“Não tenho medo da palavra velha. Não me chamem de idosa. Palavra feia. Velha, eu acho linda. Estou com muita energia, muito bem, muito disposta… e velha!” (Marieta Severo)
“Idosa é uma pessoa que tem muita idade. Velha é a pessoa que perdeu a jovialidade. A idade causa a degenerescência das células. A velhice causa a degenerescência do espírito. Por isso nem todo idoso é velho e há velho que ainda nem chegou a ser idoso.” (Autor Desconhecido)
E você? Como você se sente a esse respeito?
Dia desses me aconteceu uma situação engraçada. Num bate-papo, afirmei que era velha e um amigo negou veementemente, pois me acha alguém que está sempre disposta, animada pra sair, adoro dançar, enquanto isso lá estava eu argumentando que, mesmo com todas essas características, não via problema nenhum em eu me chamar de velha. Afinal, uma pessoa velha não podia reunir todas elas? Gosto de me definir como velha, penso que é uma palavra que resume beleza e história (como se fosse um velho vinho, uma velha árvore, uma velha amizade). Porque significa que possuo estrada e experiência, posso me afirmar dessa forma. Dentro de mim carrego a criança, a jovem, a adulta que já fui. Agora, aos 58 anos, carrego a velha que estou aprendendo a ser. Tudojuntomisturado.
Estar velha é bom?
Vou responder que pra mim não é fácil. Particularmente, percebo que, com a idade, acumulo preocupações com a minha saúde e questões financeiras. Aumentou a listinha de médicos que preciso consultar anualmente. No decorrer do caminho, aparecem situações mais sérias. Felizmente, por enquanto, incrementei com um estilo de vida saudável e tá tudo ótimo.
Bom, só quem é velho sofre com a saúde? Há pessoas mais jovens do que eu que por motivos naturais, por conta de acidentes, por causa de estilo de vida ou das desigualdades sociais, das questões genéticas e hereditárias, possuem questões físicas mais limitantes, por exemplo. E o mesmo fenômeno a gente observa em pessoas mais velhas. Esse é um dos motivos pelos quais a gente não pode falar em um só tipo de velhice, mas em velhices no plural e envelhecimento no singular, pra não cair no estereótipo. Mas vou dizer que, conforme a velhice vai avançando, a invisibilidade se torna maior, por conta do idadismo, e a solidão se torna um risco maior, se a pessoa não tiver um cuidado anterior com suas conexões, com a tal “saúde social” (como vai a sua?). E aí, até, a possibilidade de encurtamento da vida.
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Sempre curti a convivência com os mais velhos. Fui aquela menina que, desde pequena, passava as férias com os avós e gostava. Preferia sentar e escutar a conversa dos adultos do que brincar entre as crianças. Na adolescência, entre meus 14 e 19 anos, uma das minhas melhores amigas foi a Isaura, uma vizinha com 75 anos, que me ensinava sobre bordado, costura e adorava contar as fofocas da cidade. Em Campinas, aos 28, onde morei por quatro anos, outra vizinha me adotou, foi minha salvação da solidão inicial naqueles anos e grande amiga, a Maria Elisa, com 50 anos. Hoje, refletindo, percebo o quanto essas trocas foram boas para eu ter diferentes visões sobre o envelhecimento e a velhice. Positivas visões, pois todas eram muito ativas.
Mesmo assim, foi um choque quando me dei conta do meu envelhecimento aos meus 37 anos. Isso ocorreu quando aconteceram dois marcos importantes na minha vida:
1) O início do processo de adoecimento da minha Mãe, o que fez com que começasse a me dar conta da finitude da vida. Receber a notícia do câncer dela. Enxergá-la vulnerável, frágil, com risco de morte. Ter que assumir o cuidado, responsabilidade junto a médicos e outras equipes de saúde. Não só me dei conta de que a Mãe era mortal, eu também tinha o tempo contado.
2) Fui chamada de “tia” pela primeira vez. E aí, me dei conta que tinha perdido meu “valor de mercado”. Eu, que costumava ser “a” bonita, admirada, já não fervia na primeira fervura e precisava dar passagem ao que a sociedade entendia ter mais valor do que eu. Havia perdido meu lugar na “prateleira”, como tão bem descreve Valeska Zanello sobre as desigualdades de gênero na sociedade machista (lei aqui). No meu caso, naquela época, por causa do envelhecimento. Nessa relação, a gente vai perdendo ou ganhando lugares na prateleira e indo mais para baixo (ou pra cima ou para os lados) de acordo com diferentes variáveis: É negra? É branca? Com deficiência? Tem olhos azuis? É gorda? É magra? É velha? Assim vamos sendo catalogadas… Como lidar com esse sexismo atravessado pelo etarismo?
Eu sou uma pessoa curiosa por natureza. Se você quiser me contar sobre fissão nuclear, eu vou te dar papo, porque o saber não ocupa espaço e a curiosidade me mata. Preciso entender as coisas. Então, para lidar com tudo isso, fui estudar sobre envelhecimento e longevidade.
Graças ao aprofundamento desses estudos, cá estou eu, tranquila por ser chamada de velha. Sim, de vez em quando pensamentos intrusivos me invadem. A imperfeição é perfeita. Entretanto, cada vez mais rapidamente eles saem de mim. Mas poderia apostar que a maioria da população não tem a mesma tranquilidade que eu. Conforme estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etarismo, ou idadismo, ou ageísmo contra a pessoa idosa atinge uma a cada duas pessoas no mundo (imagine no Brasil, onde o culto à juventude é o que é). Por isso é importante o exercício da compreensão de que o que é bom para mim nem sempre significa que é bom para o outro.
“Saiba que você tem a idade perfeita. Cada ano é especial e precioso, pois você só viverá uma vez. Esteja confortável com o envelhecimento.” (Louise Hay)
“O envelhecimento é um processo extraordinário em que você se torna a pessoa que sempre deveria ter sido.” (David Bowie)
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

