Dentre as teóricas feministas que já li, bell hooks, escrito assim com letras minúsculas, é a minha favorita por uma série de razões, incluindo a qualidade de sua escrita clara e concisa. Sou adepta da frase do João Cabral de Melo Neto que diz que “escrever bem é pensar bem”.
O feminismo é para todo mundo – Políticas arrebatadoras é o livro da hooks que mais uso para pesquisas e para quando quero repensar alguns pontos. No momento, o que mais tem me absorvido é a persistente aversão aos homens entre algumas feministas.
E por quê?, alguém pode estar se perguntando. Porque, como qualquer uma ou um de nós, sou atingida de forma mais próxima e subjetiva por algumas questões, sendo a que diz respeito à interação com os homens a mais constante. Sou mãe de um jovem, portanto, em parte, responsável pelo tipo de homem que ele se tornou, e sou uma mulher heterossexual que, como muitas, já esteve dentro de um relacionamento com um homem desonesto, mau caráter, tóxico e egossintônico.
De fato, não é nada difícil sentir raiva e repulsa por alguém que, de alguma forma, nos machucou. E também não é nada difícil aderir ao que hooks nomeia como ‘facção anti-homem’. Dependendo do tipo de violência sofrida, chega a parecer o único caminho possível. E falo parecer porque, felizmente, o beco nem sempre é sem saída. Por vezes, com o suporte certo – afetos, terapia e justiça –, a mulher vitimada por um homem consegue singularizar o que lhe agrediu e voltar a interagir e a confiar nos demais.
Por vezes, não. Vi, durante o meu período universitário, uma colega desaparecer de si mesma e das salas de aula depois de ter sofrido um sequestro-relâmpago e de ter sido estuprada, diversas vezes, por três homens. Uma moça alegre, noiva e cheia de planos que, naquela época, ficou sem recursos psíquicos para seguir adiante. De certa forma, encarcerada pela extrema violência sofrida. A presença de todos os nossos colegas a perturbava. Ela não podia ouvir suas vozes, sentir seus cheiros, vê-los.
Um estupro, um dos crimes mais recorrentes aqui no Brasil, não deixa de ser uma forma de se matar uma mulher ou uma menina. Nem as crianças estão a salvo das condutas criminosas. E aqui trago uma consideração, da hooks, que penso bastante significativa. De acordo com ela, os homens não eram, não são o problema em si. O problema não está apenas neles. O problema se constitui e ampara nas dinâmicas sustentadas pelo patriarcado, pelo sexismo e pela domFinação masculina, sendo, portanto, uma questão mais complexa que implica também a ação das mulheres no que se refere à manutenção do cenário sexista.
Não há dúvida de que, entre nós, ainda há uma quantidade expressiva de mulheres que, por mais que se beneficiem do feminismo, o rejeitam e o simplificam a algo grosseiro e equivocado, deixando-se levar pelo discurso que a mídia, em grande escala, reproduz, e pelo arrivismo da indústria da cultura mais empenhada em criar pontos de divergência e de incomunicabilidade entre os gêneros que o contrário.
Neste ano, li um livro, que prefiro não dizer o título, escrito por uma colega, aprovado pelo mercado editorial, mais do que isso, promovido por ele, que me causou enorme mal-estar. A protagonista, uma jovem sujeita a uma série de privações e violências, dona de um perfil psicológico denso e supostamente independente, precisou de uma romantizada parceria com um homem para vencer seus obstáculos e seus traumas, como se fossem indispensáveis o cuidado e a proteção masculinas, o que, a mim, ofende. Conto com a empatia e a solidariedade dos homens como conto com as das mulheres. É o sentido de espécie que me impacta. São de outra ordem a cooperação e as transformações que espero.
“Nenhum corpus significativo de literatura feminista surgiu para dialogar com garotos, para dizer a eles como construir uma identidade que não seja fundamentada no sexismo. Homens antissexistas pouco se educaram para a consciência crítica que inclui o foco na juventude, principalmente, no desenvolvimento dos garotos adolescentes”, hooks diz, desenvolvendo a tese de que esse fato contribui para o ressurgimento de pressupostos misóginos de que as mães não conseguem criar filhos saudáveis e de que os meninos se beneficiam desse contexto.
O patriarcado, mesmo que em diferentes dimensões e proporções e mais às mulheres, causa pesado e coletivo prejuízo. hooks fala que uma visão feminista que adere à masculinidade feminista, que ama garotos e homens e exige, em nome deles, todos os direitos que desejamos para garotas e mulheres, pode renovar os papéis sociais.
Outro dia, por acamada, vi alguns episódios, eu que não me afino com a televisão, de uma série argentina chamada Invejosa. Engraçadíssima e séria. Lá pelas tantas, Vick, a protagonista, fala para a analista que se deu conta de que ela foi uma ‘menina de meninas’, explicando que existem mulheres que foram ‘meninas de meninos’ e que essas se relacionam de um modo mais confiante e criativo com os homens e com o mundo por terem, na infância, brincado mais com eles, moldando seus egos e autoestima em pé de igualdade.
Não tenho certeza da validade dessa premissa. Mas me inclino a dizer que ela faz um razoável sentido. Sou uma mulher com uma rede forte de amigos, igual ou até maior que a de amigas, o que, para mim, parece absolutamente natural.
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