A vida é feita de recomeços. Pode soar clichê, mas o que são os nossos dias senão uma sequência de acontecimentos inesperados que nos obrigam a rever escolhas que pareciam definitivas?
Nem sempre a decisão parte da nossa vontade. Às vezes, seguir outro rumo, mudar de endereço, alterar planos é a única possibilidade de nos livrarmos do que nos aprisiona. E, se cada dia é um novo recomeço (opa, outro clichê), por que tememos a urgência de reescrever a própria história, deixando para trás o que não serve mais?
A necessidade de recomeçar só surge quando algo se rompeu. Pode ser o fim de um amor, a ausência definitiva de alguém, a perda de um trabalho ou, simplesmente, o momento em que decidimos não aceitar mais o que nos diminui. Depois dessa ruptura abrupta, vem o luto. Então só nos resta chorar pelas expectativas frustradas, pelos planos que não vingaram e por tudo que tivemos que abandonar no meio da estrada.
Recomeços, embora positivos, não são fáceis. É preciso lutar constantemente contra as sombras que invadem os nossos pensamentos e tentam nos convencer de que não somos capazes. São esses momentos que nos tornam vulneráveis, a ponto de preferirmos esconder as nossas fragilidades a aceitar que sentir medo não é o fim do mundo.
Em A coragem de ser imperfeito, Brené Brown afirma que “quando estamos vulneráveis, ficamos totalmente expostos, sentimos que entramos em uma câmara de tortura (que chamamos de incerteza) e assumimos um risco emocional enorme. Mas nada disso tem a ver com fraqueza.”
Eu concordo. Não há ninguém no mundo que nunca tenha sentido um frio na barriga diante de algo novo. E, ao contrário do que se costuma dizer, coragem não é ausência de medo. Ser corajoso é agir apesar dele, enfrentando o risco mesmo quando o perigo é evidente. Foi assim que, depois de quase um ano afastada para tratar um problema de saúde, voltei ao trabalho. Não porque o medo tivesse passado, mas porque chegava a hora de recomeçar e eu não permitiria continuar fugindo.
Outro dia, zapeando pelos canais por assinatura, encontrei um filme que me ajudou a encarar melhor essa nova fase da minha vida. Livros Restantes — não preciso dizer que o título me chamou atenção — acompanha a jornada de Ana Catarina, personagem vivida por Denise Fraga, uma professora de literatura que decide se desfazer da própria biblioteca antes de se mudar para Portugal.
A princípio, a tarefa parece simples, mas, quando restam cinco livros com dedicatórias escritas por pessoas importantes de sua história, ela se sente incapaz de apenas doá-los e resolve devolvê-los a quem os presenteou. A cada entrega, ela revisita memórias, confronta escolhas e acerta contas com o passado. Sem planejar, escancara diante da família e dos amigos um trauma de infância que escondeu durante toda a vida e, depois de tudo, parte para uma nova vida em um país distante.
Ao acompanhar essa travessia, percebi que recomeçar não é apagar o que fomos, mas encarar o que ficou pendente. Também entendi que nenhuma mudança se sustenta se tentamos carregá-la com as mesmas omissões de antes.
Meu retorno ao trabalho exigiu de mim uma postura que antes não existia. Eu aprendi a reconhecer os meus limites, a recusar excessos que antes eu aceitava por obrigação e a admitir que a minha saúde não é detalhe negociável. Não sei se essa decisão vai durar a vida inteira ou apenas um tempo, mas escolhi retomar meus passos e seguir adiante, apesar de todo e qualquer medo.
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