Of Mice and Man, traduzido como Sobre Ratos e Homens, é um livro, de John Steinbeck, que li quando adolescente e que me fez chorar bastante. O meu recorde de lágrimas literárias, no entanto, se deu aos vinte e poucos anos lendo o Germinal, do Émile Zola. Soluçava e doía o meu peito branco e burguês e ainda protegido pela existência dos meus pais diante das páginas que educavam a minha humanidade e me levavam, mesmo que por meio da ficção, aos dramas que as personagens enfrentavam, criaturas muito mais reais do que supõem aqueles que não escrevem.
Nessa época, os meus familiares estavam todos vivos e eu não fazia ideia de que a mãe iria desaparecer ao dobrar uma esquina e de que eu, em carne e osso e fragilidade, teria de suportar e aceitar a morte de um filho dentro do meu próprio corpo um ano depois. Eu tenho um corpo obstinado pela vida. Penso que uma mente também. “Eu vi sua mente me observando” é uma frase que passou uns dois anos grudada em mim. Acho que ela está no livro O Conto da Aia, da Margaret Atwood. Não tenho certeza. São muitos livros dentro das minhas sinapses e, a essa altura, não me importo que eles se misturem e constituam, de certa forma, um único. Perdê-lo, no entanto, não está nos meus planos. Não sei se terei a sorte de me tornar uma senhora velhinha, nem sei se quero, sei que, se conseguir, desejo que seja com as histórias e palavras intactas.
Palavra presunçosa essa: intacta. Mas um pouco de presunção funciona como uma espécie de esperança. Não sei o que ainda espero de quem e do que quer que seja. Nunca me entendi muito bem com o verbo esperar. Mas, enfim, ele está, sempre esteve entre nós, onipresente como um ser ou vários seres divinos. A ideia de pluralidade me agrada mais que a de um único e soberano deus, ainda mais ele sendo homem. Historicamente, sabemos o quanto eles não têm sido generosos entre si e principalmente com as mulheres. Fora que não me parece muito democrático, justo no plano espiritual, termos de ter uma autoridade vitalícia decidindo tudo sobre o céu e a terra, que muito mais nos tremem do que nos protegem. Shakespeare escreveu que há mais mistérios entre eles do que sonha a nossa vã filosofia. Eu ainda sonho. Tenho medo de parar de sonhar.
Nesse momento em que escrevo, três da madrugada, depois de ter lido, do começo ao fim, o livro O Primeiro e o Segundo Homem, do Luiz Sérgio Metz, em que ele diz: “Tudo o que eu queria era não voltar a chorar”, sonho em encontrar uma forma zelosa de dizer a uma pessoa, que me feriu, como me sinto. O problema é que, com frequência, penso que o que sinto é um problema só meu. E o ponto é que quem nos fere não se importa, de verdade, com nossas emoções. Eu estou relendo o Odisseia, do Homero, que alguns desconfiam e afirmam não ter sido um único poeta e, sim, um grupo de poetas ou pelo menos dois, o outro ‘Homero’ teria escrito a Ilíada, pensando o quanto Odisseu pisou, como se fossem grama, nas pessoas que o cercaram. Comprei, na semana passada, uma edição comentada e ontem cheguei no IV Canto. Telêmaco, filho de Odisseu, recém-começou a viagem em sua busca, o primeiro pai ausente da literatura ocidental. Até agora, a leitura vem fluindo bem. Pouco abri o dicionário. Tive de procurar o significado da palavra ‘ravinosa’. No contexto, eu a entendi, mas eu queria entendê-la com a maior clareza possível.
Minha dificuldade maior com essa releitura do Odisseia tem sido eliminar o nome Ulisses do meu homérico registro mental. Para mim, ele é muito mais significativo que Odisseu porque, na edição que li, quando adolescente, ele era chamado assim. E depois porque, lá pelos trinta anos, lendo o Ulisses, de James Joyce, pensava muito nele. Não simpatizo com o nome Odisseu, embora ele faça muito mais sentido. Na verdade, nem com Ulisses. O homem que os carrega é de um egoísmo sem fim. Exemplar idolatrado da patifaria humana, não deixa de ser um mau caráter. Penélope, com quem ele era casado, também não me cheira a boa coisa. Mas sobre ela, por ora, não pretendo falar. Se fosse falar sobre uma mulher, falaria sobre Calipso, independente, visceral e sincera.
Eu adoro gente independente, visceral e sincera, que pouco ou nem mesmo dissimula nada e que não ilude a ninguém, sendo honesta em causa própria e alheia, porque uma honestidade não exclui a outra. A honestidade é o território onde os fracos não têm vez e os oportunistas, por mais malabarismos que façam, não têm a mínima chance de saírem honrados. Tem uma frase, do Louis Armstrong: “Eu tenho uma regra simples para qualquer pessoa. Se você me tratar mal, a vergonha é sua”, que me representa. Gente descuidada, malignamente narcisista ou mesmo má faz muito mal a nós todos. A uns mais, a outros menos, mas faz. E isso é triste, de fazer com que a gente se desmanche em lágrimas, como diante de um grande livro, ainda que o que derramem sobre nós seja de uma pequenez imensa.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

