Não queria, mas vou falar sobre a morte, o que, se a gente olhar pelo lado positivo, significa falar também sobre a vida. Mas o fato é que penso bastante sobre a finitude e quando ela acontece. Nos obituários (agora instagramáveis), a primeira coisa que olho é o dia e o mês em que a pessoa nasceu e morreu (as biografias pouco me impactam), porque todos os anos a gente passa por eles, e eu delirantemente tento encontrar alguma conexão. Busca sem resposta, eu sei. E inútil. Que diferença esses números fazem na minha vida ou mesmo na de quem se vai, já que a gente não tem como saber que se foi? Nos nascimentos talvez façam. Minha mãe, minha tia e a avó delas nasceram na mesma data. Para a minha avó, isso deve ter sido especial, ainda mais nos tempos sem cesariana. Tudo obra da natureza ou do acaso.
Em um dos livros da escritora Rosa Montero, li que, quando há uma coincidência, sempre haverá muitas outras, razão pelo qual me tornei supervítima de agendamentos. Dei à luz em horário programado. O dia previsto (3 de maio) para o nascimento do meu segundo filho batia com o dia em que perdi o primeiro. Agradeço à ciência por ter desenvolvido o parto cirúrgico. Mesmo que eu tivesse condições orgânicas, eu não tinha emocionais de repetir o desafio de um parto normal na mesma data. Se não fosse pela cesariana, a minha maternidade teria sido turbulenta. Na chance anterior, ela morreu junto com aquele que era para eu matricular na creche quando tivesse uns dois anos, no inglês com uns cinco, em algum esporte assim que ele quisesse. Ou a vida permitisse.
Elisa Nedel, uma das mães dos tempos em que meu filho estava na escolinha, me disse que a coisa que mais queria para o futuro de sua filha, na época com três ou quatro anos, era que ela seguisse viva quando começassem as festas e as viagens para o litoral com os amigos. E depois as pessoas ainda têm a coragem de dizer que só as mães são felizes. Não conheço nada mais incontrolável e permanente preocupante do que gerar, parir e cuidar de um ser humano. Ando exausta, lembrando das madrugadas frias e silenciosas em que me levantava para amamentar o meu bebê, num ato mamífero, orgânico e exaustivo por mais que poetizado, porque um filhote canino veio morar aqui em casa. Já vou falar sobre ele. Este texto é também sobre a sua vontade de viver. Mas preciso antes dizer que adoro poemas e que isso se dá, em parte, porque, ao contrário do que eu imaginava quando menina, eles não precisam ser apenas sobre ‘batatinha quando nasce” ou as aventuras e desventuras do amor romântico.
Wislawa Szymborska, minha poeta favorita, escreveu sobre tantos outros temas. O infortúnio das batalhas, por exemplo: “Mulher, como você se chama? — Não sei./ Quando você nasceu, de onde você vem? — Não sei./ Para que cavou uma toca na terra? — Não sei./ Desde quando está aqui escondida? — Não sei./ Por que mordeu o meu dedo anular? — Não sei./Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? — Não sei./De que lado você está? — Não sei./É a guerra, você tem que escolher. — Não sei./Tua aldeia ainda existe? — Não sei./Esses são teus filhos? — São”.
Dizem que os filhos, da mesma forma, sabem quem são as mães que os geraram, reconhecem seus batimentos cardíacos e suas vozes. O corpo materno é o primeiro transmissor de linguagem. Dele, vem a primeira gramática ou a primeira mitologia. Em Dor e Glória, Pedro Almodóvar fala alguma coisa nesse sentido. Nunca mais vi esse filme. Se tivesse sido lançado na época dos DVDs, eu o teria. Prefiro mil vezes rever o que gosto a experimentar o desconhecido. Ando quase conservadora. E muito, mas muito exigente. A presença da morte me faz ser. Ela sabe o que é a vida. E eu sei que o combate entre os seres vivos e ela é desigual, mesmo que ela aceite uma partida de xadrez. No máximo, como o Max Von Sydow, no filme O Sétimo Selo, dirigido pelo Ingmar Bergman, recebemos dela um adiamento.
O filhote que veio morar aqui, apesar de sua condição canina, compreende o tabuleiro e, como um peão, joga, contando com a astúcia e bondade das outras peças. Foi desse jeito potente e lúdico que pensei sobre os gestos do meu filho e do escritor Rafael Jacobsen, que encontrei no hospital veterinário em que o cusquinho está sendo tratado. Rafael adotou um vira-lata, de mais ou menos 1 ano de idade, atropelado na semana passada. Meu filho viu os passinhos do dois quilos e meio abandonado no estacionamento da universidade. Um quadrúpede de sorte, penso. Um, não. Dois, como os dois bípedes com corações moles para não dizer insensatos que os resgataram. Insensatos porque a bondade, em um mundo contaminado pelo mal, não deixa de ser um fardo. Quem é bom sabe que a conta nunca é baixa, que a recompensa é o próprio processo e que a vitória, por mais alegria que traga, não deixa de ser um marco da nossa insignificância. Somos, ainda que a gente resista, uma coisinha frágil.
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Foto da Capa: Dor e Glória / Divulgação

