Definitivamente, as pessoas com uma diferença marcante não têm descanso. Agora o que estão dizendo por aí nas redes sociais é que geladeira pequena é para anão. Uma maneira sutil de ironizar é fazer uma piadinha “inocente” para não perder a oportunidade de debochar de uma condição física. E quem tem nanismo está sempre na mira dos que fazem humor a qualquer custo.
– Primeiro tenho a dizer que o fato de um objeto, um utensílio doméstico, ou o que quer que seja, por ser pequeno, não significa que é destinado a pessoas de baixa estatura. Até porque, na vida real, a preocupação com questões que se referem à inclusão e acessibilidade ainda é uma busca cotidiana.
– Segundo, preciso fazer um esclarecimento necessário. Anão não é mais a palavra usada para se referir à baixa estatura porque a contaminação provocada pelo uso indevido carregou a expressão de preconceito. Acabou virando um adjetivo muito usado para fazer humor mesquinho e ofender as pessoas.
– Terceiro, mais um esclarecimento necessário. Hoje usamos a expressão “pessoa com nanismo”.
– Quarto, temos outra piadinha indigesta para somar às já existentes, que são muitas, e rolam sem filtro pelas redes sociais, que de sociais não têm nada. Alguém escreveu: “Boa noite, Celso Mussulmano, minha prima é anã e está internada, só vai sair quando tiver alta. Onde devo reclamar?”.
Por mais que eu queira ignorar, fico indignada com ironias e maldades feitas cotidianamente.
Mas a saúde mental recomenda não ficar discutindo com criaturas medíocres e insensíveis, cujo único divertimento é zombar da condição do outro. Portanto, cada vez mais se faz necessário que as famílias e as escolas eduquem as pessoas mostrando o que é respeito, o que é adequado, sinalizando por onde passa a discriminação desenfreada. É necessário informar e olhar para o nanismo, ou qualquer outra diferença marcante, com sensibilidade e empatia. A nossa força está na união. Estamos no mundo como qualquer pessoa, em busca de qualidade de vida, de acessibilidade, inclusão, diversidade, lutando pelos nossos direitos, sem negar a nossa condição. A campanha “Não são apenas alguns centímetros” deixa isso muito claro.
Aí me deparo com uma postagem da minha afilhada Drima Bondan, que mora em Portugal, mostrando que escolas da Dinamarca apostam na empatia em aulas de bondade. Há esperança, sim! Vale a pena conferir o que fazem. Segue abaixo.
Aula de bondade: o segredo das escolas mais felizes do mundo
Enquanto muitos países medem o sucesso escolar por notas e provas, a Dinamarca aposta em algo diferente — e, talvez, mais essencial: a empatia. No país que figura entre os mais felizes do mundo, crianças de 6 a 16 anos têm uma aula semanal obrigatória dedicada à bondade e à escuta ativa. Chamado de “klassens tid” (algo como “tempo da turma”), o encontro semanal não inclui fórmulas ou datas históricas. Inclui conversas sobre sentimentos, convivência e respeito. Os alunos se reúnem em um ambiente seguro para falar sobre o que os preocupa e para aprender a resolver conflitos antes que cresçam. Os professores atuam como mediadores, ajudando as crianças a desenvolver duas habilidades que transformam qualquer sociedade:
– Dar voz a todos, garantindo que cada aluno se sinta ouvido.
– Compreender o impacto das próprias ações — mostrando como palavras e atitudes afetam o outro.
O programa também inclui educação emocional e cuidados com os animais, ampliando o conceito de empatia para todos os seres vivos. Essa filosofia reflete uma crença simples e poderosa: a bondade é uma habilidade que se aprende e se pratica, assim como ler ou usar tecnologia. A Dinamarca mostra ao mundo que o verdadeiro sucesso não está apenas em diplomas ou notas, mas na capacidade de construir comunidades mais humanas e compassivas.
Fonte:
Klassens Tid Program / Sistema Educacional Dinamarquês / Danish Ministry of Education.
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Foto da Capa: Reprodução / Instituto Nacional de Nanismo

