Para Ana, nestes dias de muito calor, fica difícil acordar. O ar-condicionado, regulado na temperatura certa, garante um sono de qualidade, mas basta ir ao banheiro para perceber a diferença térmica no resto da casa. O melhor é levantar, vestir a roupa de trabalho e ir tomar o café no escritório: a refrigeração exagerada combina com beber algo quente. Naquela manhã teve sorte: o elevador estava no andar. Já no carro, nota o trânsito um pouco mais intenso que o normal — nada demais, pois trabalha a menos de cinco quilômetros de casa. Às vezes, quando o clima ajuda, vai de bicicleta, aproveitando que há ciclovia em todo o trajeto. Depois do café, cumpre as reuniões agendadas e finaliza o relatório que havia começado no dia anterior. Deu tempo de almoçar em casa — hoje seus filhos estão animados com as atividades escolares; agora adolescentes, aproveitam ainda mais a convivência com os colegas.
Morar ao lado da escola simplifica tudo: alguns amigos vieram junto, a casa ficou alegre. Como tem alguém que cozinha para a semana inteira, bastou aquecer a comida — essencial para aproveitar a única hora de almoço em família. Os filhos vão a pé para a escola, e ela volta ao trabalho sem pressa. Antes de sair, lembra da roupa da academia; o marido chegará cedo e ficará responsável pelo jantar. No trabalho, coloca o casaco — segue frio pela refrigeração. A reunião da tarde é objetiva, libera tempo para malhar. Na volta para casa, lembra que haveria milanesas no jantar, o que aumenta a fome. Mas tudo bem: queimou calorias, pensa. Finaliza o dia com uma ducha forte, passa seus cremes e cai na cama, exausta. Merecido — o dia foi duro.
Para Joana, se existe aquecimento global, ele está todo concentrado no seu quarto. Passou a noite girando na cama; o ventilador só fez circular o ar quente. Às cinco e meia, decide levantar para ao menos tomar o café com calma. Acordar os filhos será difícil, mas precisa deixá-los na sua mãe — passará o dia inteiro no trabalho. É um alívio saber que eles vão comer bem antes da escola. Quase um milagre: às seis e meia estão prontos. A louça fica para depois; se demorarem mais cinco minutos, o ônibus estará lotado. Caminham quinze minutos até a casa da avó, que, felizmente, fica perto da escola — no calor do meio-dia seria impossível caminhar ao sol. Àquela altura da manhã já fazia trinta e três graus. A avó espera os netos com pão caseiro. Joana agradece ter essa guerreira ao seu lado — não saberia dar conta de tudo sem ela.
Na parada, é impossível entrar no primeiro ônibus: superlotado e sem ar-condicionado. Alguns têm ar, mas nem sempre funcionam. São quarenta e cinco minutos até o trabalho, mas hoje deve levar mais: houve um acidente com um motoboy. Ouviu no rádio que há uma média de 15 acidentes por dia envolvendo motociclistas na capital. Com índices assim, tem medo de que seu filho acabe trabalhando com isso. Depois do segundo ônibus lotado, chega em cima da hora. É cozinheira em um restaurante e precisa correr para deixar tudo pronto para o almoço. O calor da cozinha tira parte das suas forças. Na pausa para o lanche, agradece o humor das colegas — sabe que vivem realidades ainda mais difíceis que a dela. Na correria do meio-dia, circula entre panelas, pratos e um calor que deve passar dos quarenta e cinco graus. O ritmo só desacelera depois das três da tarde, quando organizam tudo para a equipe do turno da noite. Sair antes das dezoito horas reduz o risco de pegar o ônibus lotado. Chega um pouco atrasada na escola, mas seus filhos não reclamam — já conversaram sobre isso, sabem que a culpa não é sua. Prepara um arroz, descongela um pote de feijão e assim resolve o jantar. Organiza, deixando tudo pronto para amanhã. E então falta luz. Não têm velas. Banho frio — mas agradece, pois ao menos hoje será obrigada a dormir mais cedo.
Quando se fala em justiça social, muitos não entendem a urgência, e outros simplesmente não têm tempo ou empatia para pensar sobre ela. No dia a dia, a desigualdade se materializa no território, ampliando a distância entre formas de viver uma mesma cidade.
Nos bairros mais nobres — em geral, zonas mais altas — há menos impactos provenientes das mudanças climáticas, como os eventos extremos de chuvas. Em dias de muito calor, ruas arborizadas mantêm o clima agradável para caminhar. Predominam calçadas pavimentadas, paradas de ônibus protegidas com informação interativa de horários, além de praças, clubes e outras áreas de lazer. São bairros próximos ao centro, ao comércio, aos serviços e às escolas.
Já as ocupações irregulares, via de regra, surgem em áreas de proteção ambiental — onde não se pode construir formalmente, justamente para preservar a natureza e evitar riscos. Mas, por isso mesmo, são locais sem valor imobiliário e, na lógica do capital, sem cuidado público. É terra de quem não tem alternativa. Construídos de forma espontânea, são territórios sem árvores, praças ou áreas de convivência. Pela proximidade com arroios e encostas, são sujeitos a alagamentos e deslizamentos. Faltam escolas, empregos, coleta de lixo adequada, policiamento e falta até acesso para bombeiros ou ambulância em uma emergência. Entregas não chegam. Endereços não existem.
Mas, no dia de hoje, há algo que une Ana e Joana além da cidade: seus filhos passaram no vestibular de medicina — na última vaga da universidade federal, cada um em sua categoria, com médias de 823 e 644 pontos — para cotistas.
É aqui que a história muda de tom.
Porque já ouvi muitas vezes que isso — isso, sim — é injusto. A conquista de uma vaga, que pode transformar o destino de uma família de baixa renda, por meio de um sistema de cotas.
Curioso, não?
O que parece injusto para tantos não é a desigualdade que molda cada passo do cotidiano. Não são os territórios desiguais, nem a distância entre oportunidades, nem o calor que queima mais uns do que outros. A indignação aparece, convenientemente, quando o privilégio é ameaçado.
E, talvez, a pergunta mais incômoda seja justamente esta: por que a injustiça só choca quando atinge quem sofre menos?
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