Estamos cercados por várias e sérias crises, de âmbito mundial, nacional e local, que envolvem todos os cidadãos: crises climáticas, econômicas, de segurança legal, de individualismo, de contrários que não dialogam, … Estas crises registram manifestações em páginas de jornais, revistas, programas radiofônicos e televisivos. Se reproduzem em mensagens circulando pelas redes sociais. Estas manifestações são expressas ou de forma alarmante, ou como fake news, ou maduras questionando/propondo, ou intransigentes, respondendo com agressividade, por não ter recebido a mensagem que desejam ouvir/ler.
No meio do caos das crises apontadas, percebem-se crianças e jovens confusos, “indisciplinados”, evadidos das salas de aula, que não entendem bem o atual clima que os cerca, mas certamente percebem que não são eles os responsáveis disto tudo. São, na maioria dos casos, vítimas. Percebem-se profissionais da educação apresentados como causadores de dados apontados nos censos, cujos valores estão muito aquém do desejado e em franca decadência, ao longo dos últimos anos.
Talvez, na sociedade, alguma voz se levante alertando que é preciso saber ouvir o que os integrantes dos processos de ensino e de aprendizagem e de gestão escolar têm a dizer. Que é preciso considerar seus respectivos contextos, para entender em que cenários os processos ocorrem e os motivos de apresentarem resultados não satisfatórios. E, por que não, serem os envolvidos convidados a participar de soluções colaborativas.
Nas oportunidades abertas em que essas ações conjuntas acontecem, a voz é abafada pelos relatos da evolução das demais crises aqui enumeradas. Criam-se mais grupos que se envolvem na discussão das causas e dos impactos de cada crise, sem perceber os fios condutores que as regem. Falta uma visão sistêmica de interdependência que existe entre elas.
Ao olhar com atenção cada crise listada, percebe-se a interferência de resultados obtidos pelos atuais processos educacionais tradicionalmente adotados e de valores dispares incorporados. Foram processos de ensino e aprendizagem e de gestão escolar que não consideraram o desenvolvimento de competências humanas, além das competências de domínio das informações e dos processos próprios de aplicação de diferentes áreas de conhecimento.
Esta é a crise educacional, na sua conceituação mais abrangente. Crise decorrente da falta de ações intencionais voltadas para o desenvolvimento de habilidades e saberes de pessoas capazes de enfrentar, a cada momento, com seriedade, o interesse coletivo e não o interesse individual, os valores e princípios minimamente expressos nos documentos legais vigentes.
A falta de políticas públicas consistentes e duradoras, focadas em propósitos que visam resultados objetivos na melhoria das condições de vida plena dos cidadãos, aproveitando o diálogo como uma das ferramentas de construção coletiva, é uma lacuna na busca de amenizar ou evitar crises como as que atualmente vivemos.
Recentemente recebi o registro de uma longa entrevista, intitulada: Desafios em favor de uma educação de qualidade, onde o Professor Gabriel Grabowski[1], meu ex-chefe, com o qual aprendi como é importante contribuir positivamente para uma causa comum, autônoma de posicionamentos individuais, mas repleta de respeito mútuo.
Ao ler atentamente a entrevista toda, endosso o posicionamento do professor Gabriel quando afirma: “Frente a tudo isso, a sociedade brasileira se furta a tomar a pauta educacional na profundidade que merece. Temos uma legislação educacional relativamente avançada, mas não cumprida, onde a implementação das políticas públicas, especialmente a do financiamento da educação, é um dos maiores impedimentos para uma formação escolar de qualidade. Não podemos deixar de registrar que continuamos como um dos países mais desiguais do mundo, onde a riqueza de poucos e a pobreza de 2/3 da população se cruzam cotidianamente”.
Expandem-se e prorrogam-se prazos de execução de leis, programas, projetos, ou interrompem-se processos no meio do caminho, sem ainda ser possível identificar impactos que poderiam ser obtidos. Mudanças periódicas de administração ou justificativas não coerentes com os fins educacionais deixam diretores, professores, famílias e interessados na educação estupefatos, desiludidos, descompromissados, com autoestima comprometida.
Outro destaque importante a apontar é que não faltam recursos. Muitíssimos deles não são gerenciados adequadamente. Compras são realizadas sem um diagnóstico das reais necessidades dos alunos, professores ou do pessoal administrativo. Na maioria das vezes, realizadas sem a verificação da existência de infraestrutura na escola para sua instalação – elétrica ou eletrônica. Não se pensa na capacitação dos profissionais para o manuseio ou, pior, não são reservados recursos para manutenção e conserto, decorrente do uso, ou quando são destinados ao atendimento de interesses individuais ou partidários.
