Não sei de nenhum bom livro que não tenha sido escrito também por um bom leitor ou uma boa leitora. Uma coisa está diretamente ligada à outra.
Não sei também por que algumas pessoas sentem tanta urgência de publicar o que escrevem, como se não pudessem aprimorar a própria escrita em diversos sentidos, começando pela ampliação do vocabulário.
Na Língua Portuguesa, por exemplo, estima-se que existam mais de 400 mil palavras, incluindo as variáveis entre o português de Portugal, com os de outros países e com o nosso brasileiro, superindependente da Língua-Mãe.
Eu acho bonita a expressão Língua-Mãe. Não gosto, no entanto, da Língua de Sogra. Eu nunca tive uma sogra média, mais ou menos. Tive sempre as melhores ou as piores. Em alguns relacionamentos, fiquei até um pouco mais do que deveria por causa delas. De outros, saí pelas mesmas razões.
Quando era menina, me diziam que para saber como eu seria quando virasse uma mulher, bastava eu olhar para a minha mãe. Falo do ponto de vista físico. Tenho a impressão de que havia um comercial na TV com esse conteúdo. O que não me diziam e que acabei descobrindo por conta própria é que tem meninos que se tornaram as deles, aí do ponto de vista emocional. Homens que, para a gente entender, é só conhecer a santa mãezinha.
Há homens que, haja o que houver, não conseguem se separar de suas mães, nem tampouco matar o pai, simbolicamente falando (não queremos aumentar a população carcerária), que, sei lá o porquê, querem se relacionar com a gente que deixou de viver com os pais lá pelos 15 ou 16 anos. De vez em quando, eles até se casam. Tenho a impressão de que contando os dias para que tudo desande e possam voltar para o seu quarto de solteiro ou de menino. E aí, apesar do discurso de que será por um tempo, emperram por livre e espontânea vontade de não ter de arcar com os custos de toda ordem que a vida adulta implica.
Eu tive um relacionamento, reconheço que bem infantilizado, com um homem que morava com a mãe e que jamais pensava em morar sozinho e em pagar a conta de luz ou o condomínio ou o IPTU etc. E o que era pior, veja que triste: achava bonito a mãe pagar todas as contas. Numa tremenda economia ele vivia. Isso por si só sempre me disse muito sobre sua índole. Talvez cogitasse vir da casa dela para a minha, como as jovens do século passado faziam quando se casavam, sem perceber que eu estava achando o seu comportamento degradante e que o meu não grande amor por ele estava indo pelo ralo. Sua mãe falava pelo ralo. Sabe, mãe inimiga? Era eu aparecer para ela começar a tagarelar sobre as gracinhas e as dificuldades do filho como se ele fosse um bebê. Mais as dificuldades. Não sei como ele sentia. Eu ficava constrangida e ficaria mortificada se minha mãe fizesse isso comigo. Por sorte, tive uma mãe saudável, nada invasiva e nada fofoqueira. Fofoqueando estou eu agora para me divertir e por maldade, eu imagino. Depois dos próximos parágrafos, explico o porquê. Aviso quando começar.
Continuando… Um dos setores que as mães mais usam para controlar e se infiltrar na vida dos filhos é o alimentar. A independência emocional das pessoas passa bastante pela boca. Não é à toa que dizem também que se pode pegar, no sentido de cativar, alguém pelo estômago. No caso da dupla citada, o filho havia sido pego e encarcerado pela gula materna. Na frente da mãe, ele tinha de comer e de repetir tudo o que ela servisse. Segundo o desejo da soberana rainha, todos tinham, inclusive eu, que como de tudo com gosto, mas não com voracidade, e sei dizer ‘obrigada, estou satisfeita’. Portanto, além de me negar, me nauseava aquilo tudo.
Aquilo tudo soa meio mal, mas faz sentido eu ter escrito. Lendo o que digitei até aqui, veja como escrever implica leitura, ouvi a palavra quilo. Freud explica. Naquela casa, como nos restaurantes em que há diversas opções de pratos, havia comida demais e a atmosfera pesava diante da mesa farta, apesar da voz adocicada da matriarca adoradora de sobremesas.
