A coluna de hoje é composta de duas histórias dos meus tempos de jornalista de redação entremeadas por umas opiniões meio vagas, sem base nenhuma, além de experiências empíricas. No fim, espero que o conjunto tenha organicidade o bastante para parecer um ensaio, mas, se não tiver, acho que seguirá ainda assim os princípios do ensaio como pensados pelo seu criador Montaigne: um experimento mental, uma investigação em que a prosa busca testar hipóteses de coisas que não são passíveis de testes científicos. Um ensaio é uma tentativa. E o fato de um texto ser uma tentativa não quer dizer que sempre precise dar certo…
Alienação e juventude
Quando eu trabalhava na Zero Hora, era comum a direção de redação fazer umas palestras semanais ou quinzenais sobre “temas do momento”. Eram realizadas no início da tarde, para pegar o início do turno do pessoal que chegava depois das 13h e o fim do turno de quem havia trabalhado pela manhã, garantindo que ninguém tivesse muito como escapar, a não ser que estivesse trabalhando em alguma pauta na rua. Normalmente eram recados disfarçados da direção da empresa sobre para onde estavas soprando os planos da “firma”, e assim houve gente falando de uso da internet pela imprensa, tentativas de monetização de imprensa pelas redes (nos anos antes da explosão do modelo do algoritmo que, no fim, não beneficiou imprensa alguma, só a afundou mais).
Numa delas, ali pelos anos iniciais da década de 2010, convidaram a “jovem guarda” da redação para apresentar uma pesquisa que eles haviam conduzido sobre “como pensa o jovem do século XXI”. Pensando em retrospecto, talvez a firma estivesse meio assustada com o fato de que quase todos os protestos de rua daquela época terminarem com uma procissão indo até a ZH para atirar pedra nas janelas – como se ler o jornal não fosse já resposta suficiente.
Não me lembro direito dos dados apresentados pelo comitê jovem, mas me recordo como uma lesão antiga uma frase dita pela coordenadora da coisa: “Os jovens não são alienados, eles apenas só se interessam pelo que captura sua atenção e não dão muita importância ao resto”. Me lembro de gritar em silêncio dentro da minha própria cabeça: “Mas é essa mesma a definição de alienado, sua idiota!”, mas não disse mais nada e simplesmente continuei trabalhando no meu computador desligado do que viria a seguir. Não desligado o bastante para não ouvir de relance que os “jovens”, sejam lá quem fossem, não tinham mais o hábito de clicar nos links quando faziam uma pesquisa no Google, eles já se satisfaziam com as três ou quatro linhas de resumo que apareciam nas listas de respostas. Acho que, se tivessem anunciado uma chacina com hora marcada na Praça da Matriz, eu não teria ficado tão horrorizado como fiquei no fim daquela hora tão agoniante.
Com um “subsídio” tão abalizado, pioraram em muito na época as cobranças que os arrombados do online faziam aos repórteres para que os textos “não fossem longos”, porque “ninguém lê texto longo na internet”, e essa foi apenas uma das repercussões nefastas daquela tarde…
Com a passagem dos anos, me parece que o quadro piorou, com uma única exceção: aqueles jovens daquela época, que eram chamados pela mídia acéfala de “Millennials”, hoje são os tiozões considerados “cringe” pela turma ainda mais jovem que a mesma mídia acéfala chama de “Geração Z”. Eu, que sou só velho mesmo, fico de fora dando risada.
Mas, quando falo que o panorama piorou, me refiro ao fato de que o próprio ato de pesquisa aprofundada se tornou tão raro que hoje se borram os limites entre as notícias falsas e as verdadeiras em qualquer navegação pela rede. O próprio conceito que se tinha na época da criação da internet comercial, o de “navegar” de um link a outro com a velocidade de uma lancha digital, parece ter sido enterrado pelo formato “caça-níquel da depressão” do atual modelo de redes baseadas em algoritmo, no qual você “arrasta para cima” coisas na sua tela como uma velhinha torra suas economias em Las Vegas: desperdiçando em poucos centavos de cada vez a única fortuna que você possui, tempo e atenção, pela vaga possibilidade de um prêmio prazeroso, essa coisa indistinta chamada “grande entretenimento”. E a falta de atenção a textos longos se tornou uma epidemia em que o foco é erodido por esse treinamento de hamster nos “vídeozinhos” de plataformas como TikTok e Instagram.
