Demorei a entender a velocidade do tempo. Quando eu era criança, insistia em desejar que chegasse logo o Natal, o meu aniversário, o Dia das Crianças, a adolescência, a vida adulta. Hoje penso que poderia ter sido mais paciente e curtido mais tantos momentos que me escaparam sem que eu percebesse. Poderia ter aproveitado mais o carinho de pessoas que se foram para sempre e os abraços que, na época, pareciam eternos. Poderia ter ouvido com atenção as histórias contadas pelos mais velhos, guardado com mais cuidado os pequenos gestos de afeto que hoje fazem tanta falta.
Eu fui uma criança feliz. Embora tenha me acostumado a brincar, muitas vezes sozinha, a falar comigo mesma e fantasiar um mundo que não existia, eu me bastava. Minha irmã nasceu quando eu tinha nove anos e a diferença de idade já não nos permitia brincarmos juntas. Eu já estava na fase de escrever em diários e inventar histórias, enquanto ela ainda se encantava com os desenhos animados e brinquedos coloridos.
Tive os meus traumas de infância (quem não?) com os quais eu convivo ainda hoje. Recordações dolorosas, algumas revestidas de mágoas, outras de raiva, lembranças que pedem para serem compreendidas, não esquecidas. Relações mal resolvidas, agressão travestida de cuidado, um entendimento sobre tudo que, na época, eu nem sabia que existia. Que atire a primeira pedra quem não carrega uma perturbação, um fantasma agarrado ao pescoço ou pendurado nas costas. Que não lute diariamente para ressignificar atitudes de quem, muitas vezes, não tinha intenção de machucar.
Todos temos feridas que precisamos curar, mas o meu lugar de fala é o de uma mulher que viveu a infância nos anos 1980, quando muitas mães ainda eram moralistas e reprimiam os desejos das filhas. Fui adolescente nos anos 1990, perplexa diante da exposição dos corpos femininos na televisão, sem compreender direito o incômodo que aquilo me causava. Fui obstinada em não engordar, mesmo pesando apenas quarenta quilos. Achava-me feia diante do espelho por não corresponder aos padrões de beleza impostos pela sociedade. E, como tantas outras, carreguei culpas que não eram minhas, pelos olhares invasivos, pelas palavras indevidas, pelos assédios que sofri, quando os verdadeiros culpados eram aqueles que atravessavam todos os limites.
Em Antes de ser pequena, romance de estreia da psicanalista Jéssica Pozzebon, reconheci reflexos de todas as fases da minha vida. Cruel e sensível ao mesmo tempo, o livro mostra como pequenos e grandes dramas moldam a infância. A protagonista, carregando medos e culpas, me fez perceber que muitos dos conflitos que levamos para a vida adulta têm origem em cobranças externas e em nossas próprias tentativas de entender e controlar situações que estavam além da nossa idade. Pequenas frustrações, olhares críticos, comentários maldosos e expectativas exageradas faziam parte do meu cotidiano, assim como de tantas outras crianças.
Reflito sobre a infância na semana que antecede o Dia das Crianças e concluo ser esse um período decisivo de formação emocional. É o momento em que aprendemos, muitas vezes de forma dolorosa, a lidar com medos, frustrações e expectativas que nos acompanham pela vida. Celebrar o Dia das Crianças, então, é reconhecer a importância de proteger, escutar e valorizar esses pequenos mundos internos. É um convite para olhar para as crianças de hoje com mais atenção, respeito e empatia, lembrando que cada gesto de afeto, cada palavra de incentivo, pode deixar marcas que durarão por toda a vida.
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