No último fim de semana, nos despedimos do grande Luis Fernando Veríssimo. Um escritor cuja obra atravessou gerações, cuja ironia e sensibilidade conseguiram transformar o cotidiano em literatura, o trivial em surpreendente. Veríssimo tinha o dom raro de fazer rir e pensar ao mesmo tempo, de perceber a pequena comédia da vida e traduzir em palavras que permanecem com a gente muito depois de lidas.
Diante de sua morte e desse inevitável fim que a todos um dia alcança, lembrei de um poema que escrevi no ano passado, quando perdi um tio muito querido:
Eu odeio a morte
com suas dores infames
e o silêncio descompassado
de quem vai.
Eu odeio a morte
a temperatura fria
a desesperança de quem fica.
Odeio a morte
em seus ritos sagrados
mentiras nefastas
a quem se deixa iludir.
Odeio a finitude cruel
a quem nada resta
senão a vontade de existir.
Essas palavras, nascidas da dor, retornaram à minha memória enquanto eu percorria fotografias, lembranças e fragmentos de textos do Veríssimo que se espalhavam pelas redes. E não eram poucas. Quem tinha um registro com ele não perdeu a oportunidade de postar sua homenagem. Infelizmente, esse não é o meu caso. Apesar de ser uma leitora fiel, nunca tive a chance de encontrá-lo pessoalmente — um sonho do qual agora fui privada. A morte, com suas garras afiadas, roubou-me até essa possibilidade.
Tenho dificuldade em aceitar o fim. Embora eu saiba que faz parte do ciclo natural — nascer e morrer —, sinto verdadeiro horror diante da deterioração do corpo, a vida se esvaindo lentamente na doença ou o golpe brutal da partida repentina. Tudo isso me assombra, a ponto de me roubar o sono quando penso à noite. Não gosto da morte, não gosto da agonia que ela impõe, não gosto das ausências que deixa. Não consigo tratar com naturalidade um tema tão comum e, em meio a esse pavor, busco culpados.
Pergunto-me se tudo seria diferente caso nossa cultura não cultivasse com tanto fervor a idolatria do sofrimento. “Ele descansou. Agora não sofre mais.” Quantas vezes ouvimos e repetimos frases assim, sem sequer pensar no que dizemos? Quem garante que, ao morrer, descansamos de fato? Quem pode afirmar que não há dor depois do fim? Pior ainda são as promessas fáceis de paraíso, de eternidade, de vida após a morte, impostas pelas religiões. Um consolo doce, mas talvez ingênuo quando não há provas de nada.
Tudo bem: precisamos de ilusões para suportar a vida. Precisamos de um fio de esperança, por mais frágil que seja, para atravessar a perda. E é fácil se apegar a frases de efeito quando tudo em volta é ausência.
Veríssimo, com sua ironia, resumiu em uma única frase o que talvez todos sentimos: “Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca.” E, ao ler essas palavras, percebo como elas dialogam com o meu poema. O meu ódio à morte, com suas dores infames, com a desesperança dos que ficam, é a mesma recusa dele em aceitar o fim.
Enquanto eu me debato contra a finitude, tentando expulsá-la dos meus versos, ele a enfrenta com humor, como quem ri do perigo. Somos dois lados de uma mesma revolta: eu, com a palavra rasgada pela dor; ele, com a ironia que suaviza sem apagar a verdade. No fundo, tanto o meu poema quanto a sua frase confessam a mesma esperança impossível: a de existir para sempre.
Veríssimo, embora não mais de carne e osso, continuará vivo. Persistirá nas prateleiras de bibliotecas e livrarias, nas páginas dos jornais, nos livros que lemos e relemos, e na eternidade das palavras que nos acompanharam, lembrando-nos de que, mesmo diante da morte, a vida se mantém nas histórias que contamos e guardamos.
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Foto da Capa: Lindomar Cruz / Agência Brasil