Não sou eu falando. Nomes como António Damásio, que eu citei nestes textos mais de uma vez, ou Maryanne Wolf vêm manifestando preocupação semelhante com um embasamento muito maior do que o meu. Em seu livro Reader: Come Home (algo como Leitor: volte pra casa), Wolf alerta que a leitura digital vem alterando a “qualidade da atenção” exigida pelo foco nas páginas de textos impressos. Ela cita pesquisas e trabalhos acadêmicos sobre como “o sequenciamento de informações e memória para detalhes muda para pior quando os sujeitos leem em uma tela”, levando os leitores a preferirem “escanear palavras-chave” em um texto, num tipo de leitura em diagonal que zapeia para entender o contexto e depois vai direto para as conclusões no final, só voltando ao texto para buscar detalhes se for extremamente necessário.
Herzog, quem?
Muitos anos antes desse episódio, tive a minha primeira surpresa desagradável envolvendo o desinteresse programado dos colegas da minha própria profissão. Eu e o hoje colunista de esportes Diogo Olivier éramos, no início dos anos 2000, colegas na editoria de Esportes e, como fazíamos muitas vezes, estávamos conversando sobre aleatoriedades no bar da redação. Em algum ponto, juntou-se a nós uma colega mais jovem, recém-formada ou quase, que trabalhava na editoria como assistente de produção. A certo momento, a conversa mencionou Vladimir Herzog – cujo assassinato pela ditadura militar completou 50 anos esta semana, sendo este o motivo para este texto.
Vlado morreu por não ser paranoico o bastante, é o que dizem várias fontes – estou pensando, por exemplo, e para citar só um, em Meu Querido Vlado, de Paulo Markun (Objetiva), no qual se narra que Vladimir foi alertado mais de uma vez por amigos e colegas de que deveria fugir do Brasil antes mesmo de ser procurado pelo exército na redação da TV Cultura, na qual era diretor de jornalismo, numa noite de sexta-feira em outubro de 1975. Vlado negociou com os milicos e ficou de se apresentar na manhã seguinte, um sábado, e, ao contrário do bom conselho dado a ele por todos os que presenciaram a cena, Vlado, no outro dia, compareceu na data e no horário marcados e nunca mais seria visto vivo.
Além de maus-caracteres, muitos dos envolvidos na repressão também eram simplesmente maus ficcionistas, o que se prova pelas histórias furadas que apresentaram nos poucos casos em que se viram compelidos pela pressão da opinião pública a dar alguma explicação. No caso hoje famoso do deputado Rubens Paiva, transformado no filme vencedor do Oscar Ainda Estou Aqui e narrado por Marcelo Rubens Paiva no livro de mesmo nome (Alfaguara), o Exército inventou um espetaculoso resgate ocorrido na estrada durante uma “transferência” do prisioneiro. No caso de Vlado, divulgou com a desfaçatez dos autoritários uma fotografia tentando emplacar a versão do suicídio do jornalista. O suicídio por enforcamento de um homem ainda com os pés apoiados no chão.
Bom, como eu disse, mencionamos Vlado e a moça nos perguntou “quem?” E eu achei que ela não tinha entendido o nome, apenas. Quando explicamos, lembrando a prisão de Vlado, sua tortura e assassinato, mesmo ele tendo se apresentado por suas próprias pernas à repressão militar, a moça fez uma cara de nem aí e disse: “Bah, nunca ouvi falar”.