Eu não sou uma pessoa de doces. Nem metaforicamente falando sou açucarada. Meu pai, tentando me convencer a consumir um pouco, em uma época em que eu estava muito magrinha, chegou a me dizer que o açúcar é a gasolina do organismo. Vai ver é por isso que adoro andar a pé, pensei e não disse a ele por bondade ou apenas porque ele era meu pai. Como se percebe, eu posso ser malvadinha. Com este texto, quem sabe inauguro a expressão Língua de Nora? Eu super me encaixo no sistema das sogras. Nunca fui uma nora média, o que não significa que eu não tenha sido capaz de conter os meus pensamentos. Conheço uma mulher que, quando a sogra viajava e pedia a ela que regasse as plantas, regava com água fervente.
Dizem que quando alguém está falando de nós, ficamos com uma das orelhas vermelha e quente. Dizem um monte de bobagens possíveis. Eu adoro esse mundo das coisas e das pessoas que não precisam ser levadas a sério em tempo integral por diversas razões, entre elas, a de tornarem a autenticidade algo mais presente. Presente é uma das 400 e tantas mil palavras do nosso idioma que me encanta. Então vou comentar sobre um inusitado que ganhei.
Quando eu tinha onze anos, uma tia foi passar uns dias conosco. Minha mãe já havia me dito que ela era excêntrica. Talvez fosse o seu jeito de a censurar por ser desquitada e namoradeira, coisa que, com o devido upload, também sou. E minha mãe também já tinha me dito para ficar, na medida das boas maneiras, longe dela depois que eu a cumprimentasse e agradecesse pelo presente que ela tivesse comprado para mim. Eu adorei o presente. E odiei. Duas calcinhas, uma com estampa do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e outra com a do Sport Club Internacional. Tive de ir ao Google olhar os nomes completos. Na época em que eu era criança, dizer Grêmio e Inter bastava, mas, sabe como é, isto é um texto, e textos não vêm com bilhetes explicativos. Explicação minha tia me deu.
Segundo ela, o negócio era o seguinte: quando eu fosse a um encontro com um homem, eu deveria vestir uma e carregar a outra na bolsa para não decepcionar a ninguém. Se eu saísse com um gremista e estivesse usando a do Inter, fazia a troca no banheiro e pronto, e vice-versa. Para quê?, tive de perguntar à minha mãe. Seios, eu não tinha. O quadril mais largo, eu não tinha. Pelos pubianos, também não. A mãe, apesar de toda a sua suposta sapiência, não soube o que dizer. Talvez a tia fosse meio cega, talvez visse em mim uma Lolita, talvez tenha me confundido com a minha irmã mais velha, já sexualmente ativa, talvez ela fosse mais que excêntrica. Não sei. Ou sei e prefiro não dizer. Nunca usei as calcinhas feias e cafonas, isso posso contar, mas até hoje acho o seu raciocínio interessantíssimo. Já minha mãe morreu achando o fim da picada.
E, por fim, porque este texto está ficando longo (eu adoro conversa comprida e sou também excêntrica a meu modo), conto agora o porquê de eu estar fofoqueando. Porque, não bastando eu ter sido bloqueada em todas as redes sociais e no WhatsApp, o ser em questão fez o mesmo com pessoas que amo, as minhas pessoas que nunca, em momento algum, tal qual eu mesma, fizeram algo contra ele. Bloqueou porque sofre, uns me disseram. Ou porque é infantil. Ou porque é mal-educado. Ou por essas três hipóteses e um pouco mais, eu penso cá com meu teclado. Este teclado que me acompanha noite e dia, day and night, sabe tudo sobre mim, até quando estou mentindo ou, para usar um verbo mais simpático, ficcionalizando. Mas vai ver é tudo verdade e “só dez por cento é mentira”. Vai ver é o contrário, mas isso eu não confirmo.
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