Estamos a um ano de mais uma eleição de presidente da República. Muita gente reclama, e com razão, da polarização que reduz o debate político a esse chato e raso “tá comigo, tá com Deus”, infesta as redes sociais, ocupa espaço no noticiário político e empurra o eleitorado – de novo – para um perigoso “vou votar no fuLano pra não deixar o Beltrano ganhar em 2026…” (por favor, revisão: o L e o B são letras maiúsculas mesmo…).
As pesquisas estão aí a mostrar. Embora Lula apareça como favorito – e esteja recuperando popularidade, graças aos bons resultados da política econômica e à ajuda de Eduardo Bolsonaro, que, dos Estados Unidos, mandou para ele a bandeira da soberania e da defesa de empresários e trabalhadores contra a tirania de Trump – muita gente gostaria que ele não fosse candidato a um novo mandato.
O mesmo sentimento popular aparece em relação a Bolsonaro. A maioria dos brasileiros quer que o capitão esqueça o sonho da revogação da inelegibilidade e encerre logo o discurso de que pretende disputar a eleição em 2026.
O favoritismo de Lula – único candidato da esquerda – em relação à direita dividida entre vários candidatos a candidato (Caiado, Ratinho, Zema, Tarcísio, Michelle, Eduardo…) e com a liderança (Bolsonaro) presa e inelegível, entretanto, fica sujeito a eventuais instabilidades econômicas. Os eleitores têm ligação – quando têm – muito frágeis com os partidos políticos; o voto ideológico, por aqui, é quase inexistente. Assim, qualquer instabilidade leva à mudança de voto.
Pesquisa do Instituto Paraná, publicada em junho deste ano, mostra que 38,6% dos brasileiros não gostam de nenhum partido político. Outros 12,9% não quiseram ou não souberam responder. O PT, com 18,1%, e o PL, com 18,2%, empatam na preferência do eleitorado. O terceiro colocado é o MDB, com 5,6%.
Uma boa medida do pouco caso dos brasileiros para com os partidos políticos e dos partidos para com seus eleitores é a preferência pelo PSDB, que já ocupou a Presidência da República por dois mandatos, esteve outras três vezes no segundo turno das eleições presidenciais, governou Minas Gerais e São Paulo, entre outros cargos de primeiro escalão.
Apenas 1,7% dos entrevistados pelo Paraná Pesquisa citaram o partido tucano que, hoje, só governa o Mato Grosso do Sul, com Eduardo Riedel. Eduardo Leite e Raquel Lira, eleitos pelo PSDB em 2022, no Rio Grande do Sul e em Pernambuco, deixaram o partido.
A possibilidade de se trilhar uma terceira via na campanha do ano que vem também aparece em pesquisas estaduais. Vamos ver isso em números. Em agosto, a pesquisa Genial/Quaest andou por oito estados – Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Bahia e Pernambuco – para saber como é o perfil político preferido do futuro governador.
Em seis, a maioria do eleitorado não quer, a partir de 2027, ter um governador ligado a Lula ou a Bolsonaro. No Rio Grande do Sul, o desejo de um governador independente da polarização de hoje vem de 60% dos eleitores. Em São Paulo, esse índice é de 59%. No Paraná, no Rio e em Minas, o número é parecido: 58%. Entre os goianos, 54% preferem um governador independente de Lula e Bolsonaro. O percentual dos que não querem governador ligado a Bolsonaro e Lula só é menor de 50% na Bahia (49%) e em Pernambuco (44%).
O eleitorado se mostra, mesmo sem se referir diretamente a um nome, simpático a um candidato de fora dos campos do PT e da direita. O problema é: quem vai deixar de lado a caneta do Lula e a, ainda significativa, liderança de Bolsonaro?
Escrevi este texto, até o parágrafo aí em cima, no sábado, 4/10. Volto a ele hoje, domingo, 5/10, para dividir com quem não viu informações de pesquisa feita pela ONG More in Common em parceria com a Quaest, sob coordenação de Pablo Ortellado, pesquisador e professor da USP. Os pesquisadores ouviram 10 mil pessoas em todas as regiões do Brasil em janeiro e fevereiro deste ano.
Publicada no Globo, a pesquisa identifica como invisíveis os 54% da população que não se enquadram na polarização Lulismo x Bolsonarismo.
Essa gente toda, que pode decidir a eleição presidencial no ano que vem, é – segundo a pesquisa – conservadora nos costumes, mas não muito radical e apoia programas sociais com restrições, como aquela, meio preconceituosa, de que a ajuda promove a acomodação do ajudado…
O público pesquisado foi dividido em seis grupos: os desengajados (27%), os cautelosos (27%), os progressistas militantes (5%), a esquerda tradicional (14%), os conservadores tradicionais (21%) e os patriotas indignados (6%).
Dos desengajados, 30% votaram nulo, em branco ou não foram às urnas em 2022. Para provar o desengajamento, a pesquisa constata que 65% desse grupo não se identificam com nenhum partido. Outros 21,5% (boa notícia para Lula) se identificam com o PT, mas só 15% dos desengajados consideram importantes as manifestações políticas.
Os cautelosos são mais engajados e acham (26%) importante participar de manifestações. A maioria dos cautelosos é nordestina, poucos (11%) têm ensino superior completo e 55% deles (olha o Lula de novo aí…) ganham menos de R$ 5 mil por mês.
A pesquisa põe na mesa os ingredientes para as receitas dos marqueteiros políticos. Os invisíveis gostam de programas assistenciais, mas acham que eles promovem o comodismo, acham que a defesa dos direitos humanos atrapalha o combate ao crime organizado e dizem que a direita é muito autoritária.
Quem vai misturar melhor esses ingredientes? Quem vai enxergar primeiro os invisíveis? Lulistas, bolsonaristas? Ou vai surgir alguém que ilumine um terceiro caminho rumo ao Planalto?
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Fotos da Capa: Marcelo Camargo e Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

