Cheguei a 2025 com 50 anos. Apesar dos muitos acidentes possíveis que ainda aguardam no meu caminho pelo próximo quarto de século, não é uma especulação totalmente absurda me imaginar vivo em 2050, com uns 75 anos. Não é impossível, como sabemos que seria um cara nascido em 1974 ver o fim do século XXI. Curiosamente, 2050 também é a data fatal apocalíptica marcada por várias entidades de controle para o fim da água potável, e não tenho muito como não pensar na superposição das duas coisas e no que elas significam não apenas no nível global, para o qual todos estão já alertados (os que negam, a esta altura, acho que simplesmente estão cinicamente priorizando seus próprios interesses).
Por um daqueles efeitos psicológicos que a superstição antiga dizia ser simbólica ou premonitória, uns dias depois de haver topado com uma notícia já meio antiga sobre um alerta emitido pela ONU a respeito do assunto, tropecei outra vez na informação em um trecho de A Mulher de Dois Esqueletos, o livro da Júlia Dantas que eu estava me enrolando para ler até que finalmente decidi depois que ele ganhou o Prêmio Minuano no fim da Feira do Livro. O alerta da ONU dava conta de que, até 2050, entre 4,8 e 5,7 bilhões de pessoas poderão viver sob escassez hídrica ao menos um mês por ano. As projeções da própria ONU calculam que haverá, até 2050, entre 9,7 bilhões e 9,8 bilhões de pessoas. Ou seja, metade do mundo terá que se acostumar a viver períodos sem água nesta mesma época em que terei 75 anos e provavelmente estarei mais pra lá do que pra cá.
A falta do recurso mais básico é uma realidade aberrante hoje. Um quarto da população do planeta, ou seja, segundo a ONU, mais de 2,1 bilhões de pessoas, já vivem sem acesso seguro à água potável. Mais 3,4 bilhões de pessoas não têm acesso a saneamento básico seguro. A demanda global por água cresce cerca de 1% ao ano e as mudanças climáticas, que muitos acreditavam até ontem não existirem, reduzem ainda mais a oferta de água, com a desestabilização de regimes de chuvas preciosos, alternando secas e enchentes.
Tremo em pensar quantas enchentes eu verei se estiver vivo em 2050.
Envelhecimento populacional
Eu estarei na casa dos 70. Não serei o único e não seremos poucos. Segundo as projeções das Nações Unidas, a população mundial com 65 anos ou mais deve mais do que dobrar, ultrapassando 1,5 bilhão de pessoas em 2050. Em um planeta mais velho, a vulnerabilidade será aguda, mas ao menos me juntarei aos esforços inconscientes da terceira idade para lidar com o problema. Idosos costumam consumir menos água do que o recomendado, porque a percepção de sede diminui com a idade. Se isso serve como economia de recursos hídricos escassos, também provoca nos idosos secos e tesos desidratação, com risco de insuficiência renal, quedas, confusão mental. Condições crônicas como hipertensão e diabetes (lido com as duas) exigem controle hídrico rigoroso. Sabe-se lá como me virarei nos meus belos 70 anos, quando não vai ter água pra ninguém que não seja rico – e eu tenho certeza de que não estarei rico aos 70.
Haverá água para os hospitais? Haverá um SUS para que eu possa tentar ir a um hospital? Hoje, 1,4 milhão de pessoas morrem anualmente por doenças ligadas à água contaminada. Mortes que poderiam ser evitadas com o saneamento básico mais simples. Em 2050, terão já nossos sistemas de saneamento colapsado? Aqui mesmo, neste canto minúsculo de uma Capital de terceiro mundo em que vivo, empreiteiros arrombados amigos do prefeito mais arrombado ainda não param de erguer torres de alto padrão e “bairros privativos” (sempre lembrando: se é bairro, não é privativo, se é privativo, não é bairro), impactando além de qualquer medida o saneamento que já é gerido no limite por departamento que o prefeito tem uma tara nunca vista por vender.