Nunca me esqueci desse diálogo porque, bem, quando você tem uma pessoa que passou quatro anos pela faculdade de Jornalismo e já trabalhava há pelo menos uns dois anos aqui e ali em veículos de imprensa, como era o caso dessa moça, nunca ter ouvido falar de Vlado e de sua história era meio que o atestado de que a formação na carreira estava em frangalhos antes mesmo da queda da obrigatoriedade do diploma e da erosão da atenção provocada pela dopamina da internet (esse caso deve ter ocorrido ali por 2001, logo, antes das duas coisas – aliás, quando recém começava a se popularizar o Google como motor de busca que viria a suplantar coisas como o Altavista, por exemplo).
Um mundo sem tropeços
Outra das coisas ditas pelas “jovens promessas” da casa naquela palestra que mencionei no primeiro caso era que o jovem se contentava com duas linhas do Google porque considerava esse tipo de pesquisa eficiente e “não tinha tempo” para gastar fuçando em sites. E isso ficou para sempre na minha memória porque cristalizou em uma frase uma impressão que eu já tinha na época e que parece se aprofundar como um desfiladeiro a cada vez que penso nisso: a nossa vivência digital, orquestrada por grandes corporações que pretendem ter nossos dados e nossa atenção como a verdadeira mercadoria de seus negócios, disfarça na aleatoriedade um design criado e desenvolvido para impedir qualquer verdadeiro “acidente” no que diz respeito à informação e ao conhecimento.
Já vivemos todos nós numa outra época em que o tropeço e o acidente eram a base mesmo da aquisição de informações – aprender era, antes de tudo, tropeçar. Abria-se o dicionário para descobrir o significado de uma palavra e aí você se perdia lendo os verbetes de outras cinco ou seis porque os olhos se deixaram levar pelas colunas vizinhas. Aliás, agora que penso nisso, me pego perplexo lembrando que eu estava por aqui quando o mítico Antônio Houaiss finalmente lançou seu tão esperado dicionário, que chegou em 2001, já imediatamente suplantando o então hegemônico Aurélio, ou “Aurelião”, como chamávamos. Vocês não precisam acreditar em mim, mas podem pesquisar, se quiserem, porque o lançamento do Houaiss foi notícia por semanas em toda parte. Jornais pediam comparações entre o Aurélio e o novo léxico, linguistas escreveram artigos para cadernos de Cultura.
O lançamento do Houaiss em 2001 provocou um impacto sísmico que hoje, imagino, não seria mais possível – tanto porque não temos mais nomes acadêmicos de ampla repercussão como eram o de Houaiss ou o do também já falecido Evanildo Bechara quanto porque a ideia mesma do dicionário vem sendo vendida como ultrapassada numa era em que cada editor de texto, cada navegador de rede tem seus próprios mecanismos de pesquisa de significados de uma palavra – e só daquela palavra, invalidando aquela experiência que relatei de pularmos de um verbete a outro na mesma coluna.
Também funcionavam assim as enciclopédias, você ia pesquisar “Egito Antigo” e descobria quem eram, gregos como “Egisto” ou “Eros”, ou aprendia um pouco sobre “Eletromagnetismo”. Havia aí uma lógica de “acúmulo”. Você ia procurar uma coisa e saía com aquilo e mais um pouco, mesmo que não houvesse uma utilidade imediata à vista. A obtenção de informações era seu próprio objetivo. Hoje a lógica parece ser aquela descrita por Byung-Chul Han em Sociedade do Cansaço (tradução de Enio Paulo Giachini, Vozes) como a “sociedade do desempenho”: um novo modelo psíquico e social de hiperatenção fragmentada, no qual a profundidade deu lugar à dispersão e em que o tempo precisa ser “administrado” como um recurso a ser investido – o que significa podar tudo o que for considerado acessório para que se vá direto ao ponto. Como cantava o Radiohead, falando de outra coisa, mas que pode vir a se conectar com isso: “Sem alarmes e sem surpresas, por favor.”
