O artista senegalês Momi Maiga entrou no palco do pequeno teatro do Instituto Ling, em Porto Alegre, como quem pisa em território sagrado. Havia nele uma presença antiga, quase ritual. Seus três companheiros de banda, espanhóis, pareciam orbitá-lo com a intimidade de quem já atravessou muitos palcos, aeroportos e silêncios juntos. A música que faziam não cabia em rótulo algum: tinha algo de África pulsando no couro dos tambores, algo de Mediterrâneo nas cordas, algo de deserto e porto ao mesmo tempo. Era estrangeira e, paradoxalmente, estranhamente familiar.
Mas o que mais me capturou não foi a sonoridade em si. Foi o intervalo invisível entre uma nota e outra. Foi o instante em que o violinista erguia os olhos, procurando seus parceiros. O leve inclinar de cabeça do percussionista, como quem diz “agora”. O sorriso mínimo, quase imperceptível, do rapaz do cello quando o vocalista prolongava um verso além do esperado. Eles se olhavam como quem se escuta, como quem se entende. Olhares que pareciam uma conversa íntima diante de todos.
Havia ali um dialeto.
Não o dialeto das palavras, esse que organiza o mundo, que delimita fronteiras, que demanda tradução. Mas um dialeto feito de respirações compartilhadas, notas, palavras e pequenos gestos. Um idioma que não se aprende em gramáticas, mas na convivência. Um idioma que nasce do risco: tocar ao vivo é sempre saltar sem rede, e eles saltavam juntos.
Em certo momento, Momi anuncia que tocarão uma música chamada “Ocean”, em homenagem a todas as pessoas que já perderam a vida em alto-mar buscando uma vida melhor. A música tinha compassos fortes da percussão e uma melodia lindíssima. As batidas dos tambores remetiam a batimentos cardíacos e o final da canção era apenas aquelas batidas se espaçando, ficando mais distantes entre si. As batidas cessam e tudo indica que a música acabou. Mas a plateia permanece num silêncio absolutamente sepulcral. Emocionante. Depois de mais de 1 minuto, começam os aplausos.
Pensei no quanto dependemos da linguagem verbal para garantir que o outro nos entenda. Pedimos confirmações, explicações, interpretações. Ali, porém, bastava um olhar entre eles e a cumplicidade com uma plateia mergulhada naqueles mares. A confiança era a partitura secreta. Cada gesto era uma escuta ativa. Cada pausa, um espaço oferecido ao outro.
Foi como assistir a uma análise sem divã: um campo transferencial feito de sons. Um sustenta, o outro elabora. Um arrisca, o outro contém. Um silencia, o outro nomeia com acordes.
Talvez toda experiência estética profunda seja isso: um encontro em que algo passa entre os corpos sem precisar ser traduzido. Um entendimento pré-verbal, quase infantil, no sentido mais nobre da palavra, em que a comunicação acontece antes da sintaxe.
Saí do show com a sensação de ter presenciado uma conversa íntima em praça pública. Eles falavam entre si, mas nos incluíam. Nós, espectadores, éramos estrangeiros naquele idioma e, ao mesmo tempo, cúmplices.
Não sei repetir o ritmo que tocaram. Não saberia cantar um verso sequer. Mas reconheceria, em qualquer lugar, aquele modo de se olharem.
Porque aquele dialeto musical não era apenas som. Era vínculo e cumplicidade de uma plateia que virou testemunha do sublime.
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Foto da Capa: Acervo da Autora.

