Desde garota sou fascinada pela origem das espécies. Queria ser paleontóloga e pesquisava na biblioteca do Instituto Cultural Norte-Americano, onde me formei em inglês. Tenho uma ligação fortíssima com a natureza e acho que isso vem de um salto recente para a forma humana e de uma trajetória que privilegiou o contato com o mundo natural desde a infância.
Fui uma bebê embalada no berço pelo som do apito e das descargas de vapor de locomotivas, em manobras no pátio da estação de trens, em Cacequi, interior do Rio Grande do Sul, onde morávamos. Havia alguma coisa sempre em movimento, chegando e partindo, moldando em mim um coração duplamente pulsante. Durante toda a infância, me chamaram de bugra, pois eu queria estar sempre de pés descalços, solta, correndo pelo quintal, o rosto sujo de terra, explorando territórios verdes, saltitando no ritmo da chuva com suas gordas gotas d’água explodindo no chão, que chamávamos, não lembro o motivo, de “soldadinhos”. Balançava de cabeça para baixo, os pés presos no galho bifurcado da velha pitangueira. Ensaiava todo tipo de balanço com o corpo, usando qualquer apoio como barra, e a ginástica olímpica, anos mais tarde, foi uma incursão prazerosa, com os exercícios nas paralelas, na barra e no solo, espacatos, estrelinhas e pontes.
Assim fui demarcando o território da minha alma, em ambientes ao ar livre, verdejantes, banhados de sol e chuva, pólen, borboletas e passarinhos. Nos verões, a água protagonizava minha expansão sensorial, com os banhos gelados de açude na fazenda em Dom Pedrito, o fundo lodoso, a espuma com o sapo, as nuvens de mosquitos, insetos, as pescarias no rio – lambaris, traíras, muçum, latinhas de minhoca, fogo e água fervendo em canecas de lata para o café. E o majestoso cinamomo, a guerra de bolinhas verdes duras com a gurizada da campanha. Os porquinhos em fila atrás de mim para ganhar pêssegos verdes. Os marmelos, as goiabas, os figos, a benção da abundância. As cavalgadas, os latidos dos cachorros ovelheiros, as noites estreladas, o coaxar rítmico, a sombra dos bosques de eucaliptos. Mais alguns anos e o mar imenso passou a rumorar nos meus ouvidos, a água salgada fortalecendo o meu corpo, a diversão sem par nas ondas, o cheiro inebriante da maresia, a arraia indescritível agonizando na areia, o monomotor cruzando o céu para largar o fardo de jornais na praia de Arroio do Sal, o sentido do horizonte se estendendo, ampliando.
A vida adulta trouxe a paisagem árida do maior centro urbano do país e, por 12 anos, vivi imersa no trabalho em São Paulo e alheia às estrelas. Mas minha alma veio em resgate e voltei à natureza, agora na montanha, Gramado, com horizontes majestosos de pinheiros, tucanos, pássaros coloridos, lagartos, flores em abundância, um céu e um ar extraordinários. Com tamanha energia, engravidei, aos 40 anos, tão espontaneamente que foi uma verdadeira benção, um presente divino, literalmente – o pai do meu filho Cássio se chama(va) Divino. Ao mudar para Porto Alegre, escolhemos o bairro tranquilo da Zona Sul, onde meus pais vieram morar quando eu tinha seis anos e meu irmão 10. As ruas ainda são calçadas com as mesmas pedras de paralelepípedo e as várias praças continuam verdes e lindas. Voltei ao convívio com o rio – ou o lago, como agora preferem nominar o Guaíba.
Neste mês faço 64 anos, meu filho está formado, também em jornalismo (!), já é um baita repórter no Jornal do Comércio, namora uma garota linda e inteligente, Lara Moëller, mais uma jornalista na família. Chegou a minha hora de retomar aquela vocação de paleontóloga e empreender expedições arqueológicas, mentais e físicas. Quero documentar isso pela escrita e pelo desenho (estou tendo aulas para aprender a usar o lápis) – o jornalismo segue uma paixão e me trouxe até aqui para poder contar essas histórias.
Voltei a estudar inglês e me preparo para defender um projeto de mestrado em Psicolinguística, neste primeiro semestre do ano, aqui em Porto Alegre. Quero estudar linguagem verbal e não verbal. O que é a comunicação humana e não humana e como se entrelaçam. Como humanos, adquirimos, produzimos e compreendemos a linguagem verbal, uma ferramenta importantíssima para a comunicação, que moldou a evolução de nossa espécie. Mas a linguagem não molda o pensamento. Para o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951), não existe apenas uma linguagem, mas vários tipos de linguagem com lógicas próprias, e a forma como as pessoas se comunicam, de maneira automática e inconsciente, as impede de perceber que estão jogando jogos linguísticos. Esta delimitação e contextualização é uma característica utilitária da comunicação humana, mas igualmente uma prisão (da linguagem e do pensamento), na qual inclusive os discursos filosóficos estão aprisionados. Para Aldous Huxley, “cada indivíduo é a um só tempo beneficiário e vítima da tradição linguística na qual nasceu — beneficiário, na medida em que a língua lhe dá acesso ao registro acumulado da experiência das outras pessoas, e vítima, na medida em que a língua confirma a crença de que a consciência reduzida é a única consciência, confundindo o sentido de realidade”. (As Portas da Percepção, 1954). E já a partir deste verão começo a viajar por desertos, florestas, rios e mares para estudar/sentir o despertar de nossa consciência cósmica.
No futuro, quero ainda fazer um doutorado no exterior. Sigo o caminho, convicta do amor e mais e mais porosa à força do Universo. A jornada é eterna, há sempre muita luz além das sombras, em todos os caminhos. Tudo tem seu curso. Minha preparação desde o nascimento se torna plenamente consciente nesta experiência fenomênica. Minha alma pede esse mergulho profundo e, por isso, me despeço desta coluna semanal – foi lindo, agradeço por tudo e especialmente ao nosso editor aqui na Sler, Luiz Fernando Moraes, pela acolhida. Desejo paz, alegrias e saúde para todas as queridas e queridos colegas desta plataforma e a todas e todos leitores.
Todos os textos de Vera Moreira estão AQUI.
Foto de capa: Bessi/Pixabay

