Antes de mais nada, tente responder: como você está? Como estão sua mente e seu corpo neste finalzinho de 2025? Para pessoas negras, que dedicam praticamente toda sua energia física e mental para cuidar dos outros — do trabalho, de familiares —, olhar para si e para o autocuidado pode ser algo impensado. Hoje, a gente sabe que pessoas negras ainda enfrentam barreiras maiores quando o assunto é acesso à saúde. Dados atuais mostram que há índices mais altos de condições como hipertensão e diabetes entre a população negra.
Corpos pretos, potência e exaustão: entre o desempenho e a falta de cuidado
Nossos corpos foram historicamente associados à alta performance física, seja nos esportes, seja no trabalho. A maior parte da força trabalhadora em empregos braçais no Brasil é negra. Agora, quando se trata do bem-estar, do cuidado com a longevidade, onde estamos? Muito longe do ideal. Foi por esse motivo que várias iniciativas voltadas ao bem-estar da população negra surgiram no Brasil nos últimos anos, com o propósito de mais inclusão, mais representatividade e mostrar que a corrida também é um espaço nosso.
Muitas dessas iniciativas operam no formato de coletivos: associações livres e independentes, que visam à colaboração entre os participantes de forma orgânica. Arte Corre Crew, no Rio de Janeiro; SBN Running, em Salvador; Corre Kilombo, em São Paulo; e o Coletivo Corre Preto, em Porto Alegre, são exemplos, todos voltados à prática da corrida de rua, como medida de saúde, autoestima e pertencimento. Afinal de contas, estar em um espaço em que você se sente acolhido e pertencente faz toda a diferença para o nosso povo.
O nascimento de um novo movimento
Eu, Leila, conheci o Coletivo Corre Preto em 2024, durante a 1ª Semana do Afroempreendedor da Odabá. Foi ali que seus coordenadores, Vitor Hugo e Monique Machado, anunciaram a data da primeira corrida oficial do coletivo. A apresentação não foi apenas sobre corrida. Falou-se sobre diversas pautas que nos atravessam, como a ausência da população negra em espaços de cuidado, saúde e bem-estar; os desafios relacionados à alimentação e obesidade; a herança da diabetes e tantas outras questões que, geração após geração, impactam diretamente no nosso estilo de vida e existência.
Para mim, foi um divisor de águas. Eu já tinha ouvido falar sobre iniciativas de corrida, mas nunca vi uma proposta pensada, desde o início, para pessoas pretas ocuparem um espaço onde historicamente quase não aparecemos.
Gosto de atividades físicas, porém, a corrida, para mim, sempre esteve em um lugar de desafio. Nunca me senti confortável correndo. Mas, a partir daquele dia, tive uma certeza: eu queria estar no próximo Corre Preto. E assim o fiz. Desde então, sempre que possível, estou lá. E cada encontro é único. Cada vez maior. Simplesmente lindo de ver. Quem ainda não foi, só vai. E nem precisa correr, pode caminhar também.
Apesar do “Corre” do dia a dia, participar do Corre Preto me fez voltar a olhar pra mim com mais cuidado e afeto e resgatar esse compromisso pessoal. Retomar a prática de atividade física. Lembrar que o corpo da mulher negra também é espaço de descanso, movimento e saúde, e que precisa ser cuidado.
Da vontade à vivência: um percurso de 6 km
Eu, Fausto, desde 2023, assumi um compromisso diário com minha saúde física e mental. Mesmo assim, acompanhava o coletivo apenas pelas redes sociais e tinha muita vontade de participar. E esse dia chegou no encontro especial do dia 20 de Novembro, alusivo ao Dia da Consciência Negra. Me inscrevi para a corrida de 6 km, que saiu do Mercado Público de Porto Alegre em direção à Redenção, passando por marcos importantes para a cultura preta porto-alegrense, como a Praça do Tambor e o Largo Zumbi dos Palmares.
Além deste, também houve o percurso de 3 km, uma caminhada de 1 km e o Corre Pretinho, voltado aos nossos pequenos, para que eles cultivem essa prática desde a infância. O encontro também foi brindado com apresentações culturais, DJ e uma belíssima roda de samba. Para mim, foi um momento extremamente especial: a energia de todos, os sorrisos, o acolhimento. E quando o fôlego diminuía um pouco, alguém puxava o grito: “Uh, é Corre Preto!”. Imediatamente voltava aquele gás a mais, e fomos nesse embalo até o ponto de chegada, em uma bela manhã de sol.
Nunca foi só sobre correr
Vivemos em um país onde o simples fato de um jovem negro correr para pegar seu ônibus, após um dia de trabalho, pode ser motivo para ser alvejado pelas costas e morto, covardemente, por aqueles que deveriam estar ali para protegê-lo. Quando vemos a dimensão que tomou o Corre Preto em tão pouco tempo, arrastando uma multidão de pretos e pretas por espaços que naturalmente não nos pertenciam, entendemos o quanto estávamos carentes e necessitados disso.
O Corre Preto não é apenas um coletivo de corrida. É um gesto político, um abraço coletivo, um chamado a ocupar o próprio corpo com dignidade. É saúde, é autonomia, é memória em movimento. E, acima de tudo, é a certeza de que nossos passos não apenas avançam, eles abrem caminhos para que possamos Resistir. Existir. Viver.
Fausto Vanin é um agente de transformação digital que utiliza a tecnologia para impulsionar mudanças sociais. Com doutorado em Computação Aplicada e certificação em Inovação e Estratégia pelo MIT Sloan School of Management, ele é cofundador da OnePercent, empresa referência em blockchain, e da Lanceiros, que desenvolve soluções tecnológicas com foco na redução de desigualdades. Também é mentor, palestrante, e voluntário em organizações do terceiro setor, como Odabá, Aldeia da Fraternidade e Social Good Brasil. @faustovanin
Leila Regina Silva é mulher negra, mãe do Richard e do Lucca, filha da Iracema. Graduada em Gestão Comercial, com MBA em Gestão Estratégica de Pessoas e Negócios, é fundadora e diretora da Help Digital, empresa dedicada a fortalecer a presença online de marcas usando ferramentas digitais. Integra a Odabá - Associação de Afroempreendedorismo. (Instagram: @helpdigitalmkt).
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Foto da Capa: Alisson Batista / Divulgação

