1 – 4321 (Companhia das Letras, 2018) é um romance gigantesco publicado originalmente em 2017 pelo escritor americano Paul Auster (1947 – 2024) no qual acompanha-se quatro variações da vida do protagonista Archibald Isaac Ferguson (mais conhecido por Archie Ferguson), do nascimento até uns vinte e poucos anos. O romance se estrutura em capítulos numerados que se alternam, explorando como diferentes escolhas e circunstâncias, algumas sutis, outras mais drásticas, levam o personagem por um caminho cada vez mais distante do de suas versões anteriores – na prática, não é bem um romance, mas uma obra composta por quatro romances resultado dos caminhos divergentes tomados pelo protagonista – o que talvez explique sua extensão incomum para um autor que era pouco dado aos tijolões literários.
2 – As mudanças vividas pelos quatro Ferguson às vezes resultam de traumas pessoais que podem ter acontecido com um, mas não com o outro, como a morte do pai. Outras são reações ao ambiente externo, já que o romance, embora varie os fatos da vida do protagonista, mantém intactos importantes marcos históricos. Como todos os quatro Ferguson nascem em março de 1947 (mesmo ano em que nasceu o próprio Auster), em Newark, Nova Jérsei, suas vidas ainda passam pelos mesmos fatos do mundo “concreto”, como as repercussões do pós-II Guerra, a Guerra do Vietnã, assassinato do presidente John Kennedy e a eclosão do movimento pelos Direitos Civis no fim dos anos 1960. Muito do que muda na vida de Ferguson, contudo, é fruto do acaso, elemento importante na obra de Auster como um todo.
3 – Em 1991, durante uma entrevista concedida a Larry McCaffery e Sinda Gregory, originalmente para a revista acadêmica The Mississippi Review e incluída na edição brasileira da A Arte da Fome (José Olympio, 1992), Auster falou de sua inclinação para o fortuito e tocou em um ponto que hoje, à distância, parece remoto, mas que na época era recorrente em análises de sua obra: muitos viam esse pendor para o acaso e as coincidências como um elemento que afastava Auster da prosa “realista”, revestindo-o de uma pátina algo “fantástica”. Para ele, isso era uma avaliação equivocada: “De um ponto de vista estético, a introdução de elementos fortuitos na ficção provavelmente cria tantos problemas quantos resolve. Tenho sido muito combatido pelos críticos por causa disso. No sentido mais estrito da palavra, considero-me um realista. O acaso faz parte da realidade: somos continuamente moldados pelas forças da coincidência, o inesperado ocorre com uma regularidade quase entorpecedora nas vidas de todos nós. Contudo, predomina uma noção de que os romances não deveriam estender a imaginação para longe demais. O que quer que pareça implausível é necessariamente considerado forçado, artificial, ‘não realista’“.
4 – Como um dos últimos trabalhos de um autor que já estava com 70 anos, 4321 representa um trabalho de fôlego invejável, ainda mais em comparação com livros anteriores e um tanto menos ambiciosos ou bem realizados que Auster publicou antes dele, como Invisível ou Viagens no Scriptorium. Contudo, ao ler o livro, o que me pareceu um pouco decepcionante é que, neste livro, o próprio Auster parece não considerar até o fim as implicações do que ele disse naquela entrevista concedida tanto tempo antes. 4321 é um exercício muito interessante sobre como experiências do mundo moldam personalidades diversas ao fim de um longo processo. O que me parece insuficiente, no entanto, é que, sendo Auster um autor sutil, sutis são também as variações, e os quatro “Archie Ferguson” retratados no livro têm ainda muitas semelhanças. Em qualquer uma das variações, Ferguson é jovem, inteligente e precoce, com uma sensibilidade e um pendor para a arte. Dando um leve spoiler de um romance de quase 10 anos atrás, acho que houve um momento em que o próprio Auster se deu conta disso, tanto que um dos quatro personagens não sobrevive à adolescência e morre atingido por um raio durante um momento de liberação inconsequente no qual, durante um acampamento, decide dançar sob a chuva no meio da floresta e é atingido por um raio. A partir daí, o número 2 segue surgindo a intervalos na narrativa apenas como uma página em branco, simbolizando a vida interrompida tão cedo. O fato é que agora Auster tem de lidar com apenas três variações em vez de quatro.
