Isolada em uma espécie de quinta, com vista para os morros e as turbinas eólicas, trabalhando embaixo das cobertas, eu tenho fome. Fome de comunidade, de conexão, de troca, de me sentir pertencente – não só a um país (isso é tema para outro texto), mas a um grupo.
No começo de 2023, já morando em Portugal, consegui um trabalho que parecia dos (meus) sonhos: gerenciar uma guest house de frente à praia, com promessas de flexibilidade de horário, ótimo salário para os parâmetros portugueses, poder surfar a hora que eu quisesse, e uma chefe descolada. A realidade foi completamente distinta, o que me levou a gerenciar sozinha uma casa que comportava trinta hóspedes, além de cuidar de toda a parte administrativa, financeira, de marketing… até que comprar comida e servir o café da manhã passaram a fazer parte da minha lista de tarefas. Eu não era a gerente do negócio. Eu ERA o negócio. Tinha todos os deveres de quando somos donos (sei bem, porque eu mesma já fui proprietária de um hostel em São Paulo, nos Jardins), mas sem o lucro. Bom, alguns meses sendo acionada vinte e quatro horas por dia, inclusive fins de semana e feriados, e sendo responsável pela felicidade de trinta pessoas em constante rotatividade, me levaram à beira do famoso burnout. Prometi a mim mesma que jamais trabalharia presencialmente de novo.
E vim cumprindo essa promessa. Em meados do mesmo ano, voltei a fazer trabalhos na área de marketing para as redes sociais, e criei minha agência de uma só pessoa – tudo remoto. Uso o tempo que me sobra para escrever, cuidar dos meus dois cachorros, da casa, de mim mesma e da minha família. Me sinto privilegiada – claro – e verdadeiramente feliz com o estilo de vida que escolhi. Até poucos meses, eu era a maior entusiasta do home office, e não poderia apontar um mísero defeito neste modelo – a liberdade é tão importante pra mim, que sua luz me impedia de olhar o resto. Ainda amo poder trabalhar de casa, não me entenda mal. De jeito nenhum trocaria o que conquistei por um trabalho fora. Mas comecei a sentir o peso do isolamento prolongado. Sinto falta de gente. Da presença física, do olho no olho, da conversa que acontece sem planejamento. Sinto falta de discutir ideias enquanto alguém gesticula à minha frente. De rir junto. De saber que pertenço a algo maior do que meu computador e minha casa. De ouvir outros pontos de vista, algo tão rico e importante para tomarmos as decisões corretas.
Recentemente, assisti ao documentário “Como viver até os 100: os segredos das zonas azuis”, sobre regiões específicas onde as pessoas vivem mais de cem anos com saúde e lucidez. Foi feito um estudo para entender o que essas pessoas têm em comum, e, além da alimentação e do movimento, uma das descobertas centrais: todas elas pertencem a comunidades fortes. Comunidades de verdade, em que as pessoas se veem, se tocam, compartilham refeições e sentimentos, cuidam umas das outras.
Nos últimos meses, essa falta começou a pesar. Não à falta de interação social – isso eu tenho quando encontro semanalmente minha família e amigos, e também com meu marido, geminiano como eu, com quem converso o dia inteiro. O que falta é pertencimento, fazer parte de algo que não dependa só de mim para existir, saber que eu tenho um papel importante dentro de um grupo.
O ser humano, enfim, não se sustenta na solidão prolongada. Não importa o quão confortável ela seja. Não importa quantos livros leiamos, quantas séries assistamos, quantos projetos individuais realizemos, ou mesmo o quanto amemos a liberdade de trabalhar do sofá fazendo carinho em nosso cão. Há algo na nossa estrutura psíquica mais antiga, mais profunda, que precisa do outro. Que precisa pertencer a um grupo.
Talvez seja esse traço mais ancestral e evolutivo, resquícios de quando vivíamos em tribos, em volta de fogueiras, dependendo uns dos outros para sobreviver. Talvez seja porque precisamos do olhar do outro para existir. Talvez seja simplesmente porque somos feitos de gestos e outras sutilezas que só fazem sentido completo quando endereçados a alguém (e não, não vale pelo Google Meets).
Não estou dizendo que quero voltar ao presencial forçado, à exploração disfarçada de oportunidade. Jamais. Inclusive, desde que ingressei no mercado de trabalho, no meu primeiro estágio, já desconfiava da eficácia desse modelo – eu fazia todo o necessário em algumas horas, e precisava passar o resto do dia na frente do computador fingindo que estava trabalhando, o que me causava imensa revolta. Inclusive, uma pesquisa da Visier publicada esse ano apontou que 43% dos trabalhadores passam mais de dez horas por semana apenas tentando parecer produtivos (ao invés de produzirem, de fato, algo útil). Ou seja, pelo menos duas horas por dia são gastas em tarefas vazias que poderiam ser dedicadas a hobbies, autocuidado ou outras atividades significativas. Entre ceder o nosso tempo ao relógio alheio e viver na solidão do próprio ritmo, deve existir um meio-termo que ainda não encontrei. Um lugar onde a autonomia não signifique, necessariamente, isolamento.
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Foto da Capa: Canva.com

