Cantar uma para a outra durante a semana, através de mensagens de voz, era uma mania querida que tinha com minha irmã Fernanda Maria (aniversariante do 27 de janeiro). Não lembro bem quando começou, mas sei que só parou de lá para cá quando as forças da Nani sucumbiram entre todas as dificuldades decorrentes do câncer. Daqui, para onde ela estiver, continuam as canções via energias do ar, do mar, da chuva e do vento. As músicas no mundo adulto surgiam para ‘falar’ e repartir um momento vivido, num modo meio automático e instantâneo ao lembrar uma da outra (conversamos muitas vezes sobre essa ‘coisa que conectava’). Era uma ‘usança’ que precisava de música, som e tudo o que o conjunto representava, simples e complexo assim. Fatos, cheiros, sons, imagens e sensações aleatórias que ‘acendiam’ uma letra ou uma melodia para repartir sentimentos daquele momento. Daí a conversa fluía, os assuntos corriam… às vezes breves, outras não. Muito sobre ‘nossos’ filhos, como eu dizia, já que seria ela a olhar para eles quando a Lei natural a deixasse mais tempo por aqui do que eu. E todas as conversas tinham o mesmo final com um ‘te amo do tamanho do mar’.
A última música dela para mim foi do Tim Maia, Primavera. Ainda me embarga a voz, mareja o olhar e não consigo cantar sem chorar logo na primeira estrofe: “Quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti…” Essa música me lembra fim, começo, saudades, coragem e, indiscutivelmente, lições de vida, presenças e cuidado com a vida! Um dia antes dessa mensagem, eu estava com ela. Havia levado o pedido feito na noite anterior: sopa de moranga. Enquanto servia as colheradas, ainda brincamos que parecia ser quando ela era pequena, eu 7 anos mais velha, ralava maçã e a ofertava em pequenas porções, enquanto a guria fazia ‘boca de passarinho’ e ria. A pequena teimava para que fosse eu a realizar o processo do lanche diário, sentada em uma cadeirinha de madeira rosa que o pai mandara fazer especialmente para ela. O ritual acontecia mesmo já sabendo se virar sozinha.
Sempre fomos próximas desde que me lembro. Ela dormia comigo no quarto e a gente cantava baixinho até dormir (o pai xingava se o nosso volume fosse alto), acho que ali começou e ficou marcada a cantoria… A vida fluía e o canto acompanhava. Eu, na faculdade, viajava muito de ônibus, muitos ‘pingas’ de Taquara a São Leopoldo, mas ela esperava no portão todo o dia, cantarolando ansiosa por algum pequeno mimo que eu precisava trazer para poder entrar em casa com ‘pedágio’.
Enquanto a sopa de moranga ia sendo consumida, conversamos também sobre comida de que se gostava. Pesquisamos sobre os alimentos e o câncer de mama (planejamos escrever um livro sobre sentimentos na doença e comida). Achamos um E-book da Universidade Federal de Goiás, do Grupo de Pesquisa em Nutrição e Câncer de Mama, que nos interessou ler e trocar ideias. O compêndio aborda uma variedade de assuntos, explica muitos dados da doença, fala de gordura, hereditariedade, desequilíbrios, possíveis riscos, uma gama esclarecedora de assuntos e, também, de nutrição. Dos números e dados apresentados, chamou atenção a questão de uma pesquisa que revelou que mulheres brasileiras que tinham um HDL-colesterol acima de 50mg/dl pareciam ter reduzido em 53% o risco para o câncer de mama. Explicam no texto que um dos fatores possíveis está em que o HDL age como um ‘rodo’ de limpeza ao fazer o transporte de estrogênio em excesso no sangue para fora do corpo, entre outros benefícios.