Entretanto, é válido o posicionamento do Gabriel: “Na educação básica, a rede pública (municipal, estadual e federal) atende a 79,8% das matrículas. Portanto, necessitamos que esta oferta pública tenha financiamento estatal ampliado e regular (sem contingenciamentos e cortes), com professores bem formados e carreiras decentes, com escolas bem estruturadas e equipadas de laboratórios, bibliotecas e espaços culturais e de entretenimento”.
Gabriel e eu convergimos em outra lamentável realidade: a escola e a formação escolar brasileira continuam sendo um dos maiores desafios de nossa nação. Em pleno século XXI, no ano de 2025, ainda não conseguimos universalizar a educação básica como direito de todas as crianças, adolescentes, jovens e adultos. Neste século, tivemos dois Planos Nacionais de Educação (2001-2011 e 2014-2024) com a maioria das metas descumpridas pela União, Estados e Municípios. E mais, a maioria da sociedade não tem ciência de que esta é uma séria crise, com resultados imprevisíveis nas próximas décadas.
Em outras palavras, está a Escola de hoje suprida de profissionais permanentes ou vinculados, capazes de entender a realidade de cada aprendiz, e contam com uma estrutura que supra o professor de informações e recursos educativos para que a dinâmica em sala de aula possa atender a todos, com estratégias diferenciadas? Evidências indicam que, para isso ocorrer, é necessário que os cursos superiores de educação preparem seus egressos com as competências básicas para o momento de hoje e visão de tendências e caminhos de permanente atualização e melhoria.
Outra consideração a observar é o gerenciamento do processo educacional que nele ocorre. Gerenciar uma sala de aula requer forte fundamentação da área de conhecimento a ser ministrada, paralelamente a uma sólida base de relações interpessoais e intrapessoais para conviver construtivamente com seus aprendizes. Para isso, os docentes precisam de conhecimento das características dos aprendizes com que irão conviver – suas carências, vivências, oportunidades, inteligências a suprir e qualificar cada vez mais, em um movimento que inicia em casa (mesmo que precariamente), segue na escola e se estende na vida pessoal, social e profissional do aprendiz.
Apoiada na percepção e dados que o professor Gabriel apresentou, acreditamos que muitas são as causas externas que interferem neste cenário: a descontinuidade de políticas públicas nas trocas de governos; as reformas educacionais e curriculares frequentes e escolas sem infraestrutura (laboratórios, biblioteca, internet, espaços esportivos e culturais).
A designação de diretores é outro fator interveniente no êxito do processo educativo. Independente do processo de escolha, é preciso que o profissional tenha um perfil que perceba as possibilidades e oportunidades das salas, dos processos educacionais desenvolvidos. Sua liderança deve ser reconhecida pelo público interno e externo da escola. A gestão das coisas públicas é outra competência necessária para o êxito da gestão da escola como um todo. Mas isto não basta, nem sempre o docente integra uma carreira que o estimule a se desenvolver como pessoa e como profissional. É uma precária carreira, muitas vezes de “faz de conta”, de tão precária.
Apontamos, por último, como uma crise interna da escola, a falta de escuta ativa das crianças, dos adolescentes e seus familiares, a falta de parceria com a comunidade, na solução de situações específicas, com reciprocidade de impactos. Na realidade, nos perguntamos: é fácil estabelecer parcerias? A política pública local está oferecendo condições para esta aproximação ocorrer, como mantenedora valorizando a escola e seus integrantes? Será que esta crise não é a base das demais, inicialmente citadas? Sugiro, também, fazermos repetidamente outras perguntas: Temos professores bem formados e carreiras decentes, com escolas bem estruturadas e equipadas de laboratórios, bibliotecas e espaços culturais e de entretenimento? Os atuais egressos contribuirão com os demais setores da sociedade em que vivem, com que competências e valores?
As evidentes respostas sugerem ser esta uma das maiores crises que abala a sociedade. Que alimenta as demais crises presentes hoje e que há muitas dezenas de anos vem minando a Educação ofertada à sociedade!
[1] Gabriel Grabowski é graduado em Filosofia Plena pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Dom Bosco (1985), mestre (2004) e doutor (2010) em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor pesquisador da Universidade Feevale, atua no Programa de Pós-Graduação em Qualidade Ambiental (PGQA) e Mestrado em Psicologia. Presidente do Conselho de Desenvolvimento Regional do Vale do Rio dos Sinos (Consinos) e membro da Diretoria da AESUFOPE.
Rita Maria Silvia Carnevale é articuladora do POA Inquieta (spin *Articuladores, Educação, Boa Política), Mestre em Administração de Empresas, pela UFRGS. Aposentada, trabalha como pesquisadora e consultora de Desenvolvimento de Pessoas, Governança e Gestão, em especial de instituições de educação. Participa do Conselho Municipal de Inovação, Ciência e Tecnologia de Porto Alegre – COMCET. É mentora de um jovem do Projeto Pescar.
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Foto da Capa: Rovena Rosa / Agência Brasil