No mundo de 2050
O agro não é só pop, é sedento, consumindo hoje uma quantidade gigantesca de água doce. O agro em larga escala é também o responsável pelas queimadas que modificam o regime de chuvas, provocando as secas das quais depois querem socorro por “políticas públicas”.
Sem água, os preços dos alimentos vão para as alturas, a fome tavez se amplie. Se me permitem um desvio, nunca me esqueci de uma cena a que assisti no filme No Mundo de 2020, produção de 1973 dirigida por Richard Fleischer e estrelada por Charlton Heston. Com a licença de vocês, vou chamar a produção pelo seu nome original, Soylent Green já que tenho implicância com a tradução do título no Brasil – a história não se passa em 2020, um letreiro logo no início do filme situa a narrativa em 2022, em uma Nova York superlotada em que se amontoam 40 milhões de pessoas (hoje, para se ter uma ideia, a cidade tem 8, 4 milhões de habitantes), em um país em estado de colapso econômico e ambiental.
Devido à superpopulação, ao superaquecimento e ao declínio da produção de alimentos, frutas e vegetais frescos são acessíveis apenas aos mais ricos. Cortes de carne são vendidos em butiques com pinta de joalheria. Você precisa ter muita grana para bancar o luxo de um apartamento só seu, e multidões são vistas simplesmente dormindo nas escadarias dos edifícios. O único alimento para consumo de massa é a pasta do título original, Soylent Green, supostamente fabricada com plâncton submarino – só que não, como comprova uma fala icônica dita por Heston no final do filme.
Mas eu falava de uma cena. Bem, no filme, o protagonista Robert Thorn, vivido por Heston, é um detetive de polícia que é chamado para investigar a morte de um figurão da companhia que produz Soylent Green. Logo no início do filme, Thorn senta-se à mesa para comer com seu colega de apartamento, Sol Roth (Edward G. Robinson) um idoso ex-professor universitário que trabalha como “Book”, ou seja, como pesquisador para a polícia (um fato curioso é que o futuro imaginado pelo filme é completamente desprovido de computadores e outros dispositivos digitais de alta tecnologia). Heston está comendo a pasta de Soylent Green enquanto Sol a recusa por não ter gosto. Velho o bastante para lembrar do “mundo de antes”, o homem lamenta o quanto se perdeu com a ruína da natureza. O gosto dos vegetais, das frutas, o quanto aquilo era bom e o quanto sente falta.
O filme tem mais ou menos a minha idade, já que foi lançado em 1973. Algumas de suas preocupações eram claramente exageradas, como o risco da “bomba populacional” malthusiana. Ao mesmo tempo, é nos anos 1970 que ocorre a Conferência de Estocolmo, uma das primeiras iniciativas globais de discussão ambiental, o que explica também o medo do colapso ambiental que se instala não apenas em Soylent Green como em outras ficções distópicas daquele tempo, como Z.P.G., com Oliver North, ou Running Silent, com Bruce Dern. A ameaça da superpopulação desacelerou, com nações inteiras hoje vivendo como problema mais grave a redução na taxa de natalidade. Mas o colapso ambiental ainda nos vigia por trás do muro.
Esperanças vazias
Só recentemente fiz as contas e percebi que, no fatídico ano de 2050, eu, se ainda estiver por aqui, serei um pouco como o Sol de Soylent Green, lembrando aos jovens comedores de plástico digerível em um cubículo sem saneamento que já tivemos água em torneiras e que nos alimentamos de frutas… Viverei em uma época em que conflitos por água talvez sejam uma realidade constante, e estarei velho demais para o combate. Talvez eu devesse começar a treinar tiro agora.
