
Em 1878, Vera Zasulich adentrou o gabinete do governador Fyodor Trepov, em São Petersburgo, e disparou contra ele, ferindo-o gravemente. Seu ato foi uma resposta direta à ordem do governador de açoitar um preso político que ousara resistir ao Império Czarista. Levada ao tribunal, Vera confirmou sua ação, mas reivindicou para si uma identidade que recusava a alcunha de assassina: “Sou terrorista”. Naquele contexto histórico, o termo “terrorismo” ainda guardava contornos de resistência política contra regimes considerados opressivos.
Com o passar do tempo, entretanto, as palavras mudam de sentido e, muitas vezes, são apropriadas por disputas de poder. Quase um século depois, Nelson Mandela, líder do Congresso Nacional Africano, viu-se enredado em trama semelhante. Ao organizar ações de sabotagem contra a infraestrutura do regime racista do apartheid, foi taxado de terrorista por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, não mais como luta contra estruturas opressoras, mas como sinônimo de criminoso, facínora, inimigo público. Mandela passou 27 anos nos cárceres sul-africanos. Quando saiu, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1993 e tornou-se presidente de seu país em 1994. A história, por vezes, tem um senso de ironia implacável: o “terrorista” do passado se tornou um estadista laureado.
A Organização das Nações Unidas, em seu esforço de codificação, define terrorismo como “o uso intencional da violência ou da ameaça de violência contra civis ou alvos não combatentes, com o objetivo de provocar medo generalizado e pressionar governos, sociedades ou organizações a aceitar determinadas demandas políticas, ideológicas ou religiosas”.
Na história recente do Brasil, por exemplo, os grupos que recorreram à luta armada contra a ditadura militar foram classificados como terroristas. De fato, utilizaram a violência com o objetivo de pressionar o regime a aceitar mudanças políticas. De maneira semelhante, os participantes do ataque às instituições democráticas em 8 de janeiro de 2023, em Brasília, também recorreram à força na tentativa de produzir caos institucional e derrubar o governo eleito. Ainda assim, muitos de seus apoiadores rejeitam energicamente a mesma classificação.
A seletividade no uso das palavras torna-se ainda mais evidente quando observamos o comportamento dos Estados. Se um governo decide empregar força militar contra outro país com o objetivo de desestabilizar seu regime político, usa a lógica da violência para produzir medo e submissão. Entretanto, quando a violência parte de um Estado poderoso, raramente recebe o mesmo rótulo.
Em muitos casos, a situação ultrapassa até mesmo essa discussão conceitual e entra no terreno dos crimes de guerra. A Convenção de Genebra, ratificada por 196 países desde 1949, estabelece limites claros para a condução de conflitos armados: hospitais e médicos são invioláveis, prisioneiros merecem dignidade, armas que causam sofrimento excessivo são proibidas, civis não podem ser alvos diretos, e atacar quem se rende constitui crime de guerra. Quando uma escola de meninas é bombardeada e mais de 150 crianças são mortas, não se trata apenas de uma estratégia; trata-se de uma violação frontal dos princípios civilizatórios mínimos.
Recentemente, o governo dos EUA passou a utilizar o termo terrorismo para enquadrar organizações criminosas brasileiras, como PCC e Comando Vermelho. Sem dúvidas, esses grupos empregam violência extrema e representam uma ameaça real à sociedade. No entanto, diferentemente das organizações terroristas, não possuem um projeto político ou ideológico explícito. A questão, portanto, não é negar a gravidade do crime organizado, mas refletir sobre os efeitos políticos e estratégicos da ampliação indiscriminada do conceito de terrorismo, especialmente quando acompanhada de ofertas de “cooperação” internacional, as quais raramente são desprovidas de interesses geopolíticos ou econômicos.
No final das contas, a palavra “terrorismo” parece ter se transformado em um instrumento retórico aplicado quase sempre aos inimigos. Enquanto isso, crimes de guerra são cometidos, tratados internacionais são ignorados e princípios humanitários são relativizados sem que ocorra uma indignação coletiva. O espantoso não é apenas a violência em si, mas a crescente indiferença diante dela. O horror, repetido tantas vezes, deixa de provocar espanto.
Talvez a pergunta que mais incomode não seja sobre o que está acontecendo com o mundo, mas sobre o que está acontecendo conosco. Em outras épocas, multidões eram capazes de ocupar as ruas para protestar contra guerras travadas a milhares de quilômetros de distância. Hoje, diante de tragédias transmitidas em tempo real, raramente conseguimos reunir mais do que algumas dezenas de vozes indignadas. Não é apenas uma mudança política, é uma mudança moral. Em algum lugar entre a rotina e a saturação das notícias, nossa sensibilidade parece ter sido anestesiada. E se um dia a tirania bater à nossa porta, talvez descubramos tarde demais que o maior perigo não era a força do opressor, mas o silêncio confortável daqueles que desaprenderam a indignar-se.
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Foto da Capa: Vera Zasulich / Wikipedia

