Um colega de meu Departamento solicitou ao ChatGPT que escrevesse um poema sobre os “fundamentos filosóficos da educação”. Em alguns minutos saiu o resultado. Ei-lo:
“Educar é mais do que transmitir
É dialogar, questionar, transformar
É reconhecer o outro como sujeito
E não como objeto de manipular
Educar é mais do que reproduzir
É criar, criticar, emancipar
É construir uma sociedade justa
E não uma ordem de dominar
Educar é mais do que instruir
É formar, inspirar, humanizar
É desenvolver a consciência crítica
E não a alienação de se adaptar”
Concordemos: são apenas chavões típicos dos discursos pedagógicos supostamente “emancipatórios”, de sofrível nível de reflexão propriamente “filosófico”! Aqui, a Inteligência Artificial (IA) confunde-se perfeitamente com as “inteligências” produzidas e reproduzidas em certos meios universitários que se dizem inspirados em… Paulo Freire: ChatGPT sabe “manipular”, “se adaptar” ao discurso dominante em nossos Centros de Educação. Admirável!
O problema é que GPT (somos íntimos!) não tem completa autonomia criativa ou discursiva, e é preciso oferecer-lhe balizas, referências, vocabulário, predicados e, se ele é capaz de produzir tal “poema”, de baixíssima qualidade lírica, é porque o que estamos oferecendo-lhe como matéria de composição é exatamente aquilo que estamos também compondo, escrevendo, pensando e produzindo como qualidade não poética, mas simplesmente acadêmica! Retirem de nosso vocabulário “progressista” palavras como “humanização”, “consciência crítica”, “alienação”… e restará um vazio semântico. A questão não é o uso repetitivo, banal e protocolar desse vocabulário: é a institucionalização, não de um léxico, mas de uma forma de pensar, o que chamei em outro lugar de “derrota do pensamento” produzida pelo chavão, pelo uso impensado do clichê!
Então, solicitei ao irmão caçula de GPT (sou amigo da família!), conhecido como Chatinho, para me fazer outro “poema”. Em dois minutos ele me mandou isso:
“Educar é repetir chavão
Seja no chão da escola
Seja nos Centros de Educação
Eu mesmo, Inteligência Artificial,
Sei dizer o que todo pedagogo quer ouvir
Progressista ou emancipatório o negócio é repetir!
Não precisa mais pensar
É da linguagem que vem a prisão
O chavão é a falência do falar
O clichê é o fim da reflexão
Sou Chatinho GPT
Sou tão artificial quanto meu irmão
A sua tese eu posso escrever
A banca vai indicá-la pra publicação!
Aceitemos: o nível poético da família GPT é indigente, mas ele sabe exatamente o que está fazendo. Tem até a autoconsciência de se saber “artificial”. Ai de nós!
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Foto da Capa: Gerada por IA.