Efeitos
Esse pragmatismo neoliberal da informação “útil” e “rápida” cria toda uma gama particular de problemas. Treina atenções já pouco focadas em uma dispersão inescapável, por exemplo. Ou cria uma série de “bolhas de filtro”, como postula o americano Eli Pariser, outro desses arrombados que deram início a esse estado de coisas e que hoje ganha dinheiro alertando para o perigo de uma estrutura que ele mesmo ajudou a criar. Em seu livro O Filtro Invisível (tradução de Diego Alfaro, Zahar), Pariser define o estrago criado pela tecnologia do algoritmo em praticamente todos os campos da experiência humana: o feed das redes sociais não é programado para exploração, mas sim para repetição; o algoritmo pauta-se pelas informações de navegação do usuário para entregar mais do que ele já gosta e reforçar mais o que ele já sabe, criando a tal bolha de previsibilidade que Pariser chama de “bolha de filtros”, designada para evitar contato com o novo, o estranho e o acaso.
Isso vem acontecendo com todos nós, repito, mas tenho a impressão de que essa mudança afetou com mais prejuízo os mais jovens. Talvez eu esteja sendo vítima de uma ilusão romântica por achar que nós, os que estávamos aqui antes dessa confusão, mantemos ainda alguma espécie de curiosidade livre destinada à acumulação de conhecimento mesmo sem necessidade, enquanto os mais novos já cresceram nesse mundo em que o contato com o conhecimento é cada vez mais mediado por interfaces que priorizam a eficiência sobre a curiosidade. O resultado é uma geração que sabe muito, mas conhece pouco. Que tem acesso a tudo, mas contato com quase nada. Que busca respostas rápidas, mas não formula boas perguntas. Que até sabe onde procurar as informações, mas não parece disposto ou interessado nelas, a menos que seja obrigado. O saber virou utilitário, funcional, sem espaço para o lúdico, para o erro, para o acaso.
Diacho, em uma ampla camada da população, já nem se anda mais de ônibus olhando pela janela, não se espera mais numa fila observando o entorno. O tempo morto – aquele em que a mente vagueia – foi colonizado pela tela. E o pior, lembro agora, é que numa daquelas palestras chatas que a Zero Hora fazia e que eu mencionei no início, um executivo de marketing qualquer já tinha antecipado essa tendência ao falar que o jornalismo em breve estaria disputando espaço com a informação e o entretenimento pelo celular, que estaria sempre à mão e ocuparia os momentos de “micro tédio” cotidiano, justamente esses que mencionei antes. Não me lembro mais o nome da figura, mas me lembro que esse tópico em especial foi mencionado em 2008, na esteira da primeira revolução dos então novos “smartphones”.
Pesquisando para este texto, topei com um livro que ainda não li, mas pretendo, chamado Alone Together, da socióloga americana Sherry Turkle. Pela sinopse que li a respeito em um artigo acadêmico, é um estudo sobre como os dispositivos móveis mudaram a qualidade das conversas e interações, com a descrição de situações que todos já vivemos: estamos “conectados”, mas pouco presentes, falando platitudes enquanto rolamos nossos celulares. Não sei quais os insights que ela apresenta, mas a situação em si é um fato tão certo que não temos muito o que imaginar – todos já vimos ou vivemos algo assim.
Por mais que os apóstolos ingênuos do mundo digital ainda vejam esperança em seus caminhos, o mundo físico é fundamental para a experiência sensorial e cognitiva. Conhecimento não é só informação — é também contexto, cheiro, som, textura. É o que se aprende sem querer, por estar ali, uma experiência cada vez mais rara, como comentei aqui. Fico pensando se isso é irreversível ou se ainda haverá no futuro um modelo em que poderemos outra vez deixar que o mundo nos surpreenda e possamos descobrir o que “se ganha em se perder”.
Ou aprendemos a nos perder de novo ou estaremos perdidos…
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Vlado / Instituto Vlamidir Herzog

