No último final de semana, assisti a um episódio extra da série “Stranger Things”, que é praticamente um documentário sobre a realização da quinta e última temporada. Na série, vemos a história da cidade de Hawkings e toda a trama envolvendo uma quase destruição do planeta que conhecemos por uma entidade do mal, muito bem retratada, chamada Vecna. Para além da história em si, extremamente interessante, bem escrita e muito bem realizada, fiquei envolvida com esse episódio extra e a curtição que é poder estar por trás das câmeras e ver como funciona uma produção deste porte.
Queremos e precisamos da fantasia e da ficção, mas falamos pouco sobre o prazer de poder enxergar os truques por detrás da fantasia. Isso desde que seja depois de termos, por um tempo, apostado e acreditado na história fictícia que nos foi contada. A última noite de filmagem de Stranger Things retratada nesse episódio que assisti parecia um ritual de passagem. Naquele estúdio com uma pequena cidade inteira construída de madeira, tinta e arte refinada, havia risos abafados, abraços longos, muitas lágrimas e a sensação incômoda de que algo estava terminando para sempre. O making of final não eram só registros de tomadas e ajustes de iluminação, mas também um mapa afetivo dos erros, das tentativas e do afeto que transformou atores, técnicos e fãs num único corpo.
Ver o “por trás das câmeras” dessa última etapa foi como espiar a caixa-preta de um voo que já tomamos muitas vezes. Há algo que fascina e envolve nas falhas: um ator que perde a fala por rir, um figurino que rasga no ensaio, um operador que arranca aplausos com uma solução improvisada. Essas imagens quebram a ilusão de perfeição e nos lembram que aquilo que mais adoramos é justamente a parte da obra humana. Ver os atores se maquiando, o grande monstro Vecna tomando um café gelado e conversando com a protagonista nos bastidores, os improvisos, o carinho compartilhado de trabalhadores da arte. Isso nos aproxima e dá aquela sensação de poder, de saber que estávamos sim sendo “enganados”, mas que era temporário, ainda que, enquanto assistíamos, provavelmente ninguém reforçava a si próprio que aquilo não era real. Entrar na fantasia era uma possibilidade de alívio e liberdade, ainda que em determinadas situações fosse bem melhor saber que o mundo invertido era ficcional (opa, será mesmo?).
O making of final é um rito de despedida. Quando a série termina, o set vira arquivo, os cenários se desmancham. Mostrar o processo é estender esse inventário emocional: vemos técnicos embalando objetos com reverência, diretores exaustos brindando e jovens atores que cresceram junto com suas personagens se despedindo com a voz embargada. Isso nos reconcilia com o encerramento, porque participamos do luto e da celebração ao mesmo tempo.
Outra razão pela qual gostamos de olhar o backstage é a curiosidade, do tipo que nos leva a querer adivinhar o que tem na caixa antes de abrirmos um presente. Queremos decifrar o truque, entender a engenharia do espanto. Ainda assim, é uma delícia seguirmos sendo enganados e embarcarmos na ilusão de uma história fantástica. Saber como foi feita uma cena icônica remove parte do mistério, mas acrescenta outro tipo de prazer: o de ilusoriamente dominar o imprevisto.
Além de tudo isso, o making of nos oferece outra história: a metanarrativa de como histórias são feitas. Stranger Things, série que bebe da nostalgia e do mistério, permite que seu making of também seja nostálgico, não somente pela década de 80 evocada na ficção, mas pela lenta e artesanal construção da crença coletiva em personagens que nos acompanham durante anos.
No fundo, gostamos porque reconhecemo-nos no processo. Assistir ao backstage é testemunhar ousadia, criatividade, erro, conserto, abraço. E quando as luzes finalmente se apagam no set, resta a imagem do elenco caminhando pelos corredores. É uma imagem simples, humana, e é por isso que, depois de tanto espetáculo, ainda desejamos tanto o real, ainda que ele seja realmente uma coisa estranha.
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Foto da Capa: Netflix / Divulgação