Colesterol, hipertensão, obesidade, síndrome metabólica, câncer… também têm a ver com comida e, é fato, que muito do que se come não se sabe do que é feito… Seja por estar pronto no mercado (e leva à ‘dedução’ ingênua de que é ‘comida saudável’), ou porque não aprendemos a questionar o industrializado ou que a gente não sabe ou não quer ler os rótulos. Mas parece ser básico que saber o que se come pode também salvar a nossa vida! Ou ainda, mudar perspectivas, silenciar os genes, driblar aquilo que não é bom! Então, comer bem faz parte de uma vida saudável e, na vida agitada e direcionada para comida de supermercado, entender de rótulos é crucial. Precisamos ler!
Resumidamente, aquela lista de ingredientes que aparece atrás ou no cantinho de cada pacote ou invólucro demonstra a QUALIDADE dos componentes do produto, o tipo de ingrediente, se tem glúten, se tem açúcar. É bom estar atento(a) aos nomes dos açúcares escondidos no rótulo (que repito sempre): invertido, maltodextrina, xaropes (qualquer um), suco concentrado de maçã (açúcar puro da maçã), dextrose (açúcar diferente de polidextrose que é fibra), sacarose, lactose, maltose, glucose, maltitol (adoçante com potencial calórico do açúcar comum), tudo é açúcar!
Rótulos ainda têm muitos outros itens relacionados que merecem atenção, como a PORÇÃO. Isso mostra que quanto menor a QUANTIDADE de ingredientes presentes, mais ‘NATURAL’ ele é! Da mesma forma, na lista de componentes, o primeiro que aparece é aquele que está em maior quantidade no produto. Se, por exemplo, num pão dito integral, nas substâncias relacionadas, o primeiro produto for uma farinha branca e o segundo a farinha integral, o pão, com certeza, tem menos farinha integral, ou seja, não é integral.
Observe todos os itens descritos de vários produtos que costumeiramente compras para conhecer o que tu comes e entenda que, por exemplo: queijo é fonte de gordura, carboidrato e alguma proteína. Olhe para o seu aspecto, quanto mais amarelo, mais gordura tem; quanto mais branco, mais carboidrato tem. Aveia é fonte de carboidrato; flocos são fibras da casca mais carboidrato do amido; farelo é fibra porque vem só da casca; farinha é carboidrato pois é só amido (já escrevi um texto sobre).
Perceba as diferenças: suco de fruta = frutose e frutas in natura são fonte de carboidrato, fibra e micronutrientes = frutose + fibra; água de coco in natura = fonte de carboidrato e minerais e água de coco de caixinha pode não ser a mesma coisa… olhe com calma o que tens em casa. Veja a composição, a quantidade de açúcares e conservantes. Mas, por incrível que pareça, quando se começa a pesquisar, percebemos que hoje temos marcas sem aditivos. Graças!
E as comidas da moda, como a japonesa? No arroz tem açúcar, no molho teriyaki tem açúcar, no shoyu tem sódio. Na comida frita tem gordura e carboidrato. Nos peixes, o salmão, se for ‘selvagem’, tem boa quantidade de ômega 3 e, de cativeiro, a quantidade é menor (lembre que os peixes têm grandes concentrações de mercúrio e metais pesados; quanto maior o peixe, maior a concentração). Que o açaí puro é fonte de gordura e antioxidantes, porém, muitas marcas têm adição de xarope de guaraná, leite, etc., então é carboidrato (cuide também da origem para evitar contaminações e infestação do inseto barbeiro). A granola (2 colheres) com aveia, açúcar, frutas secas, etc., tem carboidrato igual a uma fatia de pão de forma. A banana com cereal tem carboidrato. Informação faz a diferença para a qualidade de vida! Leia, pergunte, consulte uma profissional, pois vale a saúde!
Assim, pense em ser velho, capaz, ativo e com saúde suficiente para sorrir quando o inverno chegar! Tenha a usança de boas práticas, isso pode te levar longe!
Denise Preussler dos Santos é jornalista (Unisinos), com mais de 180 artigos publicados em jornais do interior. Tem publicações na Revista Teias, Labrys, Revistas Eletrônicas Puc, Revista de Educação, Linguagem e Literatura-UEG Inhumas. É mestra em Educação (Ulbra) e terapeuta integrativa. Atualmente, cursa Nutrição (Uniasselvi).
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