Aos 8 anos, ganhei de presente uma edição do “Dom Quixote para Criança” de Lobato, e meu encantamento foi tamanho que li praticamente toda sua obra infantil. Prisioneiro em minha própria casa durante a semana, com direito apenas a sair para as atividades escolares, eu terminei descobrindo Jorge Amado e caí de amores por Rosa Palmeirão (“Mar Morto”)… e nunca mais parei de ler! Entre vício e obsessão, foram “meus autores” que preencheram a solidão do rapaz introspectivo que fui: ler, já se disse, é uma apropriação, por isso eles são “meus” autores!
Não tinha ainda o hábito de assinalar passagens da leitura e emprestava a cada obra um respeito virginal que me impedia de marcá-la, de dobrar suas bordas, de sublinhar, de comentar, de exclamar, de interrogar… Mas quando adquiri tal hábito – até hoje preservado (sem um lápis eu sou um desleitor) – sempre me vem à memória um livro (“Monsenhor Quixote” de G. Greene) que emprestei a um amigo, à época meu aluno. Ele perdeu o livro, comprou outro e tentou – ingenuamente! – refazer, nas páginas do novo livro, as marcas que eu havia deixado no exemplar agora perdido! Claro, as marcas e passagens assinaladas que ele tentou reproduzir não eram as da minha leitura. Ele, evidentemente, ficou muito constrangido com minha… descoberta. O problema é que eu não perdi um LIVRO: eu perdi uma LEITURA. Nunca mais saberei o que “li” ali, o que me chamou a atenção, o que deixei passar… naquela leitura que fiz do grande escritor britânico aos 23 anos. Por outro lado, ao observar as passagens que ele marcou no novo livro, eu posso descortinar aquilo que ele achava que era importante para mim: perdi uma leitura de um livro; ganhei uma leitura sobre mim mesmo vinda de um outro leitor!
No exato momento em que escrevo esse artigo, constata-se uma trágica queda na quantidade de leitores (e na qualidade do que leem) no Brasil. Pela primeira vez, na série histórica, a proporção de não-leitores é maior do que a de leitores!!!!
Mas – desculpem a provocação – minha pergunta é direta: que razão teriam as pessoas para ocupar parte de seu tempo na companhia solitária de um livro (físico ou digital), sobretudo numa época em que transitamos da FORMAÇÃO (do espírito) para a INFORMAÇÃO (dispersa, fragmentada e a-crítica)?
Zweig achava (em “O Mundo de Ontem”), na recordação melancólica da sua Viena finissecular, que nós poderíamos ser “salvos” pelos livros, quer dizer, pela cultura que os livros guardavam e transmitiam através do tempo. Sei que não vou convencer ninguém a se tornar leitor, muito menos que veja nos livros aquilo que eu mesmo vi, acredito que vi, ao longo de meus anos de leitura. Não! Pode ser, leitor/a (se você chegou até aqui, é porque eu não preciso mais te convencer!) que LER seja, sim, objeto de uma “política pública”, para o que já existe uma Secretaria especial (Fabiano Piúba), estimulando a criação e permanência de hábitos e interesses nos livros. Mas pode ser que os “desleitores” que aquela pesquisa identifica como sendo maioria hoje entendam que LER seja esse “desagradável” confronto com o OUTRO (de outra cultura, língua, tempo, classe, ideologia, idade…) tão típico da sensibilidade democrática e do ódio que ela hoje alimenta. Quer dizer: aquela leitura que me permite me colocar no lugar do outro (o “pensamento representativo” de Kant) é coetâneo da sensibilidade democrática, que me permite o confronto dialógico com o OUTRO através de minha palavra para a construção de destinos comuns.
Assim, penso que a redução de LEITORES significa o aumento, na razão inversa, de adeptos da SERVIDÃO VOLUNTÁRIA!
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Foto da capa: Gerada por IA.

