Raduan Nassar é um dos meus escritores favoritos. Na verdade, o escritor amor da minha vida. Houve um momento, uns dez anos atrás, em que uma escritora da geração dele – neste ano ele completa 90 anos em novembro – me escreveu, com todo o zelo possível, para me alertar sobre o que significaria ter um relacionamento com um homem nascido algumas décadas antes de mim. Além da diferença de bagagem cultural e de vida, estaríamos condenados a poucos anos de convivência e a uma vida sexual que se tornaria provavelmente insatisfatória se ela se estruturasse a partir de nossas genitálias.
Portanto, eu deveria estar ciente desse limite e das tristezas que poderiam se abater sobre mim. Eu ri alto, um riso gostoso, não porque subestimasse a ele ou que eu subestime a qualquer homem ou mulher, mas porque o que eu queria dizer com ‘escritor amor da minha vida’ naquela época e que sigo querendo dizer é que amava, amo, de verdade, a sua escrita, as suas ideias, os seus livros. Talvez um pouco mais a Lavoura Arcaica do que aos outros. Todos os três carregados de erotismo e sexualidade. Todos os três discutindo a relação entre o desejo e a repressão que a sociedade cristã e patriarcal impõe sobre os corpos, principalmente os das mulheres.
No livro O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir diz que a iniciação sexual da mulher, como a do homem, começa na primeira infância. Seja teórica ou prática, ela logo dá os seus primeiros passos, os quais, dependendo de quem os guie, em geral as mães, poderão ser firmes ou vacilantes. Quase sempre frágeis, porque os ensinamentos entre os gêneros são diferentes, e os que recaem sobre as meninas são menos explícitos, mais temorosos e moralistas, com menos direitos mesmo.
Por diversas razões, inclusive anatômicas, visto que o coito entre um homem e uma mulher não pode se realizar sem o consentimento do macho, às fêmeas é oferecido um estado maior de ignorância. Há mulheres que conhecem menos sua vagina que seus ou suas ginecologistas, que não conseguem recorrer nem a um espelho para se descobrir, o que me faz lembrar da impactante cena em que a protagonista do conto “Menina a Caminho”, do Raduan Nassar, é claro, segurando a calcinha em uma das mãos, se acocora sobre um, como se sentasse em um penico, observa sua vagina e a toca com a ponta do dedo.
Masturbação não é uma palavra que costuma cair bem na boca das mulheres. Quiçá das meninas. Ninguém fala que suas mãos irão ficar peludas por se tocarem. Não existe esse tipo de ameaça, tampouco provas de um orgasmo em seus lençóis, mas o peso do contrato social não é leve. Não é adequado, ofende a pureza, a honestidade e as regras de que às mulheres cabe uma sexualidade mais passiva e, por tabela, a uma existência menos potente e agressiva em um sentido benigno, pulsional para não dizer libertador. Não que a passividade possa ser entendida por pura inércia. Por vezes, ela não passa de um teatro. “Fazer-se objeto, fazer-se passiva não é a mesma coisa do que ser um objeto passivo”, diz Simone de Beauvoir.
Mas, por vezes, a passividade é submissão. Por fatores culturais, religiosos e psicológicos, mulheres se sujeitam. O medo de perder o interesse ou o afeto do parceiro e o de ficar sozinha estão entre os diversos elencados por mulheres que aceitam uma relação sexual mesmo com a libido diminuída ou ausente. É tão perversa a dinâmica que, na Internet, há sites ensinando o que fazer nesses casos, como ir para a cama, o que fazer e dizer para parecer que está tudo bem e agradar. Ou seja, iludir a ambos. De acordo com a pesquisa Prazer Feminino, 42% das mulheres têm dificuldade em atingir um orgasmo e cerca de 79% já fingiram. Lembra do filme Harry e Sally: Feitos um para o Outro? É mais ou menos por aí. Seria menos se houvesse mais colaboração masculina. Homens egocêntricos, concentrados apenas em seu próprio prazer, não chegam aos pés dos dedicados, muito mais confiantes e seguros, que também se excitam com o prazer que sentem às suas parceiras.
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