5 – Em 2019, quando Auster veio para o ciclo Fronteiras do Pensamento, eu o entrevistei em uma longa chamada telefônica e ele ponderou algumas questões sobre a realização desse livro, que marcava sua volta à ficção após um hiato de seis anos e dois livros de memórias, ou “ensaios autobiográficos”, como ele mesmo dizia definir. Ele comentou sobre como o livro parecia ser algo em que ele vinha pensando desde muito antes, dado seu fascínio por narrativas paralelas que divergem no tempo devido a um mero percalço na estrada: “Sempre fui fascinado pelas forças da contingência, pelas coisas que poderiam ter acontecido e não ocorreram. Penso muito nisso, não apenas nas circunstâncias de minha própria vida, mas nas dos outros, e mesmo na história. Por exemplo, as guerras que poderíamos ter travado, mas não lutamos, por uma razão ou outra (…). De qualquer modo, me veio a ideia de como seria interessante fazer um livro sobre as vidas paralelas da mesma pessoa”.
6 – Sou, a meu próprio modo, também fascinado pela ideia de realidades paralelas, nas quais penso com tanta intensidade quanto penso no Império Romano, para fazer o resgate de um meme recente que não sei se entendi direito, como a maioria dos memes. Talvez essa seja uma das dificuldades que eu, enquanto leitor, esbarro ocasionalmente ao enfrentar as obras que têm base no nonsense e no absurdo. Não no insólito ou no fantástico, mas no absurdo com toques de surrealismo mesmo. Acho que já li três vezes A Espuma dos Dias, de Boris Vian, algo maravilhado, mas um tanto desconcertado. Se perguntado, contudo, não o incluiria entre os livros que me transformaram. Ao mesmo tempo, estou sempre, em minha cabeça, maravilhado com o tanto que a vida de qualquer pessoa depende, em praticamente todos os momentos, de um grande número de eventos que aconteçam ou não aconteçam, e é a soma e a subtração desses “desacontecimentos” além do nosso controle que nos permite até mesmo existir. Sei que hoje a febre dos “multiversos de blockbuster” meio que contaminou um pouco esse tipo de história e compreendo, eu mesmo sou um que não aguenta mais esse tipo de coisa. Mas ainda sou cativado pelas consequências inesperadas de decisões impensadas nossas e de terceiros que se estendem até a raiz do tempo. Não é ser fascinado pela causa e efeito de modo direto, mas o quanto toda a nossa vida é permeada por uma cadeia infinita de acontecimentos, e um leve desvio em qualquer um deles poderia representar algo muito diferente em termos de vida. Sou o tipo de cara que, ao ouvir a história de como duas pessoas se conheceram, fico elucubrando os pontos em que aquele evento simplesmente poderia não ter acontecido. Sempre que estou em filas de espera para chamada de voos em grandes aeroportos, fico imaginando quem naquela sala terá tirado o infeliz bilhete da “loteria macabra” em que um vai para um lado pegar um avião que cairá em um acidente e outro vai para o corredor adjacente ter um voo tranquilo até seu destino. O número de coisas que afetam nossa vida todos os dias de modos sutis é tão amplo e gigantesco que o mecanismo mais seguro para lidar com isso é o que todos nós aprendemos desde cedo: ignorar o máximo que podemos o tanto de incerteza que existe na vida cotidiana, apegando-nos naquilo que nós mesmos podemos controlar, como escolher uma roupa em vez de outra, lavar ou não o cabelo, sair mais cedo ou um pouco mais tarde de casa etc.
7 – Já usei isso eu mesmo num texto ficcional, se vocês me perdoam o cabotinismo. Escrevi nos anos 2000 um conto chamado Azedinhas – que foi publicado em dezembro de 2025, no número 10 da saudosa revista literária Coyote, uma publicação trimestral editada em Londrina, coordenada por Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes. Azedinhas era um conto que partia de um truque meio banal. Ao longo de umas mil palavras e uns 6,5 mil caracteres (com espaço), uma voz narrativa em terceira pessoa dizia que aquela deveria ser a história de Jorge e Eliza, e passava a contar as circunstâncias de seu primeiro encontro, a aproximação, a consolidação e mais tarde o fim amargo do relacionamento de ambos. Só que no último parágrafo, era narrado algo que levava aquela história a jamais ter acontecido – como eu disse, um truque meio manjado, vejo hoje, mas acho que o mérito está na forma algo pós-moderna como esse truque é realizado, na brevidade do texto e na linguagem que eu trabalhei até o máximo de elegância que consegui na época. Se quiserem tirar a prova, podem ler aqui. Uma coisa que me deixa feliz com esse texto, mesmo produzido há 20 anos, é o fato de ele ser coerente com as minhas insatisfações nesse tipo de história. Eu não escrevi uma extensa coleção de variações, mas identifiquei um ponto que mudou tudo, Porque é essa a principal potencialidade, para mim, de histórias de mundos alternativos.
8 – Algo sempre me parece insuficiente em histórias que se apresentam como narrativas paralelas nas quais um evento ou mais de um abrem uma clivagem entre o que foi e o que poderia ter sido. Falei da atual febre dos “multiversos de blockbusters”, especialmente os de super-heróis, mas nos anos 1990 esse tópico parece ter passado por outro momento de alta, em produções menos caricatas e mais sóbrias. Houve, por exemplo, Corra, Lola, Corra, filme alemão de Tom Tykwer estrelado por Franka Potente como a Lola do título. O filme parte de um mesmo acontecimento e apresenta três versões para o seu desenrolar: o namorado problemático de Lola trabalha como mensageiro para uma quadrilha de contrabandistas, e esquece no metrô uma sacola com 100 mil marcos (sim, o filme é anterior à União Europeia, ao Euro e, como se verá, ao celular e ao Uber, que teriam tornado sua realização hoje meio impossível). A partir daí, o namorado inútil é mantido refém pelos criminosos enquanto Lola, que recebe a notícia por telefone, em casa, tem 20 minutos para restituir a grana ou ele será morto. É por isso que Lola, sem veículo próprio numa época sem internet, corre, corre, corre em três variações da história. Cada pequena decisão tomada por Lola na sequência leva a um desfecho diverso. É um filme que me parece trabalhar bem o infinito potencial das pequenas decisões porque lida com um intervalo curto de tempo – mostrando como uma única escolha pode mudar radicalmente o que vem depois mesmo em um período menor que meia hora.
9 – Se me perguntassem, eu não saberia dizer por quê, mas naquela época estranha … Lola… foi um filme elogiado e muito bem recebido por crítica e público, mas me parece que outro filme do mesmo ano com premissa similar teve mais público e parecia ser mais falado (embora hoje claramente me pareça ter sumido na poeira do tempo), De caso com o acaso, comédia romântica dirigida por Peter Howitt com Gwyneth Paltrow. Após ser despedida do emprego, a personagem de Gwyneth, por uma questão de minutos, embarca no trem que a leva para casa ou o perde, e a partir daí sua história se bifurca. Quando vai para casa, ela conhece no trem um estranho interessante (vivido por John Hannah) e chega cedo o bastante para pegar seu namorado otário traindo-a com uma ex. Separa-se do babaca e dá uma guinada na vida, inclusive romântica. Em contrapartida, se ela perde o trem, é assaltada enquanto espera o próximo, vai parar no pronto-socorro e, ao chegar em casa mais tarde, segue sem conhecimento da traição. É uma premissa interessante, mas sou menos apegado ao que o filme faz com ela. O roteiro está por demais fixado no “paralelismo” das duas histórias para imaginar narrativas realmente diversas – os mesmos personagens gravitam em volta da protagonista nas duas histórias, a separação do namorado acaba acontecendo, mais cedo ou mais tarde, e o caminho da heroína volta, por improvável que seja, a se cruzar com o estranho interessante que ela deixou de conhecer antes no trem – como se uma narrativa ancorada em versões da mesma história estivesse defendendo, na verdade, que, não importa a trajetória, “no fim, tudo fica bem”. Não, se você realmente quer oferecer duas variações, talvez precise aceitar aquelas que terminam muito, muito mal.
10 – A produção que parece ter apontado o caminho dessa tendência naqueles anos 1990 (e que, para mim, continua sendo a melhor a lidar com as próprias potencialidades desse tipo de história, embora seja, das três, a menos lembrada hoje a não ser por cinéfilos raiz) é o desconcertante díptico Smoking e No Smoking, de Alain Resnais, de 1993, dois filmes em que os mesmos dois atores (Sabine Azema e Pierre Arditi) interpretam variações de nove personagens vivendo em um vilarejo de Yorkshire, na Inglaterra, recapitulando o que poderia ter acontecido para cada um deles se uma determinada escolha houvesse sido outra. A escolha que divide os dois filmes logo no início é a de uma das mulheres fumar um cigarro ou não – mas em vários outros momentos o filme para e exibe uma tela com um “ou então”, mudando algum detalhe em um determinado momento, alterando, portanto, a história futura. A produção adapta, mas não em sua integralidade, a peça Intimate Exchanges, de Alan Ayckbourn, que tratava de um número maior de personagens e variações. É um dos melhores filmes a tratar do tema por reconhecer que nunca é apenas uma única mudança de um único elemento o que faz histórias divergirem a cada vez. Como qualquer estrutura composta de ramificações intermináveis, mudar um elemento na escala humana do tempo é mudar o padrão de acontecimentos para sempre.
11 – Isso é o que escapa à compressão de filmes como Efeito Borboleta, aquele mesmo, com o Ashton Kutcher, ou o recente, promissor mas decepcionante, Yesterday, de Danny Boyle, com Himesh Patel como um cantor sem sucesso que, após um acidente, acorda em uma realidade paralela na qual apenas ele lembra que os Beatles existiram. Assim, ele passa a compor as músicas dos Beatles e alcança o sucesso previsível que alguém que compôs aquele material teria obtido de qualquer modo. Comecei a assistir até curtindo a ideia, mas aí apareceu no filme Ed Sheeran interpretando a si mesmo, e percebi que aquela seria mais uma daquelas abordagens meio preguiçosas para a premissa.
