínimo, instigantes.
Por exemplo: os ricos, no Brasil, não se consideram ricos e não há um critério entre eles, não importa se oriundos de famílias abastadas ou não, que os unifique. Via de regra, acreditam que há sempre alguém com mais tudo – dinheiro, status, prestígio, patrimônio – e há alguém mais afortunado sentado mais próximo do topo da pirâmide. Ouvi no podcast do Alcoforado, É Tudo Culpa da Cultura, uma entrevista dele mesmo. Alguns trechos me fizeram mal. Para poder fazer sua pesquisa, foi induzido por uma pessoa rica a perder peso, porque ricos acham sobrepeso deselegante. Também acabou tendo de trocar de sujeitos de estudo, porque o que ganhava 50 mil reais por mês dizia que rico era o que faturava 70 mil reais, esse dizendo que grana tinha o que ganhava 100 mil reais e assim por diante, em uma autodivisão complexa. Fiquei pensando: se eles tivessem de comprar passagens no famoso e afundado Titanic, não comprariam todos na primeira classe?
Tive um grande amigo parisiense, morto na curva perigosa dos cinquenta anos, que me disse, falando do ponto de vista financeiro: “Uma pessoa só é rica se for rica em qualquer cidade do mundo. Se ela não puder ter um apartamento com a mesma metragem e em um bairro chique, os mesmos carros (veja que escrevo no plural), vestir roupas eternas, ir para Ibiza ou Mônaco ou qualquer praia cinco estrelas, nos finais de semana, que ela tem onde vive, então ela não é rica de verdade”. Pois é, dependendo, pode ser de mentira. Sua família morava em um dos bons bairros de Paris, tinha Picassos (veja de novo que escrevo no plural) pendurados na parede, mobiliário do Palácio de Versalhes. Preenchia todos os requisitos que ele havia elencado, e ele, no entanto, se sentia pobre. Perdera a ligação com o vício invisível do capitalismo. Achava-me infinitamente mais rica por ter pais amorosos e amigos confiáveis, por ter estudado em escola pública, por me interessar mais por pessoas e ideias que por objetos e signos de riqueza, por precisar de recursos, mas nem tantos, e por andar ‘solta a campo’, como se diz lá na região em que nasci e que me fazia rir dele e de seu queixume de pobre menino rico, coisa que os seus amigos e familiares endinheirados não suportavam mais ouvir.
Um jovem com um temperamento meio Jack Dawson, do filme Titanic, do James Cameron, que vi DU-BLA-DO. Como pôde e como tem coragem de contar, alguém deve estar se dizendo. Explico. Primeiro: o navio é belíssimo. Segundo: a ficção criada sobre ele e o seu naufrágio é romântica e potente. Terceiro: a imensidão azul que o engoliu é mais que belíssima. Quarto: não conheço outra coisa inventada pela mente humana que traduza com tanta perfeição as relações de classe entre as pessoas e que exponha com tanta firmeza aos arrogantes e arrivistas desse planeta vendedor de cadeiras no céu e sem taxas de entrega.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

