Três vezes por semana, passo, a pé, em frente a uma loja de lingerie. Por falta de tempo, não de curiosidade, nunca entro. Eu gosto desse universo. Já que é para usarmos roupas íntimas, que elas nos representem como as demais e falem também algo sobre nossas personalidades e estados de espírito. Quando eu era menina, passava, na TV, uma propaganda de sutiãs que dizia: “O primeiro Valisere a gente nunca esquece”. Não sosseguei, ainda que não tivesse os seios crescidos, enquanto a minha mãe não comprou um para mim. Uma peça feita para as dimensões da minha entrada na adolescência, de fato, inesquecível.
Pois bem, segunda-feira passada, talvez por ter tido um final de semana difícil, acordei libidinosa. Mais do que o costume, devo dizer. Minha pulsão de vida fala muito por meio do meu corpo e sempre se manifesta depois que enfrento algum estresse. Então, resolvi participar apenas do clássico ‘Boa tarde, em que posso ajudá-la? Não, obrigada, estou só dando uma olhada’ do comércio. Mas acabei comprando um conjunto sexy de renda preta. E quando falo conjunto, incluo meias com cinta-liga. Com que fim?, as pessoas mais puritanas que veem submissão e opressão em quase tudo podem estar se perguntando.
Primeira resposta, se é que elencarei diversas, para o meu prazer, que posso ou não compartilhar intimamente com alguém. E sobre ele, não aceito censura. Sabe o lema: meu corpo, minhas regras? Estendo-o sobre todas as possibilidades do meu organismo e da minha mente, como todos sabem, criativa. Eu não teria me tornado escritora se não tivesse a capacidade de fantasiar e de me permitir experiências, tampouco uma mulher livre dentro desse cárcere social que insiste em se impor sobre nós. Violência que passa por padrões morais e estéticos, que atingem inclusive o direito ou não direito à própria imagem, ou seja, que nos colocam, não importa com que aparência e idade, como reféns do prepotente julgamento alheio.
Eu não aceito ser julgada nem por homens nem por mulheres. Rasgo o veredito alheio no mesmo instante em que o recebo. Faço parte do grupo de pessoas que atribui julgamentos a crimes e que pensa que eles devem ser feitos dentro de um processo legal sob a condução de um magistrado. E fim de conversa. Opiniões sobre minha vida, quando quero, peço, pergunto e escuto. Bisbilhotagem, intromissões, fofocas etc., descarto como lixo. Considero mesmo sobra, despejo, sujeira. Tive um relacionamento, frustrado e frustrante, com um homem que via sujeira em qualquer manifestação de desejo sexual. Homem categoria papai e mamãe. Um tédio em forma de gente. Reprimido o coitado.
A palavra coitado vem de coito. Coito vem do latim coitus, que significa juntar-se, unir-se, copular. Em resumo, a praticar sexo com alguma forma de penetração de um pênis ou de uma réplica, como um vibrador. De consolo, também, tristemente, chamam. Na loja de lingerie em que comprei o conjunto sexy de renda preta, as vendedoras dizem ‘brinquedo’. Ela é também uma sexy shop. Mercado de artigos eróticos segundo a ferramenta de pesquisa que uso na Internet.
Eu, ao vivo e em cores, olhando os produtos, chamei os vibradores do meu jeito, uma palavra com três letras que não posso escrever aqui sob pena de ser penalizada pelo preconceituoso detector de condutas inadequadas das redes sociais em que este texto será replicado. E fiquei surpresa com a quantidade de tamanhos e de modelos. Alguns são para o uso simultâneo entre duas pessoas. Será que se eu disser siameses, algo com duas cabeças, ilustro? Outros, tão grandes que, por mais que eu tenha feito perguntas, não consigo vislumbrar quem consegue usá-los. A maior parte dos vibradores, no entanto, é plenamente compatível com nós todas e todos. Gostei muitíssimo de um que já estava vendido. Compra feita pelo telefone com tele-entrega agendada. “As pessoas não gostam de vir aqui, dizem que é para uma amiga, um amigo e que estão muito ocupadas”, me disse a vendedora. Ahã, eu respondi a ela antes de começarmos a rir.
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