Aviso de spoiler: vou contar partes importantes do filme. Se você ainda não assistiu e prefere descobrir por si mesmo, pare aqui, veja o filme e volte depois.
Assisti a “A Chegada” (2016) e ouvi o episódio 121 do podcast Elefantes da Neblina, no qual conversam exatamente sobre as lições deste filme. Senti uma grande afinidade com a história — não só pelo tema em si, mas pelos questionamentos que proporciona.
O filme começa com cenas de Louise, professora universitária e linguista de destaque, com um bebê que cresce e vira uma menininha cheia de vida. Vemos a beleza, a alegria e, de forma comovente, a dor da perda quando a menina parte precocemente. Esta dor, no entanto, é apenas a primeira camada de uma história muito maior.
Depois, o mundo muda de forma abrupta: doze naves aparecem em vários países, e os militares, ansiosos e assustados, não conseguem estabelecer diálogo com os visitantes. O Exército americano chama Louise e o físico Ian para tentar traduzir aquela linguagem alienígena e descobrir suas intenções. O temor público se espalha: manchetes, pânico, desconfiança entre nações. Em meio a isso, o contato com os extraterrestres revela algo profundo — a linguagem deles não segue nossos contornos lineares; ela é circular, exige uma outra forma de percepção do tempo. Para decifrá-la, Louise começa a experimentar memórias da filha com brinquedos semelhantes aos alienígenas.
Louise compreende que a linguagem dos alienígenas não é apenas um código a ser traduzido, mas um convite a repensar causa e efeito, passado e futuro. E ela descobre que os visitantes vieram para unir a humanidade — que, no futuro, eles precisarão da nossa ajuda. A linguista usa sua recém intimidade com a língua para pedir um prazo aos militares, mas já era tarde. EUA e China planejam atacar as naves. Ela então, muito aflita, rouba o telefone de um agente do governo americano e telefona para o General Shang, que comanda as tropas chinesas, fala em chinês com ele e impede o conflito.
Quando as naves deixam a Terra, Louise está aliviada. Ian declara seu amor por ela e propõe que tenham uma filha. Ela aceita. Só que, com o tempo, percebemos que as memórias de Louise sobre a criança não são sombras do passado, e sim cenas do futuro, da filha que terá com Ian. Quando a menina pergunta por que o pai a deixou, Louise responde que falou algo que ele não pôde suportar. Ian, magoado por saber que ela conhecia o caminho doloroso que os aguardava, não consegue perdoar a verdade que ela trazia consigo.
Hoje, muitas pessoas evitam arriscar o amor por medo de feridas — não necessariamente do tipo extremo, mas daquela decepção cotidiana, do abandono, do luto afetivo. No episódio dos Elefantes, é debatida a ideia de que transformamos a linguagem do amor numa linguagem de negócios: antes de entrar numa relação, calculamos custos e benefícios, com medo de “perder” no investimento emocional. O amor passou a ser avaliado como transação e não como experiência que se dá.
O filme A Chegada nos fala justamente disso: do medo do desconhecido e do atrevimento necessário para escolher sentir, apesar da possibilidade de dor. Louise poderia, conhecendo o que viria, evitar tudo, poderia proteger-se do sofrimento. Em vez disso, ela aceita o futuro doloroso porque o presente e as experiências que ele traz têm um valor que não se mede apenas em perdas.
Louise nos ensina que o verdadeiro valor não está na ausência de sofrimento, mas na riqueza da experiência compartilhada. Cada momento de alegria com sua filha, cada riso, cada descoberta, valeu o preço da dor que viria. O amor, em sua essência, é sempre um risco. Vale a pena correr esse risco? A história de Louise sussurra que sim. Porque um amor, mesmo que finito, vivido em toda a sua plenitude, é um tesouro eterno que carregamos para sempre dentro de nós. E isso vale toda e qualquer lágrima.
Referências:
- A Chegada – Episódio 121 do podcast Elefantes na Neblina.
- A Chegada | Trailer legendado | 24 de novembro nos cinemas.
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