Poderia haver saída, mas passaria por ação coordenada e investimento. Mas, como vimos na recentemente torpedeada e fracassada COP 30, cada esforço do tipo não consegue nem protelar o problema – como relata o jornalista David Wallace Wells em seu livro A Terra Inabitável: uma História do Futuro, a maior parte das emissões danosas de gás causadoras do aquecimento global foram jogadas na atmosfera depois da Rio 1992 (eu tinha 18 anos, estava prestes a entrar na faculdade, a ditadura militar havia acabado). O quanto se perdeu desde aquela época, não só para mim. O resultado é desastroso: quanto mais discutimos o ambiente, mais o envenenamos.
Que esperança, então, temos de levar adiante projetos sérios mas complexos e custosos como a possível dessalinização da água do mar – algo que já feito em menor escala em países como Austrália e Israel – aliás, o agora definitivamente aprisionado energúmeno-mor da nação Jair Bolsonaro falava em importar o sistema para o Brasil. O Brasil, das imensas massas de água pensando em importar tecnologia do deserto é uma iluminura angustiante da crise de gestão hídrica brasileira. Projetos que usam energia solar apontam para um futuro mais sustentável, mas até agora não se mostraram viáveis em larga escala. Reutilização de água seria outra possibilidade. Políticas públicas precisam também ser manejadas com competência para levar a uma gestão mais racional da água – em zonas urbanas, se desperdiça muita água.
Eu aqui tento fazer minha parte aos poucos, como, aposto, a maioria de vocês. Sem desperdício no banho, sem desperdício na hora de lavar louça. Mas nada disso me garante um futuro melhor aos 75 anos em 2050 porque nosso próprio país continua encantado com a ideia de atrair investimentos que desperdiçam água a rodo. Há uns anos eram fábricas da Coca-Cola. Agora, é o diacho dos Data Centers que sustentam a atividade de Inteligências Artificiais comerciais – que consomem volumes alarmantes de água necessários para o resfriamento de seus servidores.
A sede das IAs
Não vou mentir para vocês que eu sabia na ponta da língua os dados a seguir, precisei pesquisar por eles. Tinha um certo mal-estar difuso com o assunto antes da pesquisa, e fiquei positivamente alarmado depois dela. Um centro de 100 MW pode usar 2 milhões de litros de água por dia, suficiente para abastecer 6,5 mil casas. Globalmente, a retirada anual já chega a 560 bilhões de litros, podendo dobrar até 2030. O treinamento de um único modelo de IA pode demandar milhões de litros de água, e cada interação simples tem sua pegada hídrica: gerar um texto de 100 palavras no ChatGPT consome cerca de 519 mililitros de água — multiplicado por milhões de usuários, isso equivale a centenas de milhões de litros por ano. São informações que eu tirei desta reportagem, muito boa, aliás, da National Geographic: ChatGPT: a quantidade de água consumida pela IA é alarmante.
E isso que eu fiquei só no texto, não falei das criadoras de imagens, como Midjourney ou DALL-E – que consomem mais por exigirem mais poder de processamento. Só em 2022, o Google usou 5,6 bilhões de galões de água, enquanto a Microsoft chegou a 1,7 bilhão, impulsionadas pelo crescimento da IA generativa. Projeções indicam que, até 2030, o consumo hídrico dos data centers ultrapassará 1 bilhão de metros cúbicos por ano, equivalente ao abastecimento de 10 milhões de residências. Dados deste outro texto do site Olhar Digital (Como a IA pode agravar a escassez de água na Europa). Essa corrida tecnológica não tardará a entrar em competição direta com comunidades por água potável – e aí me pergunto que vantagens terão os mais pobres com a instalação desse “negócio ótimo para a economia” quando fontes de água forem cercadas e privatizadas.
Viveremos em um futuro em que um gole de água será não apenas um ato político, como uma consequência direta da política. Não sei se veremos o cenário que No Mundo de 2020 esboça, de filas gigantescas não diante das unidades de distribuição de água, mas de caminhões-pipa. Aliás, o represamento da água para uso político é um dos elementos que aparecem na distopia alegórica Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, mostrando que no Brasil também o cinema já contempla esse amargo futuro. Um futuro mais turvo que a visão de um homem de 75 anos.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: do filme Soylent Green / Divulgação

