Se você não ouviu falar da poeta Mar Becker ainda, abra os olhos e os ouvidos. Nascida em Passo Fundo, essa jovem poeta de olhos de náufrago, como ela mesma diz em seu mais recente livro, “Noite devorada” (Fósforo, 2025), nos brinda com uma poesia limpa e profunda, absolutamente nada óbvia, densa e obscura do jeito que eu gosto.
Já havia conhecido Mar na época da pandemia pelas redes sociais e sempre gostei muito dos seus poemas. Sempre chamaram minha atenção justamente seus olhos de náufrago, numa aparência quieta e carismática. Seu primeiro poema que me capturou falava sobre as pintas nas costas de uma mulher, parecendo uma constelação. Apesar de essa imagem em si não parecer tão original assim, a maneira como o poema descreve essa mulher e o desejo do homem por ela foi de tal maneira arrebatadora que eu ali já entendi a força desse Mar. Por coisas da vida, e talvez pelas “facilidades” das redes sociais, não havia comprado ainda nenhum de seus livros já publicados, acompanhando sempre suas frutíferas produções e postagens pelas mídias. Até que apenas agora, nesse último mês, descobri que ela viria a Porto Alegre para lançar e autografar seu mais recente livro (Mar vive em São Paulo e já é uma poeta bastante premiada e reconhecida nacional e internacionalmente).
Numa noite de quarta-feira, chego à livraria Baleia (Mar na baleia é uma ideia bonita, não?) para conhecê-la pessoalmente e escutá-la num bate-papo sobre sua poesia. Não que fosse surpreendente, mas é sempre uma questão conhecer os criadores das criaturas, os pais e mães das obras que amamos. Pensando-se em música ou principalmente poesia, sempre achei difícil que alguém que produza algo sensível e esteticamente profundo pudesse ser alguém desprezível ou simplesmente chato, mas vai saber…
Mar Becker é encantadora. Ela é um poema caminhante e falante.
Com toda a simplicidade e naturalidade, falou diante de uma plateia atenta sobre sua poesia, sobre o fazer poético em sua vida e sua história, partilhou situações interessantes, banais e também engraçadas que lhe convocam à criação. Humildemente me identifiquei muito com sua maneira poética de enxergar o mundo e transformar situações absolutamente banais, como a parada do ônibus numa estação à noite, em algo potencialmente poético. O olho dela é poético. Sua retina deve ter um filtro ou como um dicionário itinerante que encontra, senão inventa, significados para imagens que ela absorve. Assisti a um vídeo hoje pela manhã em que a pessoa falava a frase “por absoluto diletantismo” e me dei conta de que essa é uma palavra que uso pouquíssimo, e é maravilhosa. A origem da palavra é italiana e vem de deleite. Fazer coisas por amadorismo, por prazer, sem compromisso com exatidão ou excelência. A poesia de Mar Becker, ainda que formalmente “profissional” porque ela vive disso, é seu labor, me parece diletante. Uma menina que olha o mundo, que olha a mãe lavando roupa, que estranha o mundo.
Outra questão que me impressionou nessa mesma noite de quarta-feira e que foi o gatilho para que eu decidisse escrever sobre ela essa semana foi vê-la declamando vários de seus poemas ali, “de cabeça” (de memória e se jogando de cabeça). Achei tão bonito ela conhecer de tal forma seus poemas. Ela não ensaiou, não planejou. Eles simplesmente parecem morar nela. Barquinhos desse mar. Poemas longos, poemas curtos. Fiquei pensando ali que ela é uma artista, como cantores que têm seu repertório na cabeça e cantam suas canções. Seus poemas eram canções que ela improvisou ali sem ensaio. A arte é coisa bonita mesmo, que reúne gente numa quarta-feira à noite para falar sobre o imponderável, falar sobre fazer poesia, cantar poesia.
“algumas palavras são lidas imediatamente depois de escritas, outras ficam guardadas, como um órgão numa bolsa, e aprendem a vascularizar o escuro. e a sensação é a de urgência, de que há um prazo curto para transplantar; quem leva um livro ainda fechado sobre si procura fôlego: é preciso que dê tempo, que se atravesse” (Becker, 2025, p. 77)
Todos os textos de Luciane Slomka estão AQUI.
Foto da Capa: Mar Becker / Reprodução do Instagram

