A dominação dos nossos instintos compõe a realidade estrutural da sociedade em que vivemos. As relações de oposição existentes foram internalizadas, funcionando como uma forma de recusa radical diante das possibilidades de libertação.
Essas possibilidades de libertação já não são mais meramente utópicas. Marcuse, em seu livro Ensaio sobre a Libertação (1969), argumenta que a utopia não é mais algo que se encontra fora da realidade humana por impossibilidade intrínseca, mas sim por conta da própria organização econômica da sociedade. Em outras palavras, as características repressivas e dominadoras que sustentam a nossa subjugação não possuem prazo de validade, pois são constantemente renovadas tanto em um terreno externo quanto interno de reprodução de valores.
A busca incessante pelo consumo expressa essa dinâmica de dominação. Construímos essa materialidade a partir de uma relação de dominação biológica com estruturas repressivas que moldam nossa força física e intelectual. Mas quantas dessas necessidades são realmente necessárias? Quantas foram impostas como indispensáveis? Acreditamos na mentira? Nosso comportamento revela a difícil resposta: sim.
Como o sujeito está conectado à forma-mercadoria que consome — ideia esboçada por Marcuse na obra supracitada — seus valores passam a depender da capacidade de substituí-los tão logo o mercado determine que isso é necessário ou coerente. Trata-se da negação da coerência interna, da capacidade de racionalizar sobre os próprios desejos e vontades, sobre o que, de fato, constitui um sentido verdadeiro em sua vida. A faculdade da racionalidade foi deslocada do sujeito, que responde de maneira secundária a uma moral, um valor e um desejo que existem fora de si mesmo – e dentro de si por internalização.
Do mesmo modo, o sujeito projeta no “progresso material” sua possibilidade de felicidade e aceitação — um traço da necessidade arcaica de aprovação, originalmente experimentada na relação com os pais, agora transferida para o contexto social. Como é necessário manter a vida cotidiana — ideia inspirada em Agnes Heller — o sujeito se relaciona de forma orgânica e intelectual com atividades repressivas. Ele o faz por desejo (agora internalizado) e por necessidade de aprovação social — definida por sua capacidade de manter essa vida cotidiana e, dentro dela, ascender economicamente, mesmo que isso restrinja suas formas de ser, sentir e experienciar sua própria realidade enquanto essência.
O sujeito caminha rumo a uma falsa liberdade, julgando-se livre. Como diz a música “Sheep”, da banda Pink Floyd, lançada no álbum Animals (1977):
“The Lord is my shepherd, I shall not want
He makes me down to lie
Through pastures green
He leadeth me the silent waters by.
With bright knives He releaseth my soul.
He maketh me to hang on hooks in high places.
He converteth me to lamb cutlets,
For lo, He hath great power, and great hunger.”
Em tradução livre:
O Senhor é meu pastor, nada me faltará.
Ele me faz deitar —
Por pastos verdes,
Ele me conduz pelas águas silenciosas.
Com facas brilhantes, Ele liberta minha alma.
Ele me pendura em ganchos nas alturas.
Ele me converte em costeletas de cordeiro,
Pois eis que Ele tem grande poder e grande fome.
Diante desse cenário, torna-se urgente repensar a forma como nos relacionamos com o mundo, com os outros e, sobretudo, conosco. A liberdade, enquanto possibilidade concreta, exige a superação das estruturas que naturalizamos como imutáveis. É preciso romper com a lógica da dominação internalizada e resgatar a autonomia do pensamento, da sensibilidade e da ação. Só assim poderemos construir uma existência que vá além da adaptação às engrenagens do sistema, recuperando o sentido profundo de ser, de desejar e de viver de forma verdadeiramente emancipada.
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo e professor universitário. Atualmente, é mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar pela ESUDA. Dedica-se ao estudo aprofundado de temáticas concernentes à Psicanálise Kleiniana, Marxismo, Teoria Crítica e Escola de Frankfurt. ralfsouzapsi@gmail.com
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.
Foto da Capa: Ilustração da Capa do Álbum Animals / Pink Floyd

