O ano de 2018 se aproximava de seu término, e eis que um certo personagem lastimável da cena política brasileira declara, diante de incautos estudantes, que, se alguém quisesse fechar o Supremo Tribunal Federal, não precisaria sequer “mandar um jipe – bastava mandar um soldado e um cabo”. Na impossibilidade de me dirigir àqueles malsinados estudantes, destinatários dessa mensagem irresponsável e tosca, dirijo-me a você, leitor e leitora, no sentido de responder, diante do que se desenrola em tempo real nesse momento, numa das salas de julgamento do referido STF: um soldado e um cabo fecham mesmo o STF?
Sim. E tais agentes nem precisariam estar fardados, como mostraram as cenas do 8 de janeiro de 2023. Invadiram, vandalizaram, conspurcaram, despedaçaram mobiliário, sentaram em poltronas das quais não deveriam ter sequer se aproximado. Grafitaram idiotices, com batom de maquiagem, em símbolos da República. E não encontraram resistência. Houve somente o aturdimento de toda uma nação, perplexa diante do que via se desenrolar, em seus aparelhos de TV e outras telas, em tempo real. Mas como isso foi possível? Muitos de nós se perguntavam. Como ousaram, e como puderam? Como cometeram tais atos sem temer qualquer videoregistro – até parecendo que, justamente, esse videoregistro era buscado. Efetivamente, pessoas que habitualmente não provocariam susto ou temor, como cabeleireiras e vendedores de pipoca, invadiram as dependências do STF e outras localidades no coração do aparato republicano, em Brasília, sem que nada ou ninguém os impedisse – como se o objeto do ataque tivesse a fragilidade de quem não resiste a um mísero soldado, assistido por um cabo. Então o STF seria essa instância desarmada e necessariamente frágil? Seria passível da ação insultuosa de qualquer um a quem desse na telha, na falta de melhor que fazer, defecar em seus corredores?
Não. Nesse setembro de 2025, aquela sensação de poder e impunidade que animava a orgia de depredação – dos presentes e dos que optaram pelos bastidores – todos estes e estas estão sentindo o peso dos braços da Lei. Imploram pelo perdão daqueles que testemunharam seus deboches acintosos, como se pouco houvessem feito, nada além de umas vidraças estilhaçadas, relógios esquisitos jogados ao chão, estátuas indecifráveis grafitadas. Não contavam que, de novo em tempo real, o país testemunharia o desmoronamento de uma quimera golpista – e tudo isso sem acionar a ignição de um jipe, sem sacar uma única arma. Pela força abstrata e implacável da Lei.
Fechar o STF não está fora de alcance – a História recente está à mão para mostrar. É possível consegui-lo sem disparar um único tiro. Porém, para além de poltronas a usurpar e vidraças a estilhaçar, o STF é uma abstração, uma ideia, um conjunto de princípios, e se, em princípio, o ataque violento e destrutivo a esses entes parece estar sempre à mão, o curso da História permite ver (pelo menos para aqueles minimamente aparelhados à leitura) que, tudo bem considerado, a única arma efetiva para abater um princípio, uma ideia, é outro princípio, outra ideia. Muitas ideias que se tentaram, ao longo da história, abater a ferro e fogo, mostraram a quem quis ver o quanto ressurgiram das cinzas e dos escombros ainda mais fortes do que apareciam antes.
Para além da sanha genocida na ponta dos fuzis, na ogiva dos mísseis, na precisão dos drones, uma nação inteira não poderá ser efetivamente destruída nem sequer pelo mais industrial dos esquemas de aniquilamento. É verdade que não são somente ideias “puras” e luminosas que têm essa potência – muitas ideias abomináveis são igualmente resilientes. Se os mesmos soldado e cabo tentarem, à força, fechar centros de pregação de princípios como o caráter plano da Terra (com a pretensamente luminosa ideia da defesa da “verdade”…), eles defrontar-se-ão com a mesma potência de resistência de outras ideias. O bom senso e a verdade não estão do nosso lado por intento divino ou por vocação indiscutível – e ai de quem ousar discuti-las. Ideias abomináveis fazem seu caminho e persistem. Resistem. Contra elas, nunca haverá jipes, soldados ou cabos suficientes, mesmo que se arvorem emissários do Bem, da Razão, da Verdade. Contra elas, somente serão eficazes outras ideias – sem se perder de vista que depois haverá outras, e outras, e outras… Sem que se possa matá-las no fogo das fogueiras purificadoras.
Princípios importantes se farão ouvir e se farão valer nos próximos dias, nas próximas horas. A História se escreverá em nosso país. Tais movimentos emanarão de uma força considerável, contra a qual, nesse momento, jipes, soldados e cabos nada podem. Tudo isso em meio a uma provisoriedade, uma fragilidade que espanta e amedronta, mas que isso não nos impeça de soltar o grito, abrir o sorriso, cantar uma canção e ganhar as ruas, em comemoração a um momento em que os princípios terão prevalecido sobre os jipes, soldados e cabos – em sua insignificância inerente de agentes da força bruta – mesmo que em miniatura.

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Foto da Capa: Joedson Alves / Agência Brasil

