Essa semana dei uma entrevista a jovens estudantes do curso de jornalismo da UFRGS que estão organizando uma edição da revista do curso sobre o tema do tempo. Nessa temática, coube a mim falar sobre a questão dos cuidados paliativos, finitude e o trabalho da Psicologia nesse contexto dado meus mais de 10 anos de prática de Psicologia Hospitalar na área da Oncologia.
Várias boas perguntas foram realizadas e me agrada a forma como jornalistas pensam, articulam e interagem com uma matéria, criando uma narrativa interessante ao leitor ou espectador. E nesse caso, à entrevistada. O início da conversa foi marcado por perguntas abertas sobre meu interesse por essa área de trabalho. Comentei algo que sempre trouxe em aulas ou outras falas minhas: de que eu acredito muito que as áreas com as quais elegemos trabalhar consciente ou inconscientemente tem nessa escolha uma pergunta muito antiga que desejamos responder, uma inquietação, uma teima. No meu caso, disse a eles que entendia meu interesse pela área hospitalar e mais precisamente pela Oncologia como uma forma de tentar lidar com o medo da morte que eu sempre tive quando criança. Mais do que medo, uma inquietação, uma angústia. A pergunta era o que é a morte, será que tudo realmente acaba? Nascida numa família sem práticas ou crenças religiosas, sempre fui descrente de qualquer possibilidade de vida após a morte. Morreu, acabou, mas, logicamente essa afirmação não era o suficiente para uma criança curiosa e criativa como eu. Escrevia anotações reflexivas sobre o tema, perguntava. Assim, comentei aos meus dois entrevistadores estudantes de que a aproximação com a morte via trabalho poderia ter essa busca por estar perto dela de um outro lugar. Estudá-la, vê-la em ação diariamente, ver como as pessoas a recebiam, dela fugiam, ou ela negavam.
Mais perguntas foram sendo feita sobre as questões mais praticas do trabalho bem como sobre minhas vivências nesses anos de proximidade com a morte e a finitude. Ao final da entrevista, foi me feita a pergunta que me deixou em silencio por alguns segundos e me pegou desprevenida:
– E hoje, passados todos esses anos, com todas as tuas vivências sobre o tema, você conseguiu responder àquelas perguntas da infância?
Que bela questão, garota. Principalmente porque jamais pensei nisso dessa forma pragmática. Após pensar por alguns instantes, tudo que consegui dizer é que acho que parei de me inquietar tanto com a pergunta, parei de tentar buscar uma resposta. Acho que eu lido melhor com a pergunta, deixo-a circular livremente. Gostei tanto de pensar sobre isso! Agradeci à possibilidade da entrevista e de ser levada a pensar novamente sobre esse tema, do qual nunca me afasto totalmente, mas que devido ao distanciamento físico do ambiente hospitalar em si, deixei de olhar tão diretamente. Acho que aquela frase de que nem a morte nem o sol pode-se olhar diretamente por muito tempo se aplica bem aqui. Só de vez em quando, como numa entrevista, podemos mergulhar nesse temor, nesse fascínio que a morte exerce, sem arder demais os olhos. Como é bom, anos depois, responder perguntas em aberto. Ou melhor, responder que a melhor resposta é nunca a responder. Ou até a hora em que chegar a minha vez de recebê-la.
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