E raven, never, raven, never, raven
Never, raven, never, raven
Belchior
No produzir de um texto, gosto muito do momento da criação em que invento algo e me encontro com um novo pedaço de mim em mim. É raro e muito delicioso! No entanto, não poucas vezes, o tempo passa e eu topo com a informação que me mostra que eu não tinha inventado nada, não. Apenas meu inconsciente recuperou algo que estava bem esquecido em um arquivo menos acessado.
Quando escrevi minha dissertação de mestrado sobre psicanálise e poesia, trabalhei com o poema, The Raven, de Edgar Allan Poe, porque havia nele um procedimento estético que encontrava semelhança com o que Freud tinha feito na análise do famoso caso apelidado de “O homem dos ratos”. Então, um tanto incauta, achei que descobria a América ao dizer que Raven [corvo] era never [nunca] invertido. Fazia ainda mais sentido, porque lembrei que os ingleses pronunciam essa palavra de forma mais aberta do que os estadunidenses. Poe era estadunidense, mas no século XIX, então, valia a aposta a respeito de um inglês mais preservado.
Resulta que outro dia escutando uma música que há muito não escutava – Velha roupa colorida, na voz da Elis – se descortinou essa história do never-raven. Foi daí que tirei. Belchior foi um gênio. Uma página muito triste da história da música brasileira é o esquecimento sofrido pelo compositor nordestino que terminou no ostracismo no sul do país. Não penso que ser artista seja sinônimo de ser rico e enormemente famoso, mas daí a cair em uma condição tão indigna e solitária vai uma distância injusta e dolorida. Belchior deixou versos como: “Tenho 25 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. Por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blues” ou “Mas não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo, isto é somente uma canção. A vida é realmente diferente. Quer dizer, ao vivo é muito pior”.
Eu era criança e a minha mãe escutava bem alto Velha roupa colorida, na voz de Elis. Eu não entendia muito, mas algo em mim sim. “Você não sente, nem vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo…” Está lá. E um dia a gente usa disso sem dar a devida referência, pensando que criou. Enfim, para quem ainda quiser saber um pouco mais sobre Belchior, Poe, pássaros pretos daqui e blackbirds de acolá, recomendo o vídeo do músico Gustavo Vaz. Para ver e sentir.
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Foto: Agência Brasil

