Olá, tudo bem? Chego até você para uma vizinhança na qual terei o privilégio de ser facilitador de reflexões que nos ajudem a pensar fenômenos da vida. Meu coração confidenciou que, por respeito ao colega leitor, seria muito bom começar dizendo um pouco de mim e, assim, oferecer um lugar de fala. Sim, creio importante esclarecer esse meu sendo, quando me deparo com o compromisso de partilhar com o/a amigo/a os entendimentos que a vida tem me propiciado.
Nasci em Juazeiro de “Meu Padim Ciço“. Como bom romeiro, migrei por rincões diversos nesses meus quase sessenta e cinco anos. Pousei nas terras pernambucanas no intento de não ser mais um Severino. Na década de setenta, quis com muito ardor me tornar sacerdote salesiano. Não deu. Mas aprendi com Dom Bosco a amar a juventude do povo, precisamente os empobrecidos. Capital, casei-me com uma bela arcoverdense, tornei-me pai de duas lindas meninas, sou avô apaixonado dos pequenos Ara e Cícero. Além disso, estamos aguardando, para não muito distante, a chegada de mais um netinho. Sou professor na UFPE, onde atuo no Departamento de Filosofia e nos mestrados em Ensino de Filosofia e Direitos Humanos. Frequentemente repito que as coisas que mais aprecio na vida são ser gente, pai e professor.
Busco me constituir como gente e atribuir sentido à vida no compromisso com os mais pobres e invisibilizados, na militância pela construção de um mundo onde a justiça estabeleça a paz. Permaneço atento às ciladas do neoliberalismo que nos vendem mentiras que parecem verdades e obstruem possibilidades reais de pensarmos a “terceira margem”, da qual nos falou o Guimarães.
Educador que sou, concebo minha profissão docente dentro de uma perspectiva que vai na contramão das políticas homogeneizantes que preconizam um sujeito fora dos seus contextos objetivos de existência e, portanto, detentores de um repertório próprio dos mundos em que habitam. São construtores de saberes tecidos fora dos muros da história e da escola oficial. Aprendi com Paulo Freire nossa condição de incessantes aprendentes. De Nietzsche, roubei o propósito de não querer melhor ninguém. Com o outro, sei que é possível ser melhor, sempre.
As filosofias me tornaram mais atento às minhas raízes deitadas em povos africanos e sul-americanos. Com eles, procuro aprender a olhar o mundo das vidas e fazer-me um com meus ancestrais. Suas filosofias são portais que convidam a superar o eurocentrismo e seus cânones.
Tenho um mundo de indagação e quase nenhuma resposta, mas me mantenho perguntando. Meu espanto cotidiano basta-se em observar a dádiva de um dia novo a ser construído, elaborado na angústia de dever ser alguma coisa que não seja vã. Tenho lutado permanentemente contra todo e qualquer preconceito, sobretudo contra os meus. Deve concordar o amigo leitor que educação não rola com preconceito. Como podemos aceitar ou compreender que uma pessoa seja excluída pelo simples fato de sua cor, de sua orientação sexual, de sua definição religiosa, de seu gênero, de suas convicções filosóficas e políticas, de sua nacionalidade?
O preconceito se constitui num elemento estrutural e estruturante de um sistema intrinsecamente injusto e desigual. Não há quem nasça preconceituoso. Aprendem pelas vias da educação e da cultura. Desde a mais tenra idade estamos expostos s marcadores preconceituosos, subliminares, que vão dos simples comentários, aparentemente jocosos, aos mais aviltantes assédios. A luta contra o preconceito não pode ignorar a diversidade de vozes, fazeres e afazeres da base da sociedade.
Nosso país dizimou povos indígenas. Escravizou pretos e pretas trazidos de além-mar, interditando-os em sua dignidade. Uma história de riquezas construída com o sangue de inocentes excluídos e estereotipados. Não negamos o espaço do conflito como inerente à existência humana. Abominamos, entretanto, a violência que massacra e nega o outro e o pseudoconservadorismo que adota rótulos de forma superficial e estratégias visando à promoção da “arianização” do planeta segundo ditames do capitalismo. Abortamos de nossa convivência o negacionismo cego que promove a mortandade enquanto privilegia interesses obtusos e obscuros.
Declino, assim, um lugar de existência. A vida de hoje tem me ensinado a desaprender ou, talvez, pode soar melhor, desapegar-me da ilusão de querer melhor o outro, de desejar que meu suposto saber se torne o saber por excelência de quem quer que seja. Discípulo: nem ser, nem ter – é meu mote existencial. Estou motivado, de bom grado, a convocação da partilha com o/a amigo/a dos achados que a vida tem me permitido.
Saliento aos amigos e amigas leitores e leitoras que gosto demasiadamente de ler e escrever. Além da produção literária que faz parte do múnus acadêmico que tento atender com algumas produções, em 2008 escrevi um modesto romance, intitulado “Aquarela de Ilusões”, e, em 2021, publiquei um livro de poesias cujo nome é “Menino de Mim”. Sinceramente, são obras bem singelas. Mas retratam o amor pela literatura que aprendi desde a meninice e não pretendo largar. Assim, estou honrado em participar deste Portal e espero trazer uma boa colaboração para interagir e, sobretudo, corroborar com o gosto pela leitura e debate dos/das colegas.
Esse será, pois, meu lugar de fala. Um dizer que intentará escutar vozes que cantam, crianças que falam, excluídos que resistem, assediados incomodados, pessoas achincalhadas por conta de suas inscrições no mundo da vida, donde brotam as vidas e o vivente. Assim, meu convite é para o diálogo.
Dialogar entendido como horizonte de proposições e discussões erguidas sem o intento do convencimento ou a busca de consensos. Precipuamente, quero ser muito sério, honesto e provocativo a ponto de deixar meu amigo leitor ciente de que a fala que ofereço em texto é somente um ponto de vista para a vista de vários pontos.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, casado, pai de duas filhas e vô da pequena Ara. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP (1999). Tem alguns livros publicados, participou da organização de vários outros. Publicou diversos capítulos de livros e artigos sobre Filosofia da Educação e Ensino de Filosofia.
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Foto da Capa: Reprodução

