Hoje, começo perguntando: a alma humana se sente confortável com seus corpos habitando espaços transparentes e racionalizados que a arquitetura do menos é mais (less is more) produziu?
Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, diz que não. Os nossos estados da alma, diz ele, precisam achar correspondência no mundo físico. O lugar do recolhimento, do medo, da fuga, da confraternização, da solenidade e por aí vai. Antes dele, Freud já tinha chamado de inconsciente toda a imensurável complexidade que nos habita sem prestar contas. Somos seres da luz e da escuridão. Seres de nuances indizíveis que buscam, sem saber precisar, lugares para repousar estados da alma que não sabemos nominar, tal qual o inconsciente. Cabe aos arquitetos a arte de encontrá-los e oferecê-los, sempre de maneira incompleta.
É só pensar em como é bom dormir na segurança do nosso quarto, sabendo que os fantasmas se contentam com o sótão (nem sempre, é verdade… e desde que exista um…) para entender a correspondência entre espaços psíquicos e físicos.
O que acontece, então, quando a arquitetura integra o interno ao externo com a transparência absoluta? Junta em espaço único o que antes era dividido em compartimentos diferenciados, derrubando paredes e divisórias? Robert Venturi brinca com Mies e responde: o menos é chato (less is bore) e escreve um livro em que o título já diz tudo: Complexidade e Contradição na Arquitetura. Isso em 1966.
Esse livro foi a pedra fundamental do Pós-Modernismo. Na década da revolução dos costumes (Paris, Maio de 68), muitos arquitetos passaram a afrontar o dogma da razão a que Mies, Corbusier e outros tinham jogado a arquitetura e o urbanismo. O é proibido proibir em arquitetura significou libertá-la da norma, da disciplina, do estático, do permanente. Lindos movimentos surgiram nessa época, como o Archigram, Metabolismo, Archizoom e tantos outros que primavam pela irreverência e contestação. Esses arquitetos usavam sua produção para fazer um contraponto ao modernismo. Venturi foi mais longe. Incisivo, o fez em forma de livro. A sua produção como arquiteto, por outro lado, não falava por si, dependia muito do seu discurso para ser apreciada. O que, em arte, entendo eu, é um problema.
As ideias do Pós-modernismo propunham fechar o parêntese das teorias do movimento moderno, que, como vimos, foi um movimento revolucionário, de superação da história da arquitetura constituída até o fim do século XIX — a que tinha como maior representante a Academia de Belas Artes de Paris. A expressão corbusiana de um novo homem para um novo tempo (no masculino, não por acaso) perdeu força e significado quando se viu que ela também produziu a industrialização da morte, em massa, nos campos de batalha e de concentração de duas guerras mundiais. O mundo estava cansado do mundo novo e da Guerra Fria que o mantinha em banho-maria… Paz e amor pediriam os hippies com toda razão.
Uma das acusações que se fazia ao movimento moderno era a de que tinham jogado fora a criança junto com a água suja do banho. Era preciso dar sequência à história da arquitetura e da cidade, incluindo aí o próprio movimento moderno em nova medida. Muitos arquitetos, principalmente Scarpa, já vinham fazendo isso de forma silenciosa. Faltava um discurso para dizer com todas as letras a importância da continuidade histórica da arquitetura e da permanência de valores urbanos construídos por ela. Venturi o fez e de forma bem contundente. Lembrando, nisso, o estilo de Le Corbusier.
Quantos prédios condenados à demolição não foram salvos e recuperados após a rebelião pós-moderna? O Museu D’Orsay (museu do século XIX) instalado na antiga estação de trens Gare D’Orsay em Paris é um bom exemplo disso. Ia ser demolida.
Durante os anos 90, na gestão de Olívio Dutra, que considero um período em que Porto Alegre foi, de fato, a capital da inovação do país, tive a oportunidade de projetar as Escolas Infantis Pós-Construtivistas Santa Rosa, Ilha da Pintada (foto abaixo), Ponta Grossa e Valneri Antunes para a Secretaria de Educação, comandada por Esther Grossi, uma entusiasta inovadora da educação. As duas primeiras, bem construídas e conservadas, as outras duas, o inverso.

Para fazer o projeto, eu, primeiro, deveria participar de um grupo de discussões pedagógicas sobre como deveriam ser essas escolas que nem mesmo o grupo sabia e que até então eram chamadas de creches. O nome já indicava mudanças conceituais de peso. E foram. Nunca vou esquecer a bomba que tomei ao apresentar um estudo funcionalista que racionalizava o uso dos espaços da escola. Não, a lógica ali era organizar a escola em torno de uma hierarquia que ia da intimidade da criança ao social. Precisei buscar uma nova organização funcional da planta, mantendo a proposta conceitual que valorizava a dignidade institucional de uma escola pública e a diversidade de experiências sensoriais para as crianças.
Conheço poucos exemplos de projetos pós-modernos em Porto Alegre, por isso citei um meu. O movimento não encontrou terreno fértil no Brasil, com exceção de Minas Gerais, que produziu muito, principalmente com Éolo Maia e Jô Vasconcellos. Uma das razões, acredito eu, é que a produção, mundo afora, dos principais expoentes desse movimento primava mais pela alegoria da história da arquitetura do que pelos conceitos trazidos por Venturi. Colunas gregas estilizadas, palmeiras douradas e outros exageros (foto da capa) que mais pareciam uma revolta infantil contra a autoridade dos pais do que uma tomada de posição madura. Outra razão, que já falei aqui, é nosso apego aos ideais modernistas.
Essa arquitetura debochada não contribuiu para que o livro de Venturi ganhasse a projeção que merecia. Nem de perto alcançou a importância dos livros de Le Corbusier, a quem, principalmente na questão das cidades, respondia. Uma pena, porque seus conceitos poderiam ter ajudado a quebrar a inércia que vivíamos com o movimento moderno. Aconteceu o contrário: por exibir uma arquitetura um tanto menosprezada – não sem razão, eu mesmo assumo –, o pós-modernismo serviu de reforço aos que agora passaram a ser modernistas conservadores, numa ironia da história que infelizmente é recorrente em movimentos revolucionários.
Menos mal que o novo discurso foi sendo introjetado silenciosamente na doxa contemporânea. Mesmo que se pense, e se siga fazendo arquitetura miesiana, não é politicamente correto dizer que não se valoriza a arquitetura histórica ou que se é contra a preservação do patrimônio. Também pega muito mal negar valor à rua tradicional em favor de shopping centers e segregação das funções humanas, ainda que não saibam quem foi que por primeiro gritou contra isso no mundo. Os valores sagrados do modernismo já não encontram defensores explícitos, ficaram para trás. Alguns recalcitrantes, no Brasil, para não fecharem o parêntese, ainda preferem mantê-lo vivo, alegando que foi revisado, como se fosse possível perpetuar o que já não faz mais sentido.
Do pós-modernismo também é preciso dizer que a sua arquitetura exageradamente vistosa não vingou por muito tempo, suas ideias, porém, foram se transformando, evoluindo e se adaptando às necessidades de um tempo que pede reconhecimento ao já construído, seja por respeito à história, seja por respeito ao planeta. Cada arquiteto, por outro lado, tem buscado a sua maneira de responder a esse desafio. Não se ouviu até agora um novo grito. Impera a diversidade de propostas. A cacofonia resultante, por certo, incomoda espíritos, como o meu, que ainda está aprendendo a nadar na liberdade que a ausência de ordem unida traz.
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Foto da Capa: Reprodução

