Na última sexta-feira, fui a Porto Alegre. Desde que passei a frequentar a capital com mais regularidade, houve dois períodos em que precisei me distanciar. O primeiro foi logo após a enchente, quando o trem deixou de circular e o acesso ficou limitado. O segundo, mais recente, teve início em março deste ano, quando a depressão me acometeu e me obrigou a me afastar das atividades sociais. Em ambos os casos, eu me senti isolada não apenas da cidade, mas de tudo o que ela representa para mim: as atividades culturais, os prédios históricos, o Guaíba.
Apesar de ter ensaiado muitas vezes a ida a Porto Alegre durante esse período de reclusão, só na semana passada consegui finalmente retornar à cidade. Posso dizer que os remédios e a terapia têm me dado mais segurança para sair de casa, mas ainda assim, precisava de um motivo, uma desculpa para dar esse passo. Por isso, decidi buscar, na casa da escritora Vera Molina, os exemplares da coletânea da qual sou organizadora e participo com um conto. Essa obra, publicada pela Editora Bestiário e ainda não lançada, será tema de outra conversa minha. Hoje, porém, quero falar sobre algo diferente.
Porto Alegre me encanta. Não apenas pela geografia, mas pelas histórias que abriga. O cheiro de peixe vindo do Guaíba não me incomoda; ao contrário, me parece parte do seu charme. Gosto do fervilhar cultural, das múltiplas atividades acontecendo ao mesmo tempo, da variedade de escolhas que a cidade oferece. Quando compartilho esse encantamento, percebo que nem todos sentem o mesmo. Há quem não suporte andar pelas ruas da capital e faz o impossível para não precisar frequentá-las. Outros só se dirigem a ela quando precisam resolver algo, fazer uma compra ou consultar um médico. Eu, no entanto, criei um vínculo com Porto Alegre desde que me tornei escritora e não consegui mais me desvencilhar. A cidade, repleta de histórias e memórias, tornou-se parte essencial do meu processo criativo, não apenas como inspiração, mas como objeto de estudo e cenário recorrente da minha literatura. Não por acaso, meus três últimos romances têm cenas ambientadas na capital, incluindo um que se passa durante a enchente de 2024.
Porto Alegre respira cultura e isso vai muito além da minha percepção. Uma pesquisa divulgada recentemente revelou que a capital gaúcha lidera o ranking nacional em acesso à leitura e participação em feiras literárias. Para quem vive na cidade, talvez esses dados soem exagerados, mas para quem mora fora, especialmente em cidades onde a cultura é frequentemente negligenciada, esses números fazem todo o sentido.
Na cidade onde vivo, a realidade é outra. No ano passado, não houve feira do livro, e até agora não há qualquer sinal de que teremos uma edição neste ano. Contamos com apenas três ou quatro livrarias, e nenhuma delas realiza ou acolhe eventos literários. Como bem observa o escritor Henrique Schneider, “o mais triste em ter poucas livrarias na cidade é perceber que isso não faz falta para os moradores”. Essa ausência de espaços de encontro com a literatura não é apenas um problema local, é um reflexo da desvalorização simbólica da cultura em diversas regiões e isso não acontece apenas na minha cidade. Em muitas cidades do interior, a literatura tem se limitado às prateleiras escolares. Feiras do livro se tornam eventos esporádicos, sem continuidade ou investimento real, e os escritores locais lutam sozinhos para divulgar seu trabalho, muitas vezes sem apoio institucional ou reconhecimento da comunidade.
A falta de livrarias, de bibliotecas ativas e de encontros literários evidencia o quanto ainda precisamos lutar para que o livro tenha importância na vida das pessoas. Mas o que fazer quando as cidades não investem em cultura? Quando nem os governantes valorizam a literatura? Quando o livro é tratado como luxo ou adereço? É nesses momentos que a resistência vem das iniciativas individuais e comunitárias, dos professores que, mesmo sem recursos, continuam incentivando a leitura em sala de aula; dos escritores que promovem lançamentos em cafés, bares e escolas; dos leitores que emprestam seus livros, formam clubes de leitura, criam bibliotecas livres nas praças e nos pontos de ônibus. É nesses pequenos gestos que a literatura encontra caminhos para seguir viva e, por mais que faltem políticas públicas e investimentos, a paixão de quem acredita no seu poder transformador é sempre mais forte.
Voltar a Porto Alegre, nesse momento, fez com que eu recuperasse um pouco mais do fôlego criativo que perdi em março, no início da minha fase depressiva. Fiquei feliz ao perceber que estou, enfim, em condições de retomar minha participação em eventos literários e até já comecei a aceitar convites para rodas de conversas e feiras literárias. Mais do que nunca, sinto-me realizada por fazer parte, como escritora, da capital mais leitora do país. É um privilégio pertencer a um lugar onde a literatura pulsa nas praças, inclusive no Chalé da Praça XV, onde, mês a mês, o grupo de escritores do qual faço parte realiza uma bela e calorosa feira literária.
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Foto da Capa: Feira do Livro / Wikipedia