12 – Veja, desconsiderando por completo o que eu pense sobre Ed Sheeran como músico e compositor (vocês provavelmente não gostariam de saber), a questão é que, em um mundo sem os Beatles nos anos 1960, seria impossível o mesmo Ed Sheeran compor as mesmas músicas que fez no subsequente início do século XXI. Aliás, ao pensar nisso, me dei conta de que a própria premissa, embora empolgante, sabota a si mesma, produzindo um infinito de janelas alternativas cuja exploração seria estafante. A música popular internacional, como se conhece, jamais seria a mesma. Teriam havido os Rolling Stones, formados um pouco depois? Se sim, qual seria seu impacto, sem a “rivalidade” com os Beatles para impulsionar muito do que se escrevia sobre ambas? Teria, aliás, havido a invasão britânica do rock nos Estados Unidos, que mudou toda a configuração do rock? Imagino que o rock ainda teria existido, já que Elvis, Jerry Lee Lewis ou Johnny Cash teriam existido e dado inspiração a outras pessoas – e ainda teríamos Bob Dylan, cujas raízes iniciais bebem em outra fonte, a da música folk americana, mas o que teria resultado disso seria, de modo inevitável, diferente sem os quatro cabeludos de Liverpool. Curiosamente, é possível que algumas coisas no Brasil permanecessem as mesmas, dado que a Bossa Nova nos anos 1960 é resultado do “branqueamento classe média” do samba raiz, e isso não seria alterado. Assim, em um mundo sem os Beatles, o Brasil ainda teria João Gilberto, mas, talvez, não teria havido Raul Seixas nem Renato Russo. A especulação infinita de questões como essas é que me revela a preguiça de muitas das narrativas de mundos alternativos e várias variáveis, a preguiça essencial de pensar na emaranhada teia de repercussões a cada mudança.
13 – Naquela mesma entrevista que fiz com Auster em 2019, perguntei a ele por que os quatro Ferguson de seus livros eram ainda tão similares. Num mundo tão cheio de gente burra, por exemplo, eu achava um tanto desconcertante que os quatro Ferguson de Austen fossem todos rapazes brilhantes e inteligentes. Ele me respondeu: Seria muito fácil escrever um livro sobre as vidas de um mesmo personagem em que, em uma, ele vira um astronauta, em outra, vira um assaltante de banco e, em uma terceira, vira um padre. Mas isso seria absolutamente implausível. Então, meus Ferguson dividem muitas coisas. Eles têm o mesmo corpo, no fim das contas, o mesmo cérebro, o mesmo interesse em música, em livros, filmes, são todos do mesmo sexo. São muito parecidos. Mas, à medida que vão ficando mais velhos, devido às circunstâncias e ao ambiente que são um pouco diferentes em cada caso, evoluem de modo diverso, e, quando terminam seu crescimento, têm personalidades diferentes. Neste ponto, discordo do grande autor que foi Auster, embora não ache que ele estivesse errado. Acho que ele tem razão quando aponta que algo assim seria fácil porque talvez os modelos de narrativas semelhantes que viessem à mente fossem exatamente esses dos quais venho reclamando, e que são de fato os mais comuns. Tramas mal pensadas ou que se limitam porque não querem ter o trabalho pesado de pensar a grande teia de repercussões em seu rigor, ao mesmo tempo completamente livre (você pode imaginar mais variações do que as mais simples) e totalmente cativo de suas premissas (se algo mudou, as mudanças exponenciais serão tão grandes que o personagem terá, sim, outra vida). Um dos Ferguson de Auster, por exemplo, é gay, enquanto os demais não. E essa é uma escolha completamente arbitrária do autor, dado que a orientação sexual não depende do ambiente ou da educação – embora o seu livre exercício sim, dependa. Por que não um deles poderia, então, ter dificuldades de aprendizado, o que levaria as variações ainda mais longe?
É um pouco como Nick Hornby escreveu certa vez em uma das crônicas de Frenesi Polissilábico. Não é tão difícil assim escrever um personagem parecido com você, talvez por isso escritores gostem tanto de protagonistas com história pregressa parecida com a sua: certa vivência classe média para cima, pendor para a escrita, inteligência linguística. Talvez o verdadeiro desafio seria imaginar alguém completamente diverso, em termos de background, intelecto e formação. Seja ele um personagem externo, seja uma versão de você mesmo produzida pelos milhões de pequenos resultados diferentes dos milhões de pequenos acontecimentos que moldaram quem você é hoje.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Do filme "Corra, Lola, Corra"

