
Quem nunca julgou um livro pela capa?
Uma pessoa pela aparência?
Uma matéria pelo título?
Quando escrevo, os comentários já me dizem quem leu e quem não leu a coluna.
Recebo críticas e elogios. Claro que prefiro os elogios, mas as críticas são, sem dúvida, mais divertidas.
Imaginar o que a pessoa que está me xingando pensa, vive, do que se alimenta é um exercício delicioso.
Não acho que hater se combate com mais hate. É mais divertido responder com bom humor ou, às vezes, com ironia.
Nas críticas sem sentido, me vem à cabeça a frase do Descartes: Penso, logo existo. Ela explica a vontade de xingar, sem ler, sem entender, sem nem saber do que o outro está falando. E traduzo como: “Xingando, sou visto, logo, existo.”
Ler e pensar dá trabalho, logo, xingar é mais simples.
Hoje em dia, dizer que o céu é azul pode desencadear brigas, raios e trovoadas.
— Não é azul, é lilás.
— Não é céu, é atmosfera poluída.
— Vocês estão doidos, isso é um holograma pra distrair as pessoas da realidade!
E, por aí vai… Então, falar qualquer coisa virou um ato de coragem; dar uma opinião, então, praticamente um ato de heroísmo.
Pra falar a verdade, mais do que dar opinião, ouvir o outro também ficou complicado. Se alguém não gosta da primeira palavra ou do olhar do outro, já liga a xingadora giratória e sai falando qualquer coisa, porque, afinal, assim será visto.
Quem xinga não está interessado na mensagem, no conteúdo, na coerência. Essa pessoa só quer ser vista, ouvida, mesmo que seja falando bobagens.
Pra finalizar, não posso deixar de lembrar do Luis Fernando Verissimo, que acaba de nos deixar e está sendo lembrado e reverenciado pela sua obra irretocável e inspiradora, mas que foi xingado pelas suas opiniões em alguns lugares, onde, deseducadamente, foi vaiado por um público que não concordava com a opinião dele.
Então, se isso te alegra, continue me xingando, porque ser xingada também prova que eu existo.
Todos os textos de Anna Tscherdantzew estão AQUI.
Foto da Capa: Ilustração de Iotti, especial para a coluna.

