Em 1938, Braguinha lançou a marchinha carnavalesca “Yes, nós temos bananas” para satirizar a alcunha insultuosa de República das Bananas atribuída a países da América do Sul. Advogando que temos “bananas para dar e vender”, o músico não somente enaltecia nossas riquezas naturais, como menciona nosso potencial exportador, por exemplo, do café, para a França, e do algodão, para o Japão. Com isso, sublinha o potencial do Brasil no comércio global e a diversidade de suas exportações.
No intento de chantagear e constranger o povo brasileiro, o todo poderoso imperador norte-americano, numa missiva, que não teve a elegância de enviar ao governo brasileiro, comunicou que a partir de agosto próximo deverá cobrar a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados para o glorioso Estados Unidos da América. O ataque do chefe do executivo americano foi além do esperado pelo filho Eduardo, embaixador dos Bolsonaros, pois penaliza o país como um todo.
A usurpação do regente dos EUA fala de um prejuízo nas transações comerciais Brasil/EUA, o que já foi demonstrado exaustivamente não proceder. A coação alberga-se no argumento político, pois há – segundo Trump – uma injustiça em curso concernente ao processo com o ex-presidente negacionista. Mas há quem enxergue que a ameaça do Presidente tenta atingir três coelhos de uma cajadada só: o Brics – esse parece o verdadeiro alvo -, proteger as big techs norte-americanas e intervir na soberania do Estado Brasileiro. Trump entende como sendo uma “vergonha nacional” submeter seu “amigo” brasileiro aos rigores da lei, conforme propicia nossa Constituição cidadã e nossos marcos institucionais.
Testemunhamos desconcertados o desmonte promovido, no governo anterior, desse país imenso chamado Brasil. A cruel resistência de assumir e enfrentar a pandemia de covid-19, levando a um número absurdo de óbitos. Vivenciamos um verdadeiro pandemônio: a quase falência de órgãos públicos, como, por exemplo, o SUS, o Ministério de Ciência e Tecnologia, o Ministério da Educação – com ele, das Universidades Federais, da estrutura de pesquisa e inovação… e tantos outros absurdos. A cereja do bolo foi a resistência em admitir a derrota eleitoral para o presidente Lula e a intentona de 8 de janeiro que tomou os três poderes de assalto. Tivesse obtido êxito, provavelmente, estaríamos hoje em uma ditadura.
Trump disse ser “vergonha internacional a forma como o Brasil tem tratado” o ex-presidente. Ele deve saber que esse moço teve o direito assegurado à ampla defesa e acessou todos os requisitos previstos em lei. Todavia, atos de vandalismo, negacionismo e atentado contra a democracia não podem e não devem passar impunemente. Todos temos conhecimento de que foram respeitadas as instituições jurídicas previstas. Vale repercutir aqui o que declarou nosso presidente Lula nas redes sociais: “O processo judicial contra aqueles que planejaram o golpe de estado é de competência apenas da Justiça Brasileira e, portanto, não está sujeito a nenhum tipo de ingerência ou ameaça que fira a independência das instituições nacionais”. Vergonhoso, de fato, parece ter sido Donald Trump, derrotado nas eleições presidenciais, incitar a ocupação de prédio público e permanecer impune.
Para um mandatário legitimamente eleito em sufrágio universal, seria prevaricar não defender a soberania nacional, prevista no texto constitucional como responsabilidade do Presidente da República. Infelizmente, nossa democracia vem sendo colocada em xeque. Presenciamos, consternados, o golpe aplicado na presidenta Dilma, submetemo-nos à eleição daquele que sucedeu a presidência no pós-golpe e, agora, aspiramos ao mesmo respeito. Sabemos da longeva e relevante relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, temos consciência da importância simbólica e real dos EUA no que se refere à estrutura de poder no mundo. Mas curvar-nos subservientes como uma mera republiqueta não é o desejado. Não quero dizer que devamos partir para uma guerra sem fim, senão que precisamos defender nossa Pátria e nossa democracia.
Está claro que é necessário, com esmero e bom senso, fomentar um processo de busca de entendimento. A importância das relações Brasil/Estados Unidos é suficiente para um acurado esforço diplomático. A presidência da República já conta com uma comissão constituída de representantes do setor produtivo e pelo Vice-Presidente, para uma desejada negociação. O presidente informou que o governo pode demandar uma busca de avaliação da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a situação. O Brasil, entretanto, não descarta fazer valer a Lei da Reciprocidade, instrumento legal de retaliação que pode ser usado como última medida de defesa da nossa soberania.
Como disse o presidente do Poder Judiciário, Ministro Barroso: “É nos momentos difíceis que devemos nos apegar aos valores e princípios que nos unem: soberania, democracia, liberdade e justiça. Como as demais instituições do país, o Judiciário está ao lado dos que trabalham a favor do Brasil e está aqui para defendê-lo”. Com ele, compreendemos que a soberania é indispensável a qualquer nação.
Diz a música popular mexicana: “menti menti menti porque el orgullo me cegó“. Sem ignorar que há muito em jogo nessa insanidade do mandatário dos Estados Unidos, parece possível aventar que o orgulho é um atravessamento perigoso do seu perfil psicológico, pois sua autopercepção alimenta um ego colossal. Além disso, sua vaidade alimenta uma miríade escandalosa de busca por reconhecimento e admiração.
“Yes, nós temos bananas.” Somos uma brava gente brasileira, com história, valores e dignidade. Gente que pode e sabe se defender. Unamo-nos ao clamor do cantante que rogou ao Brasil para “mostrar a sua cara”. A cara que queremos mostrar é de um povo que há muito mandou fora “o temor servil”, que não teme “ímpias falanges que apresentam face hostil”, como reza nosso belo hino da Independência. Brasil acima de tudo. Vamos juntos!
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, casado, pai de duas filhas e vô da pequena Ara. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP (1999). Tem alguns livros publicados, participou da organização de vários outros. Publicou diversos capítulos de livros e artigos sobre Filosofia da Educação e Ensino de Filosofia.
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