Eu nunca escrevi uma única linha sobre Paris. E, no entanto, vivi naquela cidade quase 10 anos! Não que eu me pretenda escritor, o que provavelmente nunca serei (não com as exigências que me faço), ou que queira me comparar com quem não deva. Meu problema é outro: o tempo.
O grande Érico Veríssimo passou 2 ou 3 meses nos EUA e escreveu o formidável Gato Preto em Campo de Neve (embora, mais tarde, tivesse voltado, assumido um posto diplomático e escrito A Volta do Gato Preto); Antônio Maria passou alguns dias em Paris e voltou com crônicas fabulosas sobre “velhinhas” em um parque parisiense; Rubem Braga escreveu o seu notável “Retratos Parisienses”, com vistas e entrevistas que jamais alcançarei…
Dez anos naquela cidade e tive a oportunidade de vê-la, lê-la, bebê-la (sobretudo!), mas nunca escrevi nada sobre ela. Não que ela não seja altamente inspiradora: a incompetência é exclusivamente minha. Descobri, depois de algum tempo, que, muito além do que a vista “turística” pode alcançar (Tour Eiffel, Invalides, Notre-Dame), há sete ou oito andares abaixo desta vista (metrôs, catacumbas, esgotos, carrières) que exigiriam uma verdadeira arqueologia de uma cidade para poder se falar dela (como se a cada linha que lavrasse, a cidade, indignada, me dissesse “você não sabe da missa um terço!”).
Conclui que é fácil apaixonar-se e escrever sobre “superfícies”. Quero ver é repetir um Restif de La Bretonne ou um Eugène Sue, mergulhar na escuridão da noite parisiense e sair de lá com joias literárias do submundo, da escuridão, dos círculos inferiores… Freud comparava as escavações do Fórum romano com o trabalho que ele mesmo, como psicanalista, fazia com as pessoas. A questão, portanto, é: até onde uma cidade quer se revelar ao escritor, deixar pensar que ele a “conhece”? (Gilberto Freyre intuía isto ao comparar Recife — fechada ao estrangeiro — e Olinda — aberta e entregue).
Aqui, acho que vale a distinção entre a paixão arrebatadora por uma cidade sedutora e coquette, exposta em sua superficialidade, e o amor que exige tempo, entrega e, finalmente… desistência! Porque desvelar a alma destas cidades, em seus subterrâneos inexploráveis pelo olho ordinário, é, na verdade, ir ao fundo de nós mesmos, deparar-se com este espelho que é toda cidade.
É porque ficaram apenas alguns dias em Paris que foram capazes de escrever coisas tão bonitas e tão agradáveis de ler. É porque terminei – ó curiosidade malsã! — investigando o que não devia, passando mais tempo do que devia, que nunca fui capaz de escrever uma breve linha sobre Paris.
Acho que todo amor comporta algo de semelhante: certa inefabilidade, enquanto a paixão, em seu arrebatamento de fogo-fátuo, puxa com facilidade as palavras do ente apaixonado. Paris é, neste sentido, inenarrável para quem a ama.
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Foto da Capa: Catacumbas de Paris / Reprodução de Redes Sociais